Chocolate tem 16 anos. Ainda é novo, thumb mas já morou em vários lugares. Conheceu muita gente boa e ruim. A última vez que mudou de casa foi no ano passado. E foi para melhor. Desde então, passa por um processo de adaptação no novo habitat. Assim como o jovem elefante asiático, outros animais passam por um tratamento afim de encontrar o bem-estar. É o que acontece no Zoológico de Brasília. Toda semana, cerca de 20 animais tem atividades exclusivas para que possam expressar comportamentos e habilidades próprias das espécies.
O elefante responde positivamente às atividades. Ele foi resgatado do Le Cirque, em 2008. Chegou ao zoo magro, desidratado e abatido. Também estava estressado. Arrancava o mato do recinto e chegava a dançar por 18 minutos seguidos, em movimentos repetitivos.
A equipe de veterinários do zoo tinha um desafio: tirar os vícios do animal e proporcionar comportamento saudável. Optaram pelo enriquecimento ambiental. “O objetivo é enriquecer o recinto e as atividades para ser semelhante ao comportamento natural”, explica a médica veterinária Betânia Pereira Borges, uma das integrantes da equipe de condicionamento dos animais.
Depois de 20 horas de observação, a equipe começou a inserir atividades na rotina de Chocolate e a ver quais davam os melhores resultados. Picolé de frutas e música clássica durante três dias da semana foram agrados que deram certo. Além disso, uma surpresa algumas vezes por mês, uma caixa cheia de alimentos gostosos, mas que não fazem parte da dieta diária do elefante, o deixaram mais alegre.
Em menos de um mês Chocolate parou de destruir o habitat e ficou mais obediente. Os momentos repetitivos ficaram mais curtos: caíram para três minutos. O amigo de Chocolate, o rinoceronte Thor, também tem atividades exclusivas em sua rotina. Ele também veio do mesmo circo. Chegou estressado e com uma ferida no olho.
Bons resultados
Mas diferente do elefante, demorou a responder aos estímulos. Foram cerca de dois meses para que ele aceitasse a massagem terapêutica, feita com escova. O tratamento, que começou há seis meses, deu resultado. Thor está mais calmo e deixa as veterinárias cuidarem do machucado no olho.
O enriquecimento ambiental não é só com os animais que foram resgatados do circo. Dos 1,3 mil animais do Zoológico de Brasília, 20 ganham os cuidados especiais. “A prioridade é para os que chegaram com problema emocional ou os que estavam em cativeiro”, ressalta o diretor- presidente do Zoológico, Raul Gonzales Acosta.
As atividades são as mais inusitadas possíveis. Entre a musicoterapia para o Chocolate e a massagem de Thor, os felinos se divertem com pescaria e os macacos quebram a cabeça tentando encontrar a melhor forma de abrir uma bola de papel-machê cheia de sementes.
“As atividades são desenvolvidas de acordo com cada espécie”, explica a veterinária Betânia. A equipe conta que as pesquisas e estudos são intensos. “A gente trabalha com técnicas”, ressalta o diretor do zoo. As atividades não agradam só aos animais. O carinho da equipe é evidente. Eles abraçam o desafio de cuidar do elefante, do rinoceronte, macacos e outros bichos. “O melhor de tudo é ver os resultados. É gratificante”, afirma Betânia.
Depois dos maus-tratos
No ano passado, maus-tratos com animais de circo revoltaram o brasiliense. Vinte e quatro bichos do Le Cirque foram apreendidos e encaminhados para o Zoológico de Brasília. A apreensão ocorreu em razão da denúncias de maus-tratos contra os animais.
Entre eles estavam pôneis, girafas, elefantes e outros. Depois de alguns meses, por determinação judicial, foram transferidos para lugares que atendessem melhor as necessidades deles. Um rinoceronte macho, um casal de camelo, um casal de lhama e um elefante ainda estão no Zoológico de Brasília.
Segundo Raul Gonzalez, os outros animais ficaram pouco tempo no lugar e, por isso, não puderam passar pelo enriquecimento ambiental. “Foi tudo improvisado, com condições mínimas de abrigo, mas não ideais”, explica o diretor do zoo.
Os sete bichos que ficaram no parque recebem cuidados especias. Em recintos adequados, eles têm a atenção merecida. “Quando estão presos, se não há nada para fazer, podem aparecer problemas emocionais”, explica o diretor. “Por isso a importância de atividades que contribuam para condicionamento e o bem-estar do animal”, explica.
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| O enriquecimento ambiental é definido como o princípio de manejo animal que busca melhorar a qualidade de vida dos bichos cativos. Consiste na introdução de atividades criativas nos recintos dos animais. O tratamento resulta em bem-estar, pois os animais se exercitam mais, ficam mais estimulados e ativos. O tipo de atividade deve ser apropriado para a espécie em questão; isto garante não só a segurança dos animais, como também a do público |