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Brasília

Suspeito preso, mas faltam explicações

Arquivo Geral

31/03/2013 11h15

Um cordão, uma aliança e um brinco. Estes três objetos, a princípio, seriam a causa da morte por estrangulamento da professora Christiane Silva Mattos, de 37 anos, assassinada dentro do próprio carro, um Fiat Bravo, preto, no estacionamento número 9 do Parque da Cidade, no início da noite de quinta-feira. A revelação foi feita por Walisson Santos Lemos, 24 anos, preso em flagrante, sexta-feira à noite, em Santa Maria onde mora. Ele é apontado como autor do crime  que chocou os brasilienses. 

 

Três versões foram apresentadas, até agora, pelo  suspeito à polícia para o assassinato que deixou duas crianças, de sete e dois anos, órfãs. Em uma delas, ele afirmou ter abordado a vítima para roubar, mesmo tendo deixado para trás carteira, cartões e celular. A abordagem a Christiane teria ocorrido no estacionamento interno de um shopping, no início da W3 Sul. A polícia encontrou um tíquete confirmando que a educadora esteve com seu carro no local. Antes, Christiane passou por outro shopping, na área central, onde comprou ovos de Páscoa para os filhos e parentes. Porém, nas imagens gravadas pelas câmeras do circuito interno dos dois  estabelecimentos e analisadas pela polícia não aparecem a vítima saindo com o suspeito.

 

Interrogações

Apesar de Walisson ter confessado a autoria do assassinato, isso não é suficiente para incriminá-lo e muitos pontos ainda precisam ser esclarecidos pela investigação (veja quadro ao lado). O suspeito foi identificado pelas impressões digitais deixadas no carro e vestígios da pele de Christiane encontradas nas unhas dele. Também haviam vestígios da pele de Walisson nas unhas da vítima. 

 

O suspeito disse ainda ter matado a professora por ter se sentido ofendido por ela, que o teria confundido com um guardador de carro. A versão no entanto, é contestada por parentes de Christiane.  Segundo eles, a pedagoga, católica praticante,  sempre tratou  os flanelinhas com cordialidade e procurava parar o veículo em estacionamentos pagos.

 

Revolta

O administrador de empresa Plínio Marcos Dias Paes, 35 anos, cunhado de Christiane, esteve na delegacia prestando depoimento e disse ter sido informado de que o suspeito  tem duas passagens pela Lei Maria da Penha. Em uma das ações teria tentado estrangular uma mulher. “Se ele estivesse preso não teria feito uma nova vítima. A Justiça precisa ser mais enérgica e acabar com os saidões nos feriados”, afirmou.

 

Walisson será apresentado pela polícia à imprensa amanhã, na delegacia da Asa Sul. O advogado Álvaro Chagas esteve ontem à noite na unidade e se apresentou como defensor do rapaz. Conversou com uma delegada e disse que a autoridade policial achou as declarações do rapaz confusas e desencontradas. No entanto, disse que vai analisar os autos para entrar com habeas corpus em favor do cliente.

 

Perguntas sem respostas

– Onde  Walisson Santos Lemos abordou Christiane?

 

– Como ele a convenceu a acompanhá-lo? Tinha uma arma ou faca?

 

– A que horas ocorreu o crime? Logo após a abordagem?

 

– Qual o real motivo de ele tê-la matado?

 

– Ele conhecia a vítima?

 

– Por que o corpo foi deixado no Parque da Cidade?

Por que ela estava de cinto de segurança?

 

– Por que não levou todos os objetos de valor, como carteira, cartões e celular?

 

– Após o crime, como ocorreu a fuga?

 

– Há o envolvimento de outras pessoas?

 

– Onde está a chave do carro?

 

“Espero que seja feita Justiça”

Parentes e amigos se reuniram na manhã de ontem para dar o último adeus à professora Christiane Silva Mattos. Sobre o caixão um terço cor de rosa descrevia em silêncio a fé da família em que a justiça será feita. A comoção pela forma brutal com que a mãe de duas crianças foi retirada do convívio de seus familiares tomou conta dos presentes no Cemitério de Taguatinga, que, entre elogios à pessoa de Christiane, pediam paz. “Queremos justiça, para que não matem mais nossos filhos. Digamos não à violência”, gritou uma mulher que estava em meio à multidão que acompanhava o sepultamento.

 

 

Abraçado a uma foto da mulher, o marido Marcos Aurélio de Sousa Mattos era consolado por seu irmão, que o acompanhou durante todo o velório. Bastante emocionado, ele agradeceu o apoio de pessoas que nem eram tão próximas do casal e leu um trecho de uma carta que recebeu. “Acreditamos que tudo tem um por que, um propósito. Marcos, acredite no Senhor (…), que Ele venha te guardar e consolar”, dizia a mensagem.

 

Na hora do enterro, Marcos olhava a foto que tinha nas mãos, enquanto ao fundo os presentes cantavam “Deus está aqui neste momento”, da Banda Romanos.

 

Ao lado do caixão, a mãe de Christiane, muito abatida,  chorava enquanto fazia declarações de amor à filha, descrita por amigos como uma pessoa “alegre, carinhosa e que nunca havia feito mal a uma mosca sequer”.

 

Legislação

À imprensa o pai da professora José Mariano dos Santos, declarou: “Nunca pensei que teria forças para enterrar minha filha. Espero que seja feita a justiça”. Ele ainda criticou a legislação brasileira, que prevê o abatimento da pena de condenados com bom comportamento.

 

Os familiares de Christiane foram unânimes ao elogiar o trabalho da Polícia Civil, que  não mediu esforços para encontrar a professora  e prender o autor do crime. Entre os amigos de trabalho de Christiane, uma professora da Escola Classe 204 Sul leu um poema da escritora Cora Coralina que fala sobre viver intensamente, algo aparentemente conseguido pela vítima, tão querida nas declarações dos presentes. Alguns alunos também foram se despedir da professora.

 
 Leia a reportagem completa na edição de hoje do Jornal de Brasília.

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