No Distrito Federal, 48,5% da população com mais de 18 anos de idade está com sobrepeso. O dado da Secretaria de Saúde demonstra uma tendência de crescimento desde 2005, quando eram 30%. Ainda segundo levantamento da pasta, a população de obesos que antes representava 8,7%, em seis anos passou a abranger 15% dos moradores adultos do DF.
Lucas Romano fazia parte dessa estatística. Ele sentiu a necessidade de mudar de vida quando chegou aos 125 kg, no ano passado. A autoestima foi afetada e ele percebeu que o sedentarismo prejudicava seu dia a dia.
Com uma escala de Índice de Massa Corporal (IMC) acima de 40 kg/m², ele estava na linha da obesidade mórbida, ou seja, com alto risco de vida. Foi nesse momento que decidiu fazer uma cirurgia de redução de estômago, com a colocação de um anel que limita o volume de alimento inserido pelo paciente. Desde então, ele perdeu 30 kg e virou triatleta amador.
“Após a cirurgia, eu perdi um peso inicial e estagnei. Foi então que entrei na academia, larguei a bebida e o fumo e hoje participo de competições. Não vou dizer que é fácil, porque mudar a cabeça é muito complicado. Tem vezes que a gente se frustra e quer desistir, mas tem de ter força de vontade. Eu assistia a muito vídeos de autoajuda e curtia muitas páginas de nutrição e esportes, me espelhando sempre em pessoas que faziam muito exercício”, confessa.
Alimentação
Lucas conta que sempre teve facilidade e vontade de malhar e já havia tentado emagrecer outras vezes, mas era vítima do efeito sanfona porque não mudava os hábitos alimentares. Ele decidiu tomar as rédeas do próprio corpo e desistiu de seguir dietas cansativas e difíceis.
“Eu acho que o problema de nutricionista é que eles fazem dietas difíceis de seguir por causa da mesmice. Eu botei na minha cabeça que para ter qualidade de vida a longo prazo eu precisava me limitar a pequenas quantidades de comida”, conta.
Estímulo a hábitos saudáveis
A quantidade de obesos no DF preocupa os médicos, que exigem maior participação do governo e da sociedade.
O endocrinologista do laboratório Exame Sérgio Vencio diz que o Brasil está rapidamente se aproximando aos altos números de obesidade dos Estados Unidos e isso é preocupante para a saúde pública. “O governo tem que assumir esse problema, porque todo o custo disso vai impactar para que, em algumas décadas, as pessoas em idade produtiva tenham que ser afastadas por doenças. Deve haver campanhas educativas desde as escolas e arrumar formas de estimular a alimentação saudável e transformá-la em acessível para todos. E, claro, oferecer atividade física gratuita de qualidade”, avalia o médico.
Ele reforça que não existe segredo para a perda de peso. “O certo não é ficar sem comer, é aprender a comer, ter acesso a informação de alimentos saudáveis. Deve-se praticar exercício físico pelo menos três vezes por semana, por 50 minutos. E evitar os grandes vilões da alimentação que são o álcool, o doce e a gordura”.
Versão Oficial
A Secretaria de Comunicação Social informou que o Governo do Distrito Federal atende os pacientes com grau 1 de obesidade nos centros de saúde, por equipes compostas por médico, nutricionista e enfermeiro. Os graus 2 e 3 de obesidade são encaminhados para os serviços de endocrinologia dos hospitais regionais. Além disso, há dois programas de educação alimentar em desenvolvimento: a escola promovendo hábitos alimentares saudáveis, desenvolvido em conjunto com o Ministério da Saúde; e o projeto Academia da Saúde.
Força de vontade e ajuda profissional
Muitas vezes, a pessoa sabe exatamente qual caminho seguir e mesmo assim perde o controle da situação. Thiago Cardoso, 31 anos, é um exemplo disso. Ele tem uma empresa de assessoria de corrida, e como educador físico sabe o que deve ser feito para manter um estilo de vida saudável. Mas mesmo assim acabou chegando próximo à linha da obesidade ao pesar 103 kg. Ele tem 1,81 m de altura.
Depois de perceber que ele não estava sendo um bom exemplo para os próprios alunos e o peso estava atrapalhando o desempenho das corridas, transformou uma meta desafiadora em brincadeira. “Eu decidi criar o ‘desafio 100k’. Comprometi-me a perder 22kg até a minha data de embarque para a Disney, em 7 de janeiro, para estar apto a fazer o Desafio Dunga, que consiste no total de 78 km percorridos”. Desde 1º de maio, Thiago já perdeu 8 kg. A sua rotina é de pelo menos três treinos de corrida por semana e seis treinos de malhação, mas o dia a dia no trabalho ajuda muito.
O costume de se entregar à comida, de forma compulsiva, em momentos de ansiedade, estresse ou depressão é bastante comum entre aqueles que lutam com a balança diariamente. “Você vai buscar alguma coisa que te deixe um pouco mais feliz ou calmo, e normalmente a comida traz isso. Você acaba buscando aqueles alimentos gostosos, que dão prazer, para preencher um espaço. É um mecanismo de fuga para não se deparar com os seus problemas”, explica a psicóloga Samantha de Paiva.
Muito além da fome
Essa necessidade de trocar sentimentos desagradáveis pelo conforto da comida é o maior perigo para quem decide fazer cirurgia de redução de estômago. Mudar o físico e não a cabeça pode levar ex-obesos a buscar novos vícios ou voltar às manias antigas após a cirurgia.
N.G., 45 anos, emagreceu 68 kg após fazer a cirurgia bariátrica e depois de dois anos mantendo a dieta e os exercícios físicos, foi pega de surpresa por um divórcio conturbado e voltou a engordar 20 kg. Para ela, apesar do acompanhamento psicólogo antes da cirurgia, não houve preparação para as dificuldades que passou.
“Todo gordinho sabe o que deve comer. A questão não é força de vontade, porque o seu objetivo não tem um início, meio e fim, você tem que mudar pelo o resto da sua vida. O mais difícil é manter, ainda mais porque tenho hipotireodismo e depois da cirurgia fiquei com intolerância a glúten e lactose”, afirma.