Pouco mais de um mês que o Torre Palace Hotel foi desocupado pelos integrantes do Movimento Resistência Popular (MRP), a rotina no local parece ter voltado à normalidade. Aos poucos, turistas e moradores começam a circular pela região sem medo. O cenário de guerra vivenciado no início de junho, quando os invasores se recusavam a deixar o edifício, entretanto, é uma lembrança recorrente. A preocupação com o futuro da carcaça também existe. Até agora, a situação da estrutura continua sem solução.
Enquanto isso, o prédio permanece lacrado. Depois que um muro foi erguido até o primeiro andar, não é possível acessar o interior do hotel. Todas as saídas foram tampadas. A entrada para o subsolo foi aterrada, assim como a lateral do edifício. Boa parte do lixo que estava dentro do edifício foi retirada e o mau cheiro melhorou, mas não por completo. Além disso, ratos ainda são vistos com frequência.
Por outro lado, o policiamento parece estar funcionando como o previsto. Segundo os taxistas da área, viaturas da Polícia Militar fazem ronda. À noite, inclusive, a corporação fica de plantão. “Se não for assim, os usuários de droga vão voltar. Eles ainda circulam por aqui. Esses dias, um deles disse: ‘O muro não resolve nada. A gente mete a marreta e invade de novo’. Eles estão espalhados pelo Setor Hoteleiro Norte”, disse o taxista Ricardo Malveira, 38 anos.
Há quatro meses no ponto, ele comemorou a desocupação. “Agora, os passageiros têm coragem de descer dos hotéis, de pegar um táxi, de passear na cidade. Antes, ficavam com receio. Até a questão dos insetos melhorou, mas ratos ainda são vistos”, acrescentou. A insegurança também afetava a rotina dos taxistas. “Eu mesmo não ficava sozinho no ponto, não podia pernoitar nem marcar uma corrida na madrugada”, completou Ricardo.
“Demorou”
Para outro taxista da área, Luciano Santos, 38, o processo de desobstrução do hotel deveria ter acontecido antes. “Demorou demais. Deixaram o problema se agravar e o prejuízo ser maior para a nossa categoria e também para os hotéis. Os poucos passageiros que peguei disseram que, se soubessem da situação, não teriam se hospedado aqui”, relatou.
Moradora de um outro hotel próximo, que permanecia com duas janelas quebradas após a operação, Aureliza Batista Corrêa, 58 anos, fala do alívio de não ter mais os integrantes do MRP como vizinhos.
A aposentada reside no local há dois anos. “Eu não tinha coragem de sair da minha própria casa, não ia nem ao shopping. Só saía de carro, e muito rápido. O condomínio ficou aterrorizado com a situação”, completou.
“Problema existe e deve ser resolvido”
Incomodada com a situação do hotel próximo à sua moradia, a aposentada Aureliza Batista Corrêa disse que, por pouco, não mudou de endereço. “Cheguei ao ponto de quase sair daqui. Ia para a casa da minha filha ou da minha irmã. Não aguentava mais o transtorno. Toda noite, o barulho era insuportável, pessoas gritavam a todo momento”, ressaltou.
De acordo com ela, o Torre Palace não pode sair do foco. “O governo fez um paliativo. Não pode esquecer que o esqueleto continua aqui. O problema ainda existe e precisa ser resolvido o mais rápido possível. Estamos com medo da sujeira que ainda ficou, de bichos e mosquitos que podem transmitir doenças”, concluiu.
O Movimento de Resistência Popular ocupou o Torre Palace em outubro de 2015, após ter passado pelo St. Peter, no Setor Hoteleiro Sul, e pelo antigo Clube Primavera, em Taguatinga, sob o pretexto de lutar por moradia.
Versão Oficial
Em nota, a Secretaria de Saúde garantiu que “o local não oferece mais riscos à saúde e que as ações de desratização e combate ao Aedes aegypti já foram realizadas e concluídas pela Vigilância Ambiental”. O Serviço de Limpeza Urbana (SLU) informou que a limpeza da área externa também foi finalizada. A higienização do estacionamento contou com o apoio de caminhões pipa da Novacap.
Já a Secretaria de Segurança ressaltou que “não há nada previsto para a utilização do espaço do hotel Torre Palace pela pasta para programas sociais, visto que a determinação sobre o que será feito com o prédio ainda está em processo na justiça”. Isso porque, no dia seguinte à desocupação, a secretária de Segurança, Márcia Alencar anunciou que tinha planos para o edifício. “O hotel será um ambiente recuperado, de utilização de espaço público. Ações de cidadania deverão ocorrer no local, para dar à cidade o rosto que tem, de qualidade de vida”, afirmou.
“Informamos ainda que já foram realizadas diversas ações de uma força- tarefa de órgãos do governo, coordenados pela Subchefia da Ordem Pública e Social, como dedetização e desratização do prédio e apreensão de resíduos sólidos”, concluiu.
NA JUSTIÇA
Procurada pelo Jornal de Brasília, a Procuradoria-Geral do DF informou que os proprietários do antigo hotel Torre Palace ainda não foram citados pelo Tribunal de Justiça do DF, que permanece na tentativa de localizá-los. “Somente após a citação é que será discutida, no processo, a possibilidade de demolição. A Justiça poderá determinar a realização de perícia para avaliar a estrutura do prédio.
No entanto, até o momento, não há autorização judicial para que o governo promova a demolição da estrutura”, afirmou o órgão, por meio da assessoria.