Após cinco meses de investigações, a polícia elucidou e apresentou à Justiça quatro homens suspeitos de sequestrar um pastor evangélico. O alvo dos criminosos era o dízimo dado pelos fiéis.
O sequestro ocorreu na madrugada do dia 18 de maio, na cidade do Gama. A vítima ficou uma madrugada inteira dentro de um motel em Valparaíso (GO). O pastor Gusmão (nome fictício) havia terminado o culto de domingo e, enquanto aguardava o portão eletrônico de sua casa abrir, teria sido abordado por Francimar Alves dos Reis, 28 anos, que, armado de uma pistola, deu início ao sequestro.
“Eu havia percebido uma pessoa no fim da rua, mas de repente outro homem (o Francimar) me apontou a arma e me rendeu”, disse. O pastor conta que sob o comando do sequestrador foi até a Ponte Alta do Gama. Durante o trajeto, sofreu várias ameaças de morte caso não entregasse o dinheiro recolhido dos dízimos. “Eu fiquei falando que não tinha até eu me lembrar que havia R$ 1.400 no porta malas do veículo”.
Insatisfeito, Francimar exigiu ir à igreja para que Gusmão pegasse o dinheiro dos fiéis. Nessa hora ele explicou que apenas seu irmão poderia fazer isso, pois ele era o tesoureiro. “Nessa hora o Francimar ligou para os seus comparsas, avisando que teriam pegado a pessoa errada”, disse Gusmão.
A vítima voltou ao Gama em seu carro. Francimar se reuniu com o grupo e decidiu pelo sequestro. Gusmão foi levado para o motel em Valparaíso (GO), que serviu como cativeiro. Lá, foram alugados dois quartos e dois carros entraram.
Estabelecido o cativeiro, Gusmão foi obrigado a passar um rádio para seu irmão, informando do ocorrido. “Falei com ele assim: meu irmão, isso não é brincadeira, fui sequestrado e preciso que você pegue o dinheiro no cofre da igreja. Por favor, não vá bancar o herói”.
Guto (nome fictício), irmão da vítima, estava dormindo quando soube do ocorrido. “Eu ainda tive que me desdobrar e ir na casa de uma terceira pessoa para, só então, conseguir a chave do cofre”, contou. Por meio de contatos entre os dois irmãos, foi combinado que o local do resgate seria um viaduto próximo ao município goiano, onde Guto deveria parar o carro e ligar o pisca alerta. Foram pagos então os R$ 10 mil pelo resgate. “Nessa hora achei que eu e meu irmão iríamos morrer”, confessou.
Medo da morte
Apesar de não sofrer nenhuma agressão física, Gusmão também achou que iria morrer em dois momentos: na hora em que foi abordado e quando os sequestradores receberam o resgate e se afastaram do quarto do motel. Guto só se tranquilizou quando foi contatado via rádio por seu irmão, que informou ter sido libertado perto do motel, onde foi resgatado. Ele não chamou a polícia por conta da tranquilidade que seu irmão lhe transmitiu pela voz. “Pela fé em Deus achei que tudo ia dar certo e não chamei a polícia”, desabafou.
Esse, porém, poderia ter sido um erro fatal. Para o diretor da Polícia Civil, Cléber Monteiro, a polícia deve sempre ser informada. “Se a polícia tivesse sido avisada as prisões provavelmente teriam ocorrido depois do resgate”, afirmou. Leandro Ritt, diretor-adjunto da Divisão de Repressão a Sequestro (DRS), explica que este é um tipo de crime muito complexo e, por isso, é necessário o apoio técnico para que as famílias das vítimas não sofram sucessivas extorsões, “ou mesmo a perda do ente querido”.