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Brasília

Suspensão do "Minha casa, Minha vida" tem efeito devastador

Arquivo Geral

21/03/2013 8h50

Carla Rodrigues e Isa Stacciarini
redacao@jornaldebrasilia.com.br

 

Aproximadamente 30 mil trabalhadores da construção civil devem ficar desempregados nas próximas semanas. Um aumento de 22,3% no índice de desemprego no Distrito Federal. O motivo é a decisão do Ministério das Cidades de suspender novas contratações de financiamentos imobiliários do programa Minha Casa, Minha Vida na Região Metropolitana  do DF. Como o órgão não deu prazo para a liberação do projeto, a previsão dos construtores é de que o setor, que vinha crescendo nos últimos anos, sofra um forte desaquecimento.

 

 Há ainda a expectativa de que 60 mil funcionários indiretos do ramo percam seus empregos. E o cenário pode ficar ainda pior: 60 mil famílias aguardam a liberação dos contratos de habitações em fase final de conclusão. Enquanto isso, o sonho de ter a casa própria parece cada vez mais distante.

 

De acordo com o economista José Luiz Pagnussat, da Universidade do Distrito Federal (UDF), o impacto da decisão é altamente negativo. “A construção civil equivale a 80% do ramo da indústria de transformação no DF. O efeito, no caso de ocorrerem todas as demissões previstas, é quase devastador”, explica.

 

 Isso, apontou o professor, sem falar na Região Metropolitana do DF, que vai sofrer com a queda de renda de parte da população já em vulnerabilidade social. Para ele, qualquer medida que tenha impacto negativo na sociedade deve ser tomada com muito cuidado. “O ministério deve ter resolvido os problemas pontuais, sem prejudicar tantas pessoas”, assinalou.

 

 

A interrupção foi determinada porque técnicos do ministério constataram a existência de problemas no abastecimento de água. Os municípios goianos de Águas Lindas, Luziânia, Novo Gama, Cidade Ocidental e Valparaíso são os mais prejudicados com a decisão.
Contudo, a Saneago – empresa de saneamento básico de Goiás – anunciou que resolverá,  com uma solução imediata, o problema, furando novos poços na região. Além disso, há ainda o compromisso de que seja concluída, até o final de 2014, a captação de água na usina Corumbá IV.

 

Agora, dizem os construtores, a Caixa Econômica Federal informou que vai criar novas exigências para o programa. “Estamos dispostos a cumprir. Só não podemos ficar neste impasse, que prejudica muitas famílias”, afirmou Nertan Gois, dono da Construtora Gois, que emprega cerca de 500 pessoas. Caso a situação não seja resolvida em duas semanas, 50% dos funcionários da empresa devem ser demitidos.

 

A Região Metropolitana do DF possui um deficit habitacional de 150 mil residências. Ao menos 150 construtoras e mais de 200 imobiliárias investem nas regiões próximas do DF.  De acordo com pesquisas realizadas por construtoras da região, 60% da demanda do Minha Casa, Minha Vida são de clientes que não conseguem ou não querem mais comprar no DF.

 

Segundo o diretor da Prólar Empreeendimentos, Douglas Ricardo Felício, a empresa perdeu 80% das atividades por conta da decisão. Aproximadamente cem funcionários  serão prejudicados. “As pessoas sabem que vão trabalhar por um, dois meses sem receber. A única maneira de se manter é com empréstimos bancários”, contou. A companhia tinha 20 contratos com clientes que não foram mantidos pelo Ministério das Cidades, apesar de o órgão afirmar que iria manter os acordos em vigência.

 

Um dos beneficiados pelo Minha Casa, Minha Vida foi o motorista Vilmar Paixão, 32 anos. “Os problemas deveriam ter sido sanados. O programa não podia ter sido paralisado”, ressaltou. Ele vive em uma residência próxima à Cidade Ocidental, financiada pelo programa. “Sou realizado. A vizinhança é tranquila e eu moro bem”, disse.  Para ele, o Minha Casa, Minha Vida é uma das poucas formas das pessoas de baixa renda adquirirem imóveis.

 

Assim aconteceu com Rebecca Mattioli, 27 anos. Casada e mãe da pequena Maria Tereza, ela conta que morava no centro de Taguatinga, mas não tinha qualidade de vida na região. Depois que financiou a casa pelo programa do governo,  passou a ter a vida que desejava. Sua residência fica a 30 minutos de Brasília, mas a distância, apontou, vale a pena. “Minha filha tem espaço para brincar e está segura. Isso, para mim, não tem preço”, avaliou Rebecca.

 

 

Segundo o Ministério das Cidades, a suspensão ocorreu porque as instituições financeiras (Caixa e Banco do Brasil) e o próprio órgão “estão dialogando junto à Saneago para que não haja qualquer intermitência no abastecimento de água dos empreendimentos”.

 

Até fevereiro deste ano, foram aprovadas operações do Minha Casa, Minha Vida no valor de R$ 4,134 bilhões nos municípios em que foi suspenso. As cidades vizinhas ao DF estão entre as que mais contam com os investimentos do programa. “Meu irmão foi prejudicado com a decisão. Ele estava esperando sair a liberação para se mudar. Agora, só Deus sabe como vai ser”, contou a estudante Rosana Gomes de Carvalho, 27 anos. Ela mora em uma das habitações do financiamento, na Cidade Ocidental. O condomínio onde vive possui mais de 600 casas, todas com dois quartos, suíte, sala, cozinha, banheiro e garagem. “Estou muita satisfeita com a aquisição”, completou.

 

Essa era a esperança também de Rogério Inácio da Silva, 32 anos. Ele financiou duas casas no condomínio onde vive Rosana: uma para ele e a noiva, outra para a mãe. Contudo, após a decisão do ministério, sua vida ficou completamente bagunçada. Agora, a viagem da mãe, que mora em Goiânia, foi adiada e a mudança  está sem prazo para acontecer. “Estamos perdidos”, lamentou o gerente de vendas.

 

 

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