A médio e longo prazo a população do Lago Sul corre o risco de não contar com serviços de educação e saúde, públicos e privados. Por um lado, a região de alto padrão conta com escolas e centros de saúde particulares de alto padrão. Mas a demanda é crescente e as unidades podem no futuro não dar conta de alunos e pacientes, vindos não apenas da vizinhança mas também de outras regiões administrativas, como o Plano Piloto e o Jardim Botânico. Por outro, as unidades públicas estão com um número enxuto e atendem principalmente a população de região com menor renda.
No campo privado, a região tem a Escola das Nações, Escola Francesa, Mackenzie, entre outras. Todas são procuradas por famílias com alta renda domiciliar. Já a área hospitalar tem como exemplos o Hospital Brasília, Daher e uma série de centros médicos. Já no terreno público, o bairro tem um posto de saúde e quatro escolas. Com a qualificação do serviço, a demanda é cada vez maior e a falta de planejamento urbano para a expansão destes equipamentos particulares e públicos coloca em xeque o futuro.
Segundo Ricardo Miranda, membro da diretoria do Conselho Comunitário do Lago Sul, a população já viveu um caso de alerta na saúde. “Nosso posto de saúde ficou fechado por anos. Nós brigamos para garantir a vacinação. E mesmo quando abriu tivemos dificuldades para ter as vacinas”, conta. Na leitura do líder comunitário, o bairro paradisíaco está perdendo a qualidade de vida pouco a pouco. Minado pela falta de planejamento de médio e longo prazo e incapacidade do Estado em exigir o cumprimento das normas.
“Falta capacidade de seguir normas. É difícil entender. Como na capital da republica a capacidade da administração pública é tão deficiente e insuficiente. É o conceito da Tragédia dos Comuns. Os bens de natureza comum são relegados a uma má gestão”, desabafa. O uso de lotes residenciais para atividades comerciais e escolas particulares incomoda a vizinhança do Lago Sul. Além da falta de estacionamento e engarrafamentos, para líderes comunitários a flexibilização dos terrenos coloca em risco o sistema de esgoto do bairro. Afinal, as estruturas existentes foram projetadas para famílias.
“Noto que a área comercial tem pontos fechados e desocupados. O condomínio destes blocos costuma ser caro. Vemos lojas espetaculares fechadas. Muita gente prefere ir para um lote residencial. Ou seja, é uma distorção pela falta de governo. O planejamento da cidade está sendo distorcido”, alerta Ricardo Miranda.
Sobre os equipamentos públicos, Miranda sente falta de postos públicos de saúde na região. Para o membro do Conselho Comunitário, o bairro também é castigado por engarrafamentos crescentes na Estrada Parque Dom Bosco (EPDB) e recorrente poluição sonora. O barulho é detonado por jet-skis, motos sem cano de escapamento e festas no Setor de Clubes.
Segundo o tesoureiro da Associação dos Moradores da SHIS QI e QL 28, Luiz Maurício Maffia, de zero a dez, a qualidade de vida na região tem nota seis. “Sempre quando chove, a energia cai. Asfalto é outro problema. Da QI 01 até a QI 25, já foi recapeado duas vezes. Mas da QI 25 até até a QI 29 não vi uma ação. E tem muito buraco, muito remendo. Só teve tapa buraco. E outra coisa que a gente sente muito falta é calçada, calçamento”, relata.
Ecossistema em risco
A bagunça urbana ameaça o Lago Paranoá. Segundo lideranças comunitárias, a liberação da Orla é justa e democrática, além de ser uma determinação da Justiça. Mas o governo pecou no planejamento. A desobstrução deveria ser seguida de obras de infraestrutura. Hoje as águas estão à mercê da erosão e da poluição.
De acordo com Ricardo Miranda, o governo deveria implantar parques nas margens, seguindo o modelo do Parque Olhos D’Água, na Asa Norte, com regras de funcionamento claras.
“O espaço público foi deixado ai léu. Agora, as pessoas deixam latinhas, garrafas. Mosquitos podem se multiplicar. O que foi feito, foi feito com um ranço ideológico. Como dizem, a Orla é projeto mais certo, feito da maneira mais errada possível”, afirma. Para o presidente da Associação dos Amigos do Lago Paranoá (Alapa), Marconi de Souza, a falta de banheiros e postos de salva vidas também preocupa.
“Não tem lixeira. E as pessoas fazem as necessidades nas águas. E Lago Paranoá não está sendo usado para consumo? E não vai ser usado mais ainda para abastecimento”, questiona Souza.
Sem regras claras de ocupação e sem qualquer fiscalização, a nova Orla é usada para consumo de drogas. A segurança se foi.
Por outro lado, Marcelo Ottoni, da Associação Ocupe o Lago, acredita que a comunidade deve ajudar o Estado na conservação do lago. “Antes da desobstrução os próprios moradores cuidavam da orla. Essa é a reflexão. Não sabemos das limites do governo? Por que não voltamos a cuidar?”, argumenta. Ao longo dos últimos 4 anos, a associação retirou 50 toneladas de lixo do Paranoá.
Ponto de Vista
A erosão é uma ameaça real para o Lago Paranoá. Segundo o hidrólogo e professor da Universidade de Brasília (UnB), Henrique Marinho Chaves, o governo deve fazer as obras de infraestrutura nas margens o mais rápido possível. O Executivo também não pode deixar e nem tolerar obras inacabadas, justamente para evitar que sedimentos agridam as águas nos períodos de chuva. Para o especialista, os banheiros públicos são a segunda preocupação da região. Mas devem ser feitos junto com as obras. “E temos que pensar em outras coisas. Se o lago vai ter captação de águas não pode ter barco a motor. Eles vazam óleo na água. O derramamento de óleo prejudica tremendamente a captação. Isso vai depender de uma lei específica. Não há lei que proíba hoje”, antecipa o especialista. Neste contexto, Marinho lembra que está em estudo o projeto de uma estação de captação de R$ 500 milhões no Lago Paranoá. Outro ponto fundamental: órgãos de controle devem adotar uma rotina de fiscalização constante das águas.