Jéssica Antunes
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Era dia e estava claro. Passavam das 17h quando duas amigas que caminhavam pelo Parque da Cidade foram surpreendidas por um homem de calça abaixada e com o órgão genital para fora. Segundo as vítimas, ele as teria seguido e, após ser ameaçado com um pedaço de pau, ido embora. Atitude repetida por outro suspeito, perto dali. “Isso acontece todos os dias nos estacionamentos”, desabafou uma das jovens. Pelo parque, mulheres temem pela própria segurança.
Cláudia Maciel e Mirna Ferreira, ambas de 30 anos, optaram pela primeira vez por percorrer a pista de oito quilômetros em vez de dar duas voltas na menor, que tem a metade do percurso. “Vínhamos caminhando e conversando. A primeira vez que encontramos com o homem foi em frente ao Pavilhão do Parque. Ele desceu do carro e, em pé, colocou tudo para fora e começou a se masturbar”, contou a jornalista Cláudia.
Continuando o caminho, encontraram um segurança. “Ele disse que no mesmo dia, pela manhã, havia recebido queixa de outras moças e que os estacionamentos eram cheios de vagabundos”, recordou a fisioterapeuta Mirna, que diz ter sido alvo de vários assédios.
Mesmo revoltadas, elas continuaram a caminhada, mas, para surpresa da dupla, o homem esperava no estacionamento à frente, com a porta do carro aberta e ainda se masturbando. “Sem acreditar que ele estava fazendo isso novamente, a gente se deparou com um pedaço de pau. Foi a gota para o copo transbordar”, justificou Mirna.
Ela pegou o pedaço de pau e foi pra cima dele, que teria fechado a porta e arrancado. Estacionado nas proximidades, um senhor, de blusa rosa, que estaria igualmente se masturbando, também saiu do local. “E eu que sou a doida de andar com um pedaço de pau. Ninguém quer saber o motivo”, reclamou a fisioterapeuta. Para elas, o parque não é seguro às mulheres. Faltam iluminação, segurança e respeito.
“Está cheio de carros estacionados e não sabemos o porquê de estarem aqui, todos dentro dos veículos. Sempre tem gente para questionar o porquê de não ter tirado foto ou anotado a placa e registrado na polícia. Eu sou a vítima, sofro a violência e ainda tenho que lembrar de todos os detalhes para me precaver, não importa o susto. Tenho que ter todo o relatório para provar o que passei?”, questiona Cláudia, que não registrou ocorrência por falta desses detalhes.
Equipe do JBr. testemunha atos obscenos
Não parece ser segredo que homens estacionem no Parque da Cidade com esses mesmos fins. Um guarda que trabalha próximo a alguns estacionamentos mais afastados do grande público confirma. “A gente sabe que acontece, mas não pode fazer nada. Geralmente, eles estacionam, se masturbam e até mantêm relações sexuais ali. Quando a polícia chega, vão embora, mas voltam em seguida”, conta.
Ao chegar ao estacionamento do Pavilhão do Parque da Cidade, o JBr. flagrou dois homens com as calças abaixadas. Quando perceberam a presença da reportagem, entraram nos veículos e foram embora. O mesmo ocorreu com outros condutores. A todo momento, porém, alguém chegava.
Anos atrás, trataria-se de atentado violento ao pudor. Mas, desde 2009, o crime é classificado como estupro que, hoje, consiste em “constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso”.
A comerciante Erica Souza dos Santos, 28 anos, diz que a preocupação é constante no Parque da Cidade. Ela não vê tantos policiais quanto gostaria: “Só aparecem de vez em quando”. Em compensação, as histórias de assédio e atos obscenos são comuns. “Parece que as coisas só pioram”, reclama.
“Procuro estar sempre atenta. Faço futevôlei, mas durante o dia. Quando tenho de vir à noite, sempre estou acompanhada. Nem gosto de vir ao parque sozinha”, diz.
A engenheira florestal Cristiane Pinheiro, 37, evita fazer as caminhadas após o pôr do sol: “Apresso o passo para tentar acabar ainda com a luz do sol. Tenho medo à noite”.
Versão oficial
A Secretaria de Segurança informa que, de janeiro a abril deste ano, foram registradas 25 ocorrências de tentativa de estupro no DF. No mesmo período de 2015, foram 32. A Polícia Militar não tem ocorrência relacionada a ato obsceno, estupro ou tentativa de estupro no Parque da Cidade em maio deste ano.
Segundo o 1º Batalhão da PM, responsável pela área, o há uma viatura exclusiva para o patrulhamento. O local tem um Posto Comunitário de Segurança e há o apoio do Gtop e do Regimento de Polícia Montada.
Saiba mais
A Polícia Militar informou que oito ocorrências foram registradas em maio no Parque da Cidade: furto a interior de veículo, vias de fato, apreensões de entorpecentes e condução de indivíduos com mandados de prisão em aberto. A PM destaca a importância do registro de ocorrência para o planejamento das ações de segurança.
Fonte: Da redação do Jornal de Brasília