A dona de casa Madalena de Oliveira Bezerra, buy de 38 anos, tirou a carteira de motorista há oito anos. Mesmo após passar na prova prática para tirar a habilitação, na hora de pegar o carro ela “travava”. “Mesmo com alguém do lado, eu não saía do lugar”, lembra Madalena. Causar tumulto no trânsito era a maior preocupação. “Ficava com medo de apagar o carro no meio da rua e vir outro carro atrás e bater em mim. Tinha medo até de dar a marcha à ré”, brinca.
Após anos parada, Madalena finalmente conseguiu a tão esperada liberdade. Ao menos para sair de carro sozinha. Ela fez 15 aulas de aperfeiçoamento para habilitados e já está segura para enfrentar o trânsito sozinha. No seu último dia de aula, ela fez o teste final: andar em uma BR. Foi até o Colorado, pela BR-020, e voltou para o final da Asa Sul, onde mora. A vitória foi comemorada pelo marido e pelos filhos. “Quando meu marido ia trabalhar e eu queria sair de casa com meus filhos, usava o metrô para me locomover. O carro ficava parado. Agora isso mudou”, conta Madalena.
Com a habilitação e as chaves do carro em mãos, ela pode levar os filhos na escola, visitar a mãe em Ceilândia e fazer outras tarefas diárias. “Eu tenho consciência de que estou fazendo tudo certo, de que estou na minha faixa e não preciso me preocupar se o carro apagar”, explica.
Incentivo
O incentivo final para procurar ajuda para voltar a dirigir veio quando Madalena viu um vizinho que utilizava as aulas do Centro de Treinamento e Aperfeiçoamento em direção Veicular para Habilitados (Cetadiv). “Anotei o número do telefone que estava no carro e liguei para marcar as aulas”.
As aulas são todas práticas. Um instrutor acompanha o aluno nos lugares em que ele mais precisa andar de carro. De acordo com cada caso, é feita uma rota de aulas com o problema que o condutor precisa superar. “Se a pessoa tem medo de andar em rodovias, a gente faz o trabalho todo para que consiga voltar a dirigir em locais de maior velocidade, ou com mais trânsito”, explica o diretor do Cetadiv, Adilson Cândido Garcia. Para os condutores que sofreram um trauma mais forte, há o acompanhamento de uma psicóloga. Mas, esse acompanhamento ainda não foi necessário. “Todos os alunos que passaram por aqui conseguiram superar os problemas sem a ajuda psicológica”, afirma Adilson.
Dos mais de 2 mil alunos que já fizeram o aperfeiçoamento desde que ele foi aberto, em 2006, a maior parte é de mulheres, cerca de 90%. Mas também há homens que sentem dificuldade para dirigir. Um deles é o funcionário público Ivan Teixeira, de 31 anos. Desde que tirou a carteira, há três anos, que ele está parado. Após dois meses no Cetadiv, ele ficou mais confiante. “Antes de tirar a carteira, não tinha contato com carro e, depois que tirei, ainda passei um tempo para juntar dinheiro e comprar um veículo. Como fiquei esse tempo parado,peguei essas aulas para ter mais segurança”, explica Teixeira.
Aprender na prática
O Detran também oferece ajuda para quem tem medo de dirigir. Diferentemente do Cetadiv, o órgão dá palestras para pessoas que precisam de alguma ajuda psicológica. São três perfis diferentes que se enquadram nas palestras, segundo o diretor de Educação de Trânsito do Detran, Miguel Ramirez Sosa: pessoas habilitadas que têm medo de pegar no volante, pessoas que fizeram a prova escrita, mas não conseguem iniciar as aulas práticas, e pessoas que mudam o comportamento na hora de fazer a prova prática, e acabam não passando por ficarem muito nervosas.
“O medo é uma defesa natural do ser humano, mas que pode atingir um nível patológico. Nesse caso, ele pode levar à sensação de incapacidade e se transformar num fator limitador”, explica Sosa. As palestras do Detran ajudam as pessoas a entenderem suas limitações e superarem o medo de dirigir. Ainda não há parte prática, mas Sosa já está programando a aquisição de dois carros para dar o apoio à prática.
Desde o ano passado, quando começou o projeto, cerca de 800 pessoas já assistiram às palestras. A grande procura fez com que uma lista de espera fosse criada, para organizar as turmas, que oferecem 35 vagas por vez.