O Distrito Federal ultrapassou no ano passado a marca de dois milhões de multas nas vias da cidade. No total, segundo o Departamento de Trânsito (Detran-DF), foram registradas aproximadamente 2,5 milhões de infrações: uma média de 206 mil por mês, mais de 6,8 mil por dia. O balanço representa aumento de 20% em relação a 2012. O índice, contudo, apontam especialistas na área, pode ser resultado da intensificação na fiscalização. Por outro lado, a outra hipótese é de uma população menos preocupada em respeitar as leis de trânsito.
O excesso de velocidade e as invasões às faixas e corredores de ônibus foram as infrações que mais contribuíram para o crescimento das multas, somando juntas 61% do total. “Acho que são vários fatores que contribuíram para isso. O primeiro, ao meu ver, é o aumento da frota de veículos. Mais motoristas foram habilitados em 2013. E vejo também a despreocupação do cidadão com a punição. Ele sabe que não vai acontecer nada com ele além de pagar um determinado valor”, esclarece Harmut Gunther, especialista em psicologia no trânsito da Universidade de Brasília (UnB).
Menos Mortes
O aumento das multas vai na contramão dos dados sobre mortes no trânsito. Segundo o Detran, o índice de óbitos nas vias da região caiu 10% na comparação entre 2013 e 2012. Foram 375 pessoas mortas contra 417 no ano interior. Para Luís Riogi Miura, especialista em trânsito, o número revela que menos agentes estão nas ruas e mais pardais entram em ação.
“Vejo isso como uma informação preocupante no que diz respeito à conscientização da população. Se o número de mortes diminuiu, mas as multas por excesso de velocidade aumentaram, isso significa que os equipamentos eletrônicos estão fazendo o papel dos agentes. Vejo um relaxamento dos brasilienses com relação às leis porque quase não se vê mais campanhas e agentes nas ruas”, avalia o especialista.
Para Paulo César Marques, doutor em Estudos em Transportes da UnB, “o comportamento dos motoristas pode estar mais ousado, por isso o aumento nas infrações”. Porém, destaca, “é importante ver o papel do Detran e, parece, o órgão trabalhou mais no passado. Resultado disso foi a intensificação da Operação Funil, que flagrava motoristas embriagados antes mesmo de pegarem na direção”.
População não vê investimentos
A opinião de Paulo César Marques, doutor em Estudos em Transportes da Universidade de Brasília (UnB), vai de encontro à afirmação do Detran sobre investimentos em campanhas educativas.
Durante o ano de 2013, o órgão arrecadou R$ 117 milhões em multas. O aumento é de R$ 7 milhões em relação ao ano anterior. Do montante, foram aplicados mais de R$ 4,5 milhões em educação nas vias e rodovias da região. O valor é o dobro do que foi investido em 2012.
Nas ruas da cidade, entretanto, motoristas não acreditam que os investimentos em educação no trânsito aumentaram. Ao contrário, especulam que o valor deve ter caído em 2013. “Vejo apenas uma cidade que não comporta mais a quantidade de carros que tem nela e isso leva as pessoas a apelarem para a pressa, pelo estacionamento irregular. E isso acarreta em multa”, afirma o servidor público Roberto Santos, 29 anos.
Parada proibida
Para não correr o risco de ficar sem vagas e acabar multado próximo ao seu trabalho, no Setor de Autarquias, Roberto chega antes das 8h ao local. “Depois desse horário você não encontra mais vagas aqui, mas vê as pessoas sendo multadas, o que acho errado. O cidadão precisa trabalhar, vem de carro e não tem onde parar. Não tem lógica nesse processo”, avalia o servidor público.
Para alguns, multa não pune
A servidora Carmelita Alves, 50 anos, conta que já levou multa por estacionar em local proibido. “Só existe promessa de aumentarem as vagas, porque isso não acontece. No meu caso, apelei e desisti de vir de carro. Hoje, venho de ônibus para não correr o risco de ser multada novamente. É revoltante”, conta. Ao mesmo tempo, sustenta, “as pessoas estão cada vez mais estressadas, mais cansadas de dirigir. O que, em tese, poderia justificar o excesso de velocidade”.
Contudo, o motorista Rolando Vargas, 50 anos, insinua que falta bom senso de ambos os lados. “Estão todos errados. O cidadão que dirige acima da velocidade permitida e o agente que multa por falta de estacionamento. Acho que tudo isso deveria ser pensando, reavaliado e planejado. Não acredito na multa como punição para quem está irregular. Não é isso que resolve o problema, senão elas teriam diminuído e não aumentado”, ressalta.
Motivos
Porém, sem detalhar as razões que podem ter elevado o número de multas, o Detran respondeu ao JBr. esclarecendo apenas que “são diversos fatores que contribuem no aumento da quantidade de infrações registradas. Entre eles: aumento da frota, do número de condutores, no número de operações realizadas, dentre outros”.
Desligado
Desde o final do ano passado, diversos radares eletrônicos do DF estão desligados porque o contrato com a empresa venceu.