A temperatura de mil graus carbonizou famílias inteiras em questão de segundos. Algumas pessoas tentaram se proteger do fogo se atirando no mangue, mas a água estava contaminada por combustível que havia vazado de um oleoduto. Elas se contorceram e queimaram, mesmo submersas. Há 31 anos, a Vila Socó (atual Vila São José), em Cubatão (SP), era palco de um grande desastre, que resultou em centenas de mortos e mudança de diretrizes de segurança para transporte e armazenamento de produtos inflamáveis.
O Distrito Federal tem sua própria situação com potencial de repetir a tragédia do litoral paulista: a existência de vilas e chácaras no Setor de Inflamáveis, dentro do Setor de Indústria e Abastecimento (SIA). O local, responsável pela distribuição de combustível para toda a capital e usado para guardar produtos de alta periculosidade, não tem infraestrutura para habitação, mas é diariamente parcelado e comercializado, a exemplo do que ocorre em lugares como Altiplano Leste, no Lago Sul, e Sol Nascente, em Ceilândia – este último, considerado a maior favela da América Latina.
No caso do SIA, porém, um agravante. As invasões e chácaras (hoje estabelecidas por meio de liminares e processos na Justiça) bloqueiam o que poderiam ser rotas de escape e de emergência, conforme o Jornal de Brasília mostrou em setembro do ano passado, com respaldo do Corpo de Bombeiros.
Dois mundos
O local que hoje abriga as chácaras e invasões se estende do Setor de Inflamáveis até o setor Lucio Costa. Nas proximidades do conjunto habitacional do Guará, no entanto, ficam os terrenos em processo de regularização. Por ali, há casas suntuosas com piscinas, comércio e igrejas. Mais próximas dos tanques de combustível, estão as vilas de baixa renda, com construções precárias e até fábricas clandestinas de tijolos.
Morosidade
A reportagem do JBr. mostrou, no fim de maio, que existe morosidade para resolver a questão. Promessas de resolução “rápida” datam de 2013 e, mesmo assim, o número de invasões só teria aumentado. No começo deste mês, a Agência de Fiscalização afirma ter erradicado 20 obras em dois dias e disse fazer ações constantes na área.
Defesa Civil, hoje, minimiza problemas
De acordo com a Secretaria de Desenvolvimento Social e Transferência de Renda (Sedest), na parte “baixa”, “há um perfil socioeconômico de vulnerabilidade. O fornecimento de água é feito por poço e o de energia elétrica é clandestino”. A exemplo da Vila Socó, onde os moradores também enfrentavam problemas sociais, essa área está na boca do perigo. O JBr. flagrou invasões nas saídas de emergência de alguns galpões de combustível.
Para a reportagem de setembro do ano passado, a Defesa Civil, na figura do major Oliveira, gerente de Produtos Perigosos, admitiu a gravidade da situação, mas reconheceu que qualquer solução era delicada devido à condição das famílias. Recentemente, o governo alegou que o órgão não vê riscos e acompanha a comunidade.
Petrobras
A Petrobras, dona da refinaria Capuava, de onde surgiu o vazamento para os mangues que ajudou a alastrar o incêndio em Cubatão (SP) há mais de três décadas, responde até hoje pela possibilidade de ter sido negligente. Em 2014, a Comissão da Verdade reacendeu o caso, já que a contagem de mortos (que, oficialmente, não passa de 100, mas, extraoficialmente, pode chegar a mil) e diversos aspectos da investigação foram negligenciados, por se tratar de período de ditadura militar à época.
Como o biólogo inglês Thomas Huxley teria dito, a grande tragédia da ciência é “o massacre de uma hipótese por parte de um terrível fato”.