As reuniões de adolescentes em shoppings centers das grandes capitais são um movimento com data marcada para chegar a Brasília. Chamado de rolezinho, o evento agendado para o próximo dia 25, no Iguatemi Shopping, já coloca os poderes Executivo e Judiciário e o setor privado do Distrito Federal de olhos bem abertos. Se por um lado entidades de defesa do cidadão avaliam ser uma conduta discriminatória barrar o acesso dos grupos nos centros comerciais, especialistas alertam sobre os atos de vandalismo.
Nas redes sociais, o movimento tem ganhado força com a adesão de estudantes. Em uma página do Facebook, mais de 1,6 mil pessoas confirmaram presença no evento marcado para daqui a nove dias. A movimentação está prevista para começar às 15h e a expectativa da organização é reunir até 2,5 mil ativistas.

Surgimento
O rolezinho começou em São Paulo, em dezembro passado. Grupos de jovens entraram em shoppings e estações de metrô contra o projeto de lei que proibia bailes funk na capital paulista. A proposta foi negada pelo prefeito Fernando Haddad. Depois, o encontro aconteceu como forma de diversão. A Polícia Militar chegou a usar bombas de gás e balas de borracha para dispersar os grupos.
A ideia começou a se espalhar pelo País como forma de apoio aos jovens de São Paulo. Já foram marcados rolezinhos no Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Pernambuco. O organizador do evento no DF, Franklin Rabelo, 23 anos, explica que a proposta na capital surgiu de um grupo de amigos que se sentiram incomodados com a repressão da PM de São Paulo contra os jovens, no último fim de semana.
Exclusão
Franklin argumenta que Brasília é uma cidade excludente semelhante a São Paulo por causa da segregação social, precarização do transporte e ausência de políticas públicas de esporte e lazer. “Essa é uma força da juventude do DF, que tem de recorrer aos centros de consumo como única forma de entretenimento. No DF não existem praças públicas e teatros em grande número”, justifica.
A escolha pelo local do evento, no shopping do Lago Norte, foi motivada pela desigualdade social. O estudante destaca que o shopping, um dos mais luxuosos de Brasília, é próximo a cidades de baixa renda, como Varjão, Paranoá e Itapoã. “O Iguatemi é como se fosse um símbolo do apartheid (regime de segregação racial adotado na África do Sul). Por isso, vamos lá conhecer pessoas, cantar, conversar e misturar tudo isso com o protesto político. A intenção nunca foi organizar um arrastão ou depredar o patrimônio”, garante. “Vamos exercer um direito democrático de manifestação, como a Constituição assegura e conforme o Ministério Púbico e a OAB defendem”, conclui.
Polícia do DF monitora redes sociais
Em São Paulo, shoppings centers conseguiram liminar judicial que impede protestos e manifestações dentro dos centros comerciais. Quem descumprir a ordem e for identificado causando tumulto pode receber multa de R$ 10 mil.
Em Brasília, o Iguatemi Shopping não se manifestou a respeito do assunto. A Secretaria de Segurança, por outro lado, já está fazendo o trabalho de monitoramento, identificação e planejamento operacional. Tudo está sendo elaborado pelo Setor de Inteligência. O diretor-geral da Polícia Civil, Jorge Luiz Xavier, explica que investigadores estão monitorando as redes sociais, mas por enquanto o que existe é uma marcação de encontro sem caráter criminoso. “Caso haja desvio de conduta, a atitude pode culminar em punição por alguma transgressão”, explica.
Segundo Xavier, as redes sociais são fontes abertas de monitoramento, mas ele garante que ainda é cedo definir estratégias de segurança para o encontro. O diretor geral da corporação ressalta que até agora não há nada que indique uma tendência de cometimento de crime. “As medidas vão ser avaliadas para que sejam adotadas estratégias de inteligência. Enquanto isso o acompanhamento do sistema vai acontecer”, afirma.
Liberdade de expressão
O Ministério Público do DF se preocupa em garantir a liberdade de expressão e a entrada dos cidadãos em locais de acesso público. O promotor da Infância e da Juventude Anderson Pereira de Andrade explica que restringir o acesso desses adolescentes pode acarretar em discriminação por conta da suposta seleção de pessoas na entrada dos shoppings.
“Os centros de compras são abertos ao público e têm caráter duplo, pois são administrados por empresas privadas. No entanto, o proprietário não pode discriminar quem ingressa no espaço. Caso isso aconteça, pode incorrer em crimes como discriminação por aparência, classe social e cor, sendo racismo, que é crime grave”.
O promotor destaca que, de forma pacífica e ordeira, não há lei que impeça o movimento. “Sem ameaça aparente, não se pode barrar que uma organização ocorra, mas quando ultrapassa a manifestação, aí sim pode haver consequências”, diz.
OAB: barrar entrada é preconceito
Uma suposta atitude dos shoppings em barrar a entrada do grupo é repudiada pela Ordem dos Advogados do Brasil do Distrito Federal (OAB-DF). A vice presidente da Comissão de Direitos Humanos do órgão, Indira Quaresma, explica que a resposta dos centros comerciais mostra o preconceito e a discriminação de uma sociedade. “É como se os negros e os pobres fossem vistos apenas como trabalhadores braçais dos shoppings de elite. Quando vão aos shoppings, acabam sendo percebidos como ameaçadores de segurança e invasores de um espaço”, diz.
A advogada esclarece que os shoppings, enquanto iniciativa privada, são abertos ao público e o direito de manifestação em locais de acesso às pessoas é resguardado por lei. Segundo Indira, não se pode impedir a entrada dos adolescentes quando não há nenhuma prática de ato ilegal.
Discriminação
“A simples reunião em si não pode barrar o acesso aberto ao público. Se isso acontecer, configura preconceito e discriminação. Não se pode barrar a entrada simplesmente por eles ficarem ali dentro”, garante. “Se houver liminar impedindo a entrada, a OAB vai analisar o caso para cassar a determinação”, finaliza.
Movimento vai ao Congresso
Um outro evento também denominado rolezinho pretende sair do ambiente shopping. Os endereços serão o Congresso Nacional e o Palácio do Planalto. O evento está marcado para 31 de março, uma segunda-feira. Por enquanto, 396 pessoas já confirmaram a presença na página da rede social. De acordo com a descrição do evento, caravanas estão saindo de todo o País para participar do protesto.
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