Autoridades dos três poderes — os que governam — sempre tiveram privilégios, benesses e mordomias. E como são essas autoridades que exercem o poder, fazem as leis, julgam o que é certo ou errado e decidem o destino das pessoas, é difícil acabar com seus privilégios, benesses e mordomias. Eles defendem ferrenhamente o que lhes convêm.
Ao longo dos anos, porém, as mudanças sociais, a evolução da democracia e as pressões da sociedade civil foram reduzindo os privilégios e as benesses e mordomias. Em alguns países, quase não existem mais – as autoridades são consideradas cidadãos comuns que exercem eventualmente funções de responsabilidade pública.
Essas excrescências não acabarão totalmente. Até porque há um motivo real, que é a segurança dessas autoridades. As mais vulneráveis realmente precisam de proteção cotidiana, o que significa atenção especial ao local de residência e aos deslocamentos delas próprias e de seus familiares.
Mas muitas vezes os riscos à segurança são exacerbados apenas para servir de pretexto à manutenção das mordomias.
Residência tudo bem, mas menos custosa
Nada contra, por exemplo, o governador de Brasília ter à sua disposição uma residência oficial. O que não faz mais sentido é essa residência ocupar uma área de mais de 5.600 metros quadrados, com um custo de R$ 180 mil por mês, segundo o governo. O que significa R$ 2,16 milhões por ano.
O governador poderia ocupar uma residência menor, e o governo tem três casas no Lago Sul que serviriam perfeitamente.
O governador Rodrigo Rollemberg (foto) continua morando em sua casa no Park Way e só de vez em quando dorme em Águas Claras, o que justifica menos ainda a manutenção da mordomia.

Rapharl Ribeiro
Cada um que pague a sua
Nos custos de manutenção estão as despesas com alimentação do governador e de seus convidados. Isso não faz mais o menor sentido, especialmente em período de grave crise econômica e financeira que afeta a toda a população.
Uma coisa é o Estado arcar com despesas de representação de Estado: almoços ou jantares para convidados especiais, em circunstâncias também especiais. Outra é os cofres públicos arcarem com os custos das refeições cotidianas do governador e de sua família e de convidados que comem às custas do contribuinte sem um motivo justo.
Bocas livres com dinheiro público
Políticos brasileiros têm o hábito de, a qualquer pretexto, fazer reuniões em cafés da manhã, almoços e jantares. É cômodo para eles, pois é o Estado que paga tudo. Além das residências oficiais têm a verba indenizatória e o suprimento de fundos.
Autoridades podem ter residências oficiais por questão de segurança e até comodidade dos vizinhos. Mas elas podem ser menores e mais simples do que as do governador de Brasília e dos presidentes da Câmara e do Senado, por exemplo. E sem comida grátis.
Governantes e políticos podem tomar transcendentes decisões e ter conversas relevantíssimas sem comer e beber às custas do Estado.
Carro preto e motorista, mas não é Uber
Outro resquício de mordomia são os carros oficiais a serviço exclusivo de autoridades. Secretários do governo de Brasília e presidentes de empresas poderiam ir ao trabalho em seus carros próprios, de táxi ou de Uber, ou até de transporte coletivo. Não precisam de um veículo exclusivo só para eles.
Ao saírem de seus gabinetes a trabalho, as autoridades do governo de Brasília podem usar veículos do Estado. Mas não carros luxuosos e exclusivos — podem circular como qualquer outro funcionário, em veículos compartilhados.
O governo de Brasília estaria dando ótimo exemplo de austeridade e sintonia com os tempos atuais.
Critério errado para economizar
O Tribunal de Justiça do DF decidiu suspender as ações concentradas em abrigos de menores para economizar combustível. Essas audiências são realizadas em 16 abrigos por juízes, promotores, defensores e assistentes sociais.
O que o TJDFT deveria fazer é acabar com os carros oficiais de desembargadores, juízes e altos funcionários. Eles ganham muito bem e podem pagar a gasolina ou o táxi.
A economia seria bem maior e mais justa.
Sucesso garantido
Os mesmos que imaginaram multidões vindo a Brasília para assistir as irrelevantes partidas de futebol olímpico devem estar pensando em como receber a grande quantidade de brasilienses e turistas que pegarão a EPTG para visitar a residência de Águas Claras nas segundas-feiras das 8h às 12h e das 14h às 18h.
É bom reforçar a segurança e organizar a fila.
Aliás…
Levar crianças de escolas para visitar Águas Claras, como quer o projeto “Roac de Portas Abertas”, é, no fundo, uma ação deseducativa. A residência de Águas Claras não tem valor histórico, cultural, político, arquitetônico ou ambiental. As exposições lá improvisadas para dar essa ideia poderiam estar em locais mais acessíveis aos cidadãos.
Os estudantes vão lá apenas para conhecer uma bela mordomia, em um belo lugar.
Em tempo
Não, não vou deixar de escrever sobre mais uma trapalhada do vice-governador Renato Aragão, digo Dedé Santana. Desculpem, Renato Santana. Mas só para amanhã.