A primeira fábrica de insulina do Brasil produzirá o hormônio com tecnologia desenvolvida pela Universidade de Brasília. A comercialização da patente abre perspectivas de rendimento para a instituição, pills que tem direito a 2% da renda líquida referente à venda do produto.
O investimento inicial no empreendimento será de aproximadamente R$ 200 milhões para produzir 800 quilos de matéria-prima por ano. A fábrica funcionará no Distrito Federal e o produto deverá chegar ao mercado em dois anos, conforme anunciou em fevereiro a União Química, empresa responsável pela produção.
O negócio fechado com a União Química – intermediado pela empresa Biomm, que detém a patente junto com a UnB – inaugura a comercialização de tecnologias da universidade no Brasil. A transferência de tecnologia a outros países rendeu para a instituição, nos últimos dois anos, R$ 176,6 mil em royalties, valor pago para o detentor de uma inovação pelo seu uso.
Atualmente, a universidade possui 72 patentes registradas e negocia 10 tecnologias. Entre as patentes estão um composto farmacêutico para o tratamento de Doenças de Chagas e um aplicador de fita adesiva, cujo protótipo será produzido este ano. “São inovações desenvolvidas na universidade que podem chegar ao mercado e beneficiar a população”, ressalta do diretor do Centro de Desenvolvimento Tecnológico da UnB, Luís Afonso Bermúdez.
O CDT investiu R$ 18 milhões em registro e transferência de tecnologia em 2008. Valor captado pelo centro em editais de fomento à pesquisa e projetos desenvolvidos pela unidade. O custo do registro internacional pode atingir valores altos. Para registrar uma patente nos Estados Unidos e México em 2009, o CDT gastou R$ 20 mil.
A expectativa de Bermúdez é de um retorno muito maior em longo prazo. Isso porque o diálogo com empresas para fechar negócio demora, em média, 2 anos. O estudo para o desenvolvimento do método de tecnologia para fabricação de insulina, por exemplo, começou dez anos atrás, com a participação da Biomm.
DESAFIOS – A relação entre empresas e universidades ainda é frágil no Brasil. A comercialização de patentes é prática recente. Para se ter uma idéia, a Lei de Inovação, marco regulatório na relação entre empresa e instituições de ensino e pesquisa, é de 2004. “É difícil convencer a empresa a fazer parceria com a universidade, não temos essa tradição. Países de primeiro mundo, como Estados Unidos e Japão, fazem isso há décadas”, afirma a coordenadora de Inovação e Transferência de Tecnologia do CDT da UnB, Rosângela Ribeiro.
Antes mesmo de a lei ser criada, algumas universidades se aventuravam no setor. Na linha de frente, estão a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e a Federal de Minas Gerais (UFMG), entre as cinco instituições brasileiras com o maior número de patentes registradas. A Unicamp anunciou 500 patentes em dezembro de 2007, enquanto a UFMG detém hoje exatas 362.
A comercialização e transferência de tecnologia rendeu para a Federal de Minas Gerais R$ 1,4 milhão em royalties entre 2004 e 2008. O primeiro produto resultado de tecnologia produzida na instituição chegará ao mercado este ano, uma vacina recombinante contra Leishimaniose para cães, um dos principais vetores do homem.
“O processo é lento, ainda estamos afinando a pesquisa com a dinâmica da empresa”, afirma o pró-reitor Adjunto de Pesquisa e Diretor da Coordenadoria de Transferência e Inovação Tecnológica da UFMG, Rubén Dario Milan.
Segundo ele, só agora surgem contratos baseados na Lei de Inovação. A UFMG lançou o primeiro edital nos moldes da lei em 2008. Mesmo com a regulamentação, ainda existe uma insegurança jurídica no funcionamento das universidades, especialmente no que se refere ao papel das fundações de apoio. “Precisamos colocar no papel formas claras de funcionamento”, destaca Milan.