Manuela Rolim
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“Ele me conquistou pela forma como me tratava, era só amor e carinho comigo. No início do relacionamento, parecia um príncipe. Me dava flores, caixas de bombons e presentes”. Dois meses depois, o homem descrito acima assumiu o posto de principal suspeito da morte do DJ Yago Linhares Sik, de 23 anos, brutalmente assassinado na madrugada do último domingo (2), no Conic. A declaração é da ex-namorada do acusado, ao Jornal de Brasília, dois dias depois dele atirar na vítima por ciúmes.
Segundo ela, o relacionamento deles durou apenas dois meses. Após os primeiros 30 dias de namoro, porém, o companheiro deixou de ser príncipe e se revelou um agressor. “Foi o primeiro surto dele, sempre por ciúmes. Me agrediu fisicamente e moralmente. Fiquei com as pernas roxas e o pescoço também. Passei três dias mancando e com a boca inchada, sem conseguir comer. Na hora, estava alcoolizado e drogado”, lembra. Ainda assim, ela não registrou ocorrência contra o rapaz, que tem 22 anos. “Perdoei. Ele pediu desculpa, disse que ia mudar e que nunca mais isso ia acontecer. Acabei deixando passar”.
No sábado passado, entretanto, o suspeito agiu de novo. Apesar de estarem terminados, os dois resolveram ir juntos a uma festa no Conic, mas, na madrugada do domingo, o jovem matou o amigo de sua companheira na saída do evento, depois de uma briga motivada, mais uma vez, por ciúmes. “Estávamos tentando uma reaproximação, por isso fomos juntos. Lá dentro, ele criou caso com outros amigos, sem ser o Yago, logo no início da festa. Brigamos e fomos embora por volta das 2h. Coloquei ele dentro do carro, o levei para casa e aproveitei para pegar minhas coisas que estavam lá”, conta.
Em seguida, ela voltou para o evento. Cerca de 20 minutos depois, o suspeito também apareceu no local. “Ele não sabia que eu ia voltar. Quando me viu, surtou. Me levantou pelo pescoço e mordeu meu rosto. Foi nessa hora que o Yago e outros conhecidos me defenderam. Até uma amiga levou um soco na cara. Começou uma briga generalizada e o Yago foi derrubado no chão. Outra pessoa teve que aplicar um golpe para ‘apagar’ meu ex-namorado e o retirar do local junto com os seguranças”, detalha. Segundo ela, a vítima tentou acalmar o agressor. “Ele dizia ‘não quero brigar com você’, mas não adiantou”.
Depois do episódio, a mulher foi embora de novo e, assim que chegou em casa, recebeu mensagens do suspeito a intimidando. Yago também foi citado nas ameaças. “Ele achava que eu ainda estava no Conic. Dizia para eu sair e o encontrar. Tirei print da conversa e mandei para todos os meu colegas, alertei todo mundo. O Yago, inclusive, respondeu que ia conversar com ele. Ninguém imaginava que a situação chegaria a esse ponto, eu também ia morrer”, completa.

Yago também foi citado nas mensagens de ameaça que o suspeito enviou à ex-namorada, depois que ela deixou a festa. Foto: Reprodução
Saiba mais
- A Polícia Civil confirmou que já identificou o autor do crime, mas, até o fechamento desta edição, permanecia à procura do suspeito para efetuar a prisão.
- Segundo a ex-namorada do suspeito, ele é estudante de Direito, tem uma loja de móveis e dizia ajudar o pai em leilões. Ainda de acordo com ela, o ex-companheiro morava no Lago Sul, assim como a vítima, e nunca mencionou ter uma arma em casa. Após o crime, a mulher registrou ocorrência de Maria da Penha contra o rapaz na 5ª DP (Área Central).
Relação de amizade era antiga
Aos 30 anos, a ex-namorada do suspeito e o jovem vítima moraram juntos durante três meses em Pipa, no Rio Grande do Norte, e, desde então, não se distanciaram mais. “Era só amizade mesmo, nunca tivemos nada. Criei um carinho enorme pelo Yago, tanto que o chamava de filho e ele me denominava como sua mãe. Quando moramos juntos, eu cuidava da casa e dele. Estou arrasada. Agora, o que mais quero é Justiça. O Yago era uma pessoa extraordinária, não fazia mal a ninguém. A dor é inimaginável”, acrescenta.
No dia do crime, ela conta que Yago estava acompanhado de uma menina e o suspeito sabia. “Mas isso não importava para ele. O ciúme o dominava. Depois da briga entre os dois, meu amigo ainda me disse ‘não bati nele por sua causa, mãe. Sempre vou cuidar de você. Te amo’. Depois, me deu um abraço e saiu”, conclui ela, emocionada.
Ontem, amigos e familiares da vítima se reuniram no estacionamento 4 do Parque da Cidade para prestar uma homenagem ao DJ Yago Linhares Sik. O grupo levou cartazes, balões brancos e ainda fez preces pelo jovem. Yago será enterrado em São Luís (MA).
Procurada pela reportagem, a Latitude 15 Produções, responsável pelo evento no Conic, lamenta o ocorrido. “Estamos há um ano e cinco meses fazendo festas no local. Já foram quase 200 eventos e nunca tivemos ocorrência dessa natureza. Ficamos todos consternados com a situação. Foi um crime premeditado, o que pode acontecer em qualquer outro lugar”, afirma o produtor Kaká Guimarães.
De acordo com ele, a intenção da produtora é ocupar o Setor de Diversões Sul (SDS) da melhor maneira possível. “Isso faz parte de um projeto de revitalização do centro de Brasília. Sem vida noturna, a capital morre e aqui é o melhor endereço para isso, sem atrapalhar os moradores. Nossos eventos são feitos sempre dentro das normas. É uma pena que tenhamos sido recebidos da pior maneira possível pela prefeitura”, completa.