Raphaella Sconetto
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Mal começou novembro e três irmãos de seis, sete e dez anos já estão em clima de férias de fim de ano. Às 10h, quando deveriam se preparar para ir à escola, eles brincam com os vizinhos na rua ou assistem televisão em casa. As opções parecem atraentes, mas eles e várias outras crianças, moradoras do Núcleo Rural de Planaltina, gostariam mesmo é de estar em sala de aula. Há 11 dias, elas não vão ao colégio porque estão sem o transporte fornecido pelo governo.
A cooperativa Coopercam, empresa responsável pelo serviço na área rural, está de greve. A Coordenação Regional de Ensino de Planaltina possui 20 escolas rurais que atendem 4,3 mil estudantes. Destes, 3,5 mil dependem do transporte escolar público para chegar até as instituições.
Pais reclamam da falta de posicionamento da Secretaria de Educação. A dona de casa Soraia de Araújo Alves, 25 anos, é a mãe dos três meninos citados. Ela conta que, apesar da vontade de ir, as crianças estão sendo obrigadas a ficar em casa desde o dia 30 de outubro. “Não tem como ir para a escola porque o escolar não passa. O mais novo tem autismo, se adaptou com a escola e gosta de ir, mas nesses dias está zangado porque está em casa”, conta.
A distância entre a residência e a escola dos garotos – Centro Educacional Várzeas – é de quase 30 quilômetros. “É muito longe para levá-los, e não tenho carro”, destaca Soraia. Enquanto isso, os três ficam à toa em casa. “Não trabalho, mas não consigo fazer as tarefas do dia direito. Eles querem brincar na rua e isso me atrapalha”, comenta.
O mesmo acontece na casa do policial militar Hélio Antônio Lopes, 44 anos, que também tem três filhos. A menor, de sete anos, estuda na Escola Classe Coperbrás e os outros dois na Várzeas. Mesmo sendo colégios distintos, o transporte não chega para nenhum. “São quatro escolas aqui na área rural de Planaltina. Tem van para cada uma delas, mas nenhuma está passando, porque é a mesma empresa que atende a região”, diz.
Lopes conta que a diretora de uma das escolas até tentou disponibilizar um transporte alternativo para que os alunos não perdessem a aula, mas não teve sucesso. “Os que têm condições de ter carro são poucos, então não dava para levar todo mundo. E também não dava para ter aula. Seria um número pequeno de alunos e os que não podem ir ficariam prejudicados sem o conteúdo”, pontua. “Coincidiu com final de ano. Tem aluno que precisa fazer vestibular e Enem, e está sem revisão. Além de perder prova e entrega de trabalho”, completa.
O militar acrescenta que essa foi a primeira vez que a cooperativa Coopercam trouxe problemas dessa proporção.

Os três filhos de Hélio estão sem ir às aulas em escolas diferentes da região. / Foto: Raianne Cordeiro/Jornal de Brasília
Falta de posicionamento causa revolta aos pais
A revolta da pedagoga Yara Lilian Gomes, 38 anos, mãe de um aluno de 15 anos, tem um motivo em especial: a falta de posicionamento do governo. “Quem mora no núcleo rural depende totalmente do transporte escolar. São escolas que ficam a até 20 quilômetros de distância. A Secretaria de Educação disse que iria resolver o nosso problema, mas eles não estipularam uma data, uma previsão para a gente. Na escola, disseram que iriam repor as aulas. Como?”, questiona. “Já está no final do ano letivo, os professores não vão querer repor até final de dezembro”, acrescenta a mulher.
A situação seria ainda pior porque as comunidades dos núcleos rurais Pipiripau, Tabatinga e Rajadinha, todos em Planaltina, têm poucas opções de transporte. “Não tem coletivo que passa aqui. Um único chega até o trevo, mas isso não é nem perto das escolas. É inadmissível o que estão fazendo com a gente. O governo está querendo nos punir”, dispara Yara.
Pagamento
A empresa responsável pelo transporte em Planaltina é a Coopercam. A reportagem tentou contato com a cooperativa por diversas vezes, para que pudesse explicar o motivo da greve e detalhar qual seria a dívida do governo, mas a direção não atendeu às ligações. Uma funcionária que não se identificou apenas resumiu que o motivo da paralisação era “falta de pagamento”.
No entanto, a funcionária se recusou a passar informações de quanto seria o montante e desde quando a Secretaria de Educação não repassa os valores.
Versão Oficial
Procurada, a Secretaria de Educação apenas respondeu, em nota, que “tem se reunido com representantes da empresa que presta serviço de transporte escolar na zona rural de Planaltina para tratar da questão”. A pasta, porém, não informou quando o serviço será regularizado, nem como e quando as aulas serão repostas para os alunos que estão ficando sem frequentar as escolas.
Saiba Mais
Em todo o Distrito Federal, há 11 empresas que prestam serviço de transporte escolar para a rede pública. Atualmente, são 20 contratos de prestação de serviços, sendo 15 contratos para o ensino regular e mais cinco para o Ensino Especial e Educação Integral. O atendimento se dá com aproximadamente 550 ônibus escolares contratados e 131 da frota da própria Secretaria de Educação, transportando cerca de 56 mil alunos. O quantitativo de alunos e de veículos está distribuído nos turnos matutino, vespertino e noturno, os quais percorrem 1.231 itinerários.