Jéssica Antunes
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Ao menos 27 cargas fretadas foram alvo da organização criminosa composta por donos e funcionários de uma rede de supermercados com unidade no Distrito Federal. O prejuízo é avaliado em mais de R$ 1,5 milhão. A investigação, que durou cerca de dez meses, concluiu que o grupo agia sob extrema organização, principalmente no furto mediante fraude de cargas e a receptação por comércios legalizados. Eles usavam caminhões com placas clonadas para se passar por uma empresa de transporte de insumos e depois comercializavam os produtos em más condições de higiene.
A rede Alvorada de supermercados tem duas unidades. A filial, em Santa Maria, foi inaugurada em 2016. Em janeiro deste ano, o grupo abriu outra loja, em Valparaíso de Goiás. As duas detinham o papel de comercializar os itens roubados e aferir os lucros do crime. Nos locais, a polícia recolheu produtos infestados de moscas e baratas.
“Não havia qualquer preocupação com o armazenamento. Identificamos moscas no frigorífico, mistura com esgoto, produtos vencidos. A unidade de Valparaíso foi interditada”, aponta o delegado Luiz Fernando Alves Neto, responsável pela investigação do caso. Um caminhão carregado também foi localizado no depósito da rede de estabelecimentos, no Céu Azul (GO).
“Ainda não sabemos exatamente a quantidade, mas a gente acredita que grande parte das mercadorias que estão sendo vendidas para a população local são mercadorias ilícitas advinda do furto de cargas”, informou o investigador. Entre os itens, havia pacotes de batatas que sequer são fornecidas ao comércio local. “Eles adquiriam as cargas por cerca de 15% do valor vendido legalmente e conseguiam comercializar em preços abaixo do mercado e se livrar rapidamente dos produtos”, explica.
A Operação Latrinariam teve como alvo os sócios da rede. Ao todo, foram emitidos 14 mandados de prisão preventiva e 21 mandados de busca e apreensão domiciliar nas em Ceilândia, Samambaia, Santa Maria, Taguatinga, Recanto das Emas, Gama, Brazlândia e Valparaíso de Goiás. Há apenas um integrante foragido (confira a lista abaixo).

PCDF/Divulgação
Modo de trabalho
Segundo Marco Aurélio Vergílio, titular da Coordenação de Repressão aos Crimes Patrimoniais (Corpatri), havia dois núcleos definidos da organização criminosa. Um era responsável pela subtração de cargas, realizada após aliciamento de motoristas de caminhão para que desviassem a carga. Eles usavam documentos falsos na hora do cadastro junto às transportadoras. Assim, quando a empresa percebia que era vítima de furto, não conseguia rastrear o motorista. Veículos também tinham placas clonadas para impedir rastreamento.
Após a subtração das cargas, elas eram repassadas ao núcleo comercial, responsável por adquirir e revender nos supermercados da rede Alvorada, pertencente ao líder do grupo, Eudes Teixeira da Silva, 49 anos, que foi preso em casa, em um condomínio em Santa Maria, na manhã desta quarta-feira (7). Com ele, havia uma arma de fogo e R$ 30 mil. Nenhuma das duas unidades estava em seu nome. A PCDF acredita que ele tenha usado testas de ferro para desviar a atenção.
- Raianne Cordeiro/Jornalde Brasília
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Fotos: Raianne Cordeiro/Jornalde Brasília
Lavagem de dinheiro
O dono da rede de supermercados também é proprietário de uma revendedora de veículos em Santa Maria. Conforme as investigações, carros eram comprados para lavagem de dinheiro. Doze automóveis de luxo foram apreendidos durante a ação.
“Tem vários veículos de propriedade dele, mas que estão em nome de laranjas, para ele poder se furtar da operação policial. A revendedora não possui cadastro na Receita e será autuada por cada veículo irregular no local”, esclarece o delegado André Oliveira.
Crimes e penas
Os investigados devem responder por organização criminosa, furto mediante fraude, receptação qualificada, adulteração de sinal identificador de veículo, falsidade ideológica e uso de documento falso.
Caso condenados, a pena pode chegar a 41 anos de prisão. A investigação é realizada pela Coordenação de Repressão aos Crimes Patrimoniais (Corpatri), da Polícia Civil da capital.
Ainda são apurados possíveis crimes tributários. A unidade de Santa Maria não emitia cupom fiscal de nenhum dos produtos. Isso é investigado em conjunto com a Secretaria de Fazenda da capital.
Saiba mais
Ao menos 27 ocorrências denunciando desvio ou subtração de cargas foram registradas em relação ao caso. Seis ocorrências foram homologadas no Distrito Federal e 21 na Região Metropolitana.
As ocorrências iniciaram em 2016, mesmo ano da inauguração da primeira unidade da rede Alvorada, em Valparaíso.
Lista de presos:
– Eudes Teixeira da Silva, líder e proprietário da rede de supermercados, responsável por financiar os furtos cometidos pelos comparsas;
– Rita de Cássia Medeiros, esposa de Eudes e gerente-geral da rede. Responsável pelas mercadorias que são revendidas nos estabelecimentos;
– Amâncio Santos da Silva, gerente do mercado em Santa Maria, também responsável pela compra e venda dos produtos;
– Fabiano Gomes da Silva, gerente do mercado em Valparaíso, também responsável pela compra e venda dos produtos;
– Francisco Samuel da Silva Neto, o “Chiquinho”, funcionário que prestava serviços e tinha conhecimento dos crimes;
– Clemilton Bento da Silva, responsável por orquestrar os crimes de furto e roubo de cargas. Por vezes, ele mesmo passou por motorista para subtrair cargas;
– Gilmar Melo Costa, braço direito de Clemilton, intermediava a venda e contava pagamento de receptadores;
– Elvys Silvestre Lopes, um dos motoristas contratados para furtar cargas;
– Júlio Cesar Teixeira Gomes, um dos motoristas contratados para furtar cargas;
– Welvis da Silva Jesus, um dos motoristas contratados para furtar cargas;
– José Maria Lima de Souza, um dos motoristas contratados para furtar cargas;
– Valdir Dias Novais, um dos motoristas contratados para furtar cargas. É o único foragido;
– Leandro Marcos Prado, um dos motoristas contratados para furtar cargas;
– Jean Fernando Barbosa de Araújo, intermediário entre os núcleos de furto e de comercialização.


