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Brasília

Seita religiosa. Vítimas quebram o silêncio após cárcere privado vir à tona

Arquivo Geral

14/01/2019 7h00

Igreja Adventista Remanescente de Laodiceia está sendo construída em chácara. Foto: Raphael Ribeiro/Especial para o Jornal de Brasília

Ana Karolline Rodrigues
redacao@grupojbr.com

Após o caso de uma menina mantida em cárcere privado por uma seita religiosa no Gama, novos relatos sobre crimes envolvendo a  Igreja Adventista Remanescente de Laodiceia vieram à tona. Além de supostas vítimas terem acionado a polícia, o Jornal de Brasília também foi procurado, como uma forma de desabafo.

Em  e-mail enviado ao JBr. na última semana , uma mulher acusa a líder da instituição, Ana Vindoura Dias Luz, 64 anos, de ter mantido seu filho sob condições de trabalho escravo na comunidade. A polícia confirma ter recebido várias denúncias anônimas contra a igreja, mas que ainda não foram registradas oficialmente na delegacia.

Segundo o relato enviado, os membros da comunidade localizada na chácara Folhas de Palmeiras, no Km 13 da DF-290, faziam o filho vender materiais da igreja sem qualquer remuneração.  Ela conta que, além do menino, o filho de sua nora foi vítima da mesma situação e, por conta de um acidente de trabalho sofrido no local, tornou-se deficiente. “Após uma queda do carro em serviço escravo, com apenas 15 anos ele não pode mais ter uma vida normal. Queremos justiça”, cobra a mulher.

Novos inquéritos

De acordo com o delegado Vander Braga, da 20ª Delegacia de Polícia, após o flagrante em que os policiais resgataram uma menina mantida em cárcere privado, foram abertos vários inquéritos na delegacia tratando de outras denúncias contra a instituição religiosa. “Depois desse flagrante e das publicações na imprensa, recebemos várias denúncias anônimas, inclusive de crimes muitos mais graves”, revela.

Quanto aos casos de trabalho escravo, o delegado confirma que já são várias denúncias relacionados ao crime. Segundo ele, a comunidade religiosa em questão já existe há pelo menos dez anos e passou por Mato Grosso e Goiás antes de chegar ao Gama, local em que se encontra há dois anos.

No primeiro estado em que eles passaram, Braga conta que os religiosos chegaram a ser multados em R$ 3 milhões pelo Ministério Público local devido às acusações de trabalho escravo.

“Profetiza escolhida por Deus”

De acordo com o delegado, além da menina resgatada, outras jovens também já conseguiram sair da comunidade após serem mantidas em cárcere. Em informações passadas ao JBr., um homem que pediu anonimato por segurança da família relatou que a filha foi uma das vítimas da líder religiosa Ana Vindoura e de outros membros da comunidade.

Segundo ele, a jovem passou seis anos na seita até conseguir escapar. “Por ter um temperamento muito forte, ela conseguiu se desvencilhar desse grupo em missões fora de Brasília”, contou.

Ainda segundo a fonte, uma mulher chamada Ivone, que supostamente gerencia o dinheiro da seita, se identifica como policial civil e é “uma das peças de ferro do grupo”. “Ela é a defesa, porque diz que fez Direito, então interpela qualquer atividade policial contra o grupo”.

Ivone, conta ele,  ameça os jovens do local e a quem tenta denunciar os abusos. “Como pseudoautoridade policial, ela acaba introduzindo medo em algumas pessoas”, disse.

Sobre os crimes realizados na comunidade, o pai citou situações de trabalho escravo, cárcere privado e até mesmo abuso sexual.

“Existe uma partilha financeira dentro do grupo: as pessoas vão para rua, trabalham, levam o dinheiro; e ela [Ana Vindoura] coloca a mão no dinheiro. Essa renda é distribuída entre algumas pessoas lá de dentro”, revelou.

“Eles costumam pegar pessoas pobres e acabam induzindo as mães e os pais a deixarem as crianças saírem pelo mundo com o trabalho missionário. É aí que acontecem as maiores atrocidades”.

Sobre os abusos, o homem afirmou que a líder religiosa se diz ‘escolhida por Deus como profetiza’ e que promove ‘casamentos espirituais’ entre as adolescentes e os homens adultos da comunidade. “Alguns se aproveitam das meninas e acaba ocorrendo a conjunção carnal, ou na verdade os estupros. Já houve muitas situações iguais a esta, mas nenhuma vítima que conheci tem coragem de abrir a boca, por vergonha”, disse.

Há quatro anos o pai da menina fez uma denúncia na delegacia de Corumbá, quando a comunidade ainda residia em Goiás. No entanto, ele relata que até hoje várias vítimas ainda são feitas pelos membros da seita. “Eles destruíram famílias, induziram pessoas a venderem suas casas para dedicar todo dinheiro à seita e, depois, pregavam um pé na bunda. Não foram poucas pessoas, foram várias. Uma senhora perdeu uma chácara, outra pessoa perdeu uma casa, acabou o casamento, são muitos casos”, reforçou.

Resgatada pela polícia

Falando sobre a jovem resgatada no último dia 28 pela polícia, o homem que preferiu não ser identificado contou que, diferentemente do que foi dito por membros da seita à reportagem, de que a menina seria nervosa e agressiva, “ela era uma garota super normal”.
“A questão é que o procedimento da seita deixa a pessoa bitolada, sem contar a falta de nutrição, porque eles não se alimentam direito”, ressaltou.

Antigo morador da comunidade, Lúcio, o rapaz que denunciou à polícia o caso de Mariane, considera que as “coisas feitas lá não condizem com a fé”. Ele, que afirmou ter vivido bastante tempo com o grupo religioso, contou que conhece vários outras vítimas da seita. “Posso fazer uma lista de pelo menos 30 pessoas que saíram de lá por questões assim”.

Saiba mais

– Após o resgate de uma adolescente que seria uma das vítimas mantidas em cárcere privado, no fim do mês passado, pela seita, a líder religiosa Ana Vindoura chegou a ser presa.

– Porém, após audiência de custódia, a responsável pela instituição foi liberada pela Justiça.

– Mesmo após a conclusão do caso, a polícia segue com as investigações relacionadas às novas denúncias.

– A reportagem esteve no local quando a denúncia veio à tona. Tanto a líder Ana Vindoura Dias Luz quanto demais integrantes da comunidade negam qualquer crime.

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