Por Daniel Xavier
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As medidas tarifárias de Donald Trump que entram em vigor em 1º de agosto, próxima sexta-feira, e que taxam em 50% as exportações do Brasil aos Estados Unidos, irão atingir diretamente setores estratégicos da indústria do Distrito Federal.
Entre os empresários afetados está o brasiliense Rômulo Lopes, CEO do Pamonha Pura, em Taguatinga – que exporta produtos congelados derivados do milho –, e da Amazzon Easy, distribuidora de açaí sediada em Águas Claras – ambas com operações regulares de exportação para os EUA desde 2015 e 2020, respectivamente.

Ao Jornal de Brasília, Rômulo relata que os efeitos do tarifaço já começaram a ser sentidos. “Nosso comprador nos Estados Unidos sinalizou que, com essa taxação, o negócio se torna inviável. Tivemos que produzir em uma semana e meia o que estava previsto para quatro só para embarcar o último lote antes da medida entrar em vigor”, explica.
Segundo ele, o aumento dos preços poderá afastar o consumidor do chamado mercado da saudade – aquele cujos produtos comercializados remetem ao local de origem do comprador –, levando-o a optar por produtos locais, mesmo que sem o mesmo valor afetivo.
Diante da incerteza, uma das alternativas estudadas é a abertura de uma filial nos Estados Unidos, o que poderia garantir isenção da nova tarifa, conforme sinalizado pela campanha de Trump. “Mas ainda é tudo muito especulativo. Estamos conversando com outras empresas do setor e todos estão aguardando os próximos desdobramentos para tomar decisões mais concretas”, afirma.
O empresário também alerta para os impactos no mercado interno. “Parte da produção pode ser absorvida aqui, mas não toda. E, sem a demanda internacional, a tendência é reduzir a equipe. O que era uma oportunidade de crescimento agora virou um cenário de insegurança para quem depende da exportação”, lamenta.

Produtos mais afetados
O presidente da Federação das Indústrias do DF (Fibra), Jamal Jorge Bittar, alerta para os impactos da tarifa de 50%. Ele diz ao JBr que, em 2024, o DF exportou cerca de US$ 7,8 milhões para o mercado estadunidense – quase o dobro de 2021. Entre os setores mais sensíveis à medida estão alimentos e bebidas, óleos não alimentícios, vestuário e derivados de petróleo, com destaque para itens como pães, farinhas e roupas.
No ano passado, 102 empresas brasilienses realizaram exportações para outros países e os EUA aparecem como o sétimo principal destino, atrás de países como China e Japão. Segundo Jamal, a sobretaxa pode elevar os preços dos produtos brasileiros, reduzir a competitividade e levar à retração de contratos. “É uma situação sem precedentes, que está forçando fornecedores e compradores a recalcularem rotas e custos”, afirma Jorge.
A Fibra também monitora os possíveis reflexos sobre o programa Exporta DF – Sabores da Capital, voltado ao estímulo das exportações locais, principalmente de alimentos.
Mercados como os da América Latina, Oriente Médio e África já vêm sendo mapeados como alternativas viáveis aos EUA diante do tarifaço de 50%. Paralelamente, a entidade atua com a Confederação Nacional da Indústria (CNI) e outras federações estaduais que estão em articulação com o governo federal e com entidades empresariais para mitigar os danos e buscar soluções antes do fim deste mês.
Prejuízo bilionário à agricultura
A sobretaxa pode gerar um prejuízo estimado em US$ 5,8 bilhões para a agroindústria nacional, segundo a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). Os setores mais afetados incluem a indústria de sucos, que pode perder US$ 795 milhões caso as exportações sejam interrompidas, além das cadeias de carne bovina (US$ 671 milhões), café (US$ 481 milhões), açúcar de cana (US$ 620 milhões) e etanol (US$ 152 milhões).
A carne bovina de Goiás, que responde por cerca de 25% das exportações do estado, enfrenta impacto direto com a tarifa. Em resposta, frigoríficos goianos já iniciaram a suspensão dos embarques ao mercado americano. Ciente dos riscos, o governo de Goiás intensificou esforços para diversificar a pauta de exportações. A Secretaria de Agricultura destacou missões internacionais, incluindo ao Japão, como parte de uma estratégia para abrir novos mercados e reduzir a dependência dos EUA.
A reação do Brasil ao tarifaço americano ainda é incerta. A Federação das Indústrias de Minas Gerais estima que, caso o Brasil aplique uma retaliação na mesma intensidade, o impacto no PIB pode chegar a R$ 259 bilhões em dez anos, com a perda de 1,9 milhão de empregos.
“O que vemos é um recrudescimento global do protecionismo”, avalia o economista Maurício F. Bento, professor de Economia Internacional na Hayek Global College. “Historicamente, os EUA foram promotores do livre comércio, mas agora caminham na direção oposta. Isso sinaliza uma deterioração nas relações bilaterais e ameaça a estabilidade da ordem liberal global”, destaca.
Para o especialista, a medida do presidente Trump pode empurrar o Brasil para uma aproximação ainda maior com a China. “Já somos parceiros comerciais. Um conflito com os EUA pode aprofundar essa aliança, o que não é do interesse dos americanos”, diz Bento.
Enquanto isso, no DF, a Secretaria de Economia segue monitorando o cenário. Técnicos do órgão afirmam que ainda é cedo para mensurar o impacto exato da medida, uma vez que há chance de negociação entre os governos para reduzir as tarifas antes de entrarem em vigor em 1º de agosto.