Lucas Lavoyer
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A história do Brasil sustenta a capacidade de Oscar Niemeyer maturar simples rabiscos em edificações exuberantes, como em um passe de mágica. Materializado em inúmeros monumentos de Brasília, o dom do arquiteto centenário permanece imortal e à vista de uma população cultural e historicamente exigente. Para saciar ainda mais este saudável mau costume do brasiliense, pelo menos três de seus projetos arquivados poderão ser construídos no Distrito Federal, nos próximos anos. Mas polêmicas, resistências políticas e da população e o desleixo no tempo ainda deixam novas geometrias de Niemeyer à mercê de um futuro incerto.
Entre os projetos engavetados do arquiteto, estão a Praça do Povo, o Sambódromo de Ceilândia e a Ponte do Lago Norte. As três propostas têm áreas predeterminadas para serem construídas e foram apresentadas e discutidas nos mandatos dos últimos governadores do DF.
Festódromo
Longe de ser idealizado apenas como um espaço para sediar passeatas carnavalescas, o Sambódromo do Distrito Federal – conhecido popularmente como Ceilambódromo – apresentado por Niemeyer em 2005, recebeu o título informal de Festódromo, devido planejamento para receber inúmeras festas, promovidas durante o ano inteiro. Depois de passar por um processo de concorrência pública, a obra poderia ser concluída em até 150 dias, de acordo com estudo preliminar assinado pelo próprio Niemeyer.
Inicialmente, o ponto festivo ocuparia o Parque da Cidade, a partir de um propósito mais antigo, realizado conjuntamente com o arquiteto Fernando Andrade. “Foram dois projetos para o Sambódromo, sendo o primeiro, desenvolvido na época do governador José Aparecido (1985 e 1986) para o Parque da Cidade. O mais recente, foi na última gestão do Roriz (entre 2003 e 2006). A mudança para Ceilândia foi uma orientação do governo”, comentou. No entanto, o GDF indicara recentemente que o Carnaval do DF poderá ser transferido para o Plano Piloto, devido à acessibilidade do centro brasiliense, o que empacaria o Ceilambódromo de Niemeyer de vez.
No papel, um imenso salão circular receberia camarotes, sanitários e bares, rampas ovais acessariam uma sutil arquibancada e um palco em semicírculo finalizaria uma das obras mais geometricamente comportadas do arquiteto.
Segundo o ex-secretário de Cultura José Silvestre Gorgulho, a arena multiuso atenderia necessidades de uma região que há muito demanda um espaço para celebrar eventos. “Niemeyer não poderia fazer um Sambódromo para funcionar só no Carnaval”, comentou.
Praça no coração de Brasília
Outro projeto empacado de Oscar Niemeyer é o da Praça do Povo, que completaria o Complexo Cultural Norte, no Eixo Monumental, entre o Teatro Nacional e os Ministérios da Esplanada. Apesar de ainda estar no esboço, o projeto impressiona pela ousadia marcante de Niemeyer.
Além de uma imensa parábola para receber até 40 mil pessoas, duas outras cúpulas menores – destinadas a um anfiteatro e a um circo – completam a proposta. No arco principal, um ousado palco com 50 metros de comprimento e 20 de largura seria construído. Para evitar caos e aglomerações, o desenho não prevê estacionamentos nas imediações da obra. A solução está marcada pela utilização de ônibus exclusivos.
Perguntado sobre a decisão de transformar um dos únicos espaços vazios da região central de Brasília em um complemento cultural, Gorgulho respondeu: “Por que fazer numa área nobre daquela mais uma burocracia de Brasília? ”
Membro da Fundação Oscar Niemeyer, no Rio, e responsável pela Coordenação e Desenvolvimento dos Projetos do arquiteto, Jair Valera, participou diretamente do desenho da Praça do Povo e elogia o projeto: “É muito interessante. As pessoas poderiam ir a pé aos eventos”.
Governador promete execução
Em homenagem a Niemeyer, o governador Agnelo Queiroz reuniu a imprensa ontem para anunciar a execução de projetos engavetados, como a construção da Ponte do Lago Norte e de uma praça no entorno da Torre de TV Digital, que deverão levar o nome do arquiteto. “Brasília ainda verá muitos projetos do nosso gênio”, prometeu o governador.
O GDF organizará um evento no próximo dia 15, quando Niemeyer completaria 105 anos. A programação deverá ocorrer na Torre de TV Digital, último projeto dele em Brasília.
Agnelo ressaltou que “Brasília tem uma identidade muito forte com Niemeyer e as inúmeras obras deixadas por ele”. “A melhor forma de homenageá-lo é preservar esse patrimônio e oferecer qualidade de vida à população de Brasília”, discursou o governador.
Museu a céu aberto
“É um orgulho enorme para Brasília e seu povo ter recebido tantas obras do Niemeyer. Brasília é um museu a céu aberto, somos a cidade que mais recebeu contribuições desse gênio da arquitetura. Foi com grande honra e emoção que eu, como governador, entreguei a Brasília e ao mundo a última grande obra de Oscar Niemeyer em vida”, disse.