Elaine Siqueira
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Descobrir o porquê das reprovações dos alunos é um dos principais argumentos utilizados pela Secretaria de Educação para justificar a polêmica mudança no sistema de ensino, que passará a ser dividido em ciclos. Com isso, em vez de poder ser retido em uma série, o estudante ficará vários anos sem ser reprovado, mesmo que o desempenho seja insatisfatório.

A pasta argumenta que a mudança não traduz uma tentativa de manobra para “maquiar” os índices do Distrito Federal, mas melhorar este cenário. Conforme o Censo Escolar de 2011, o DF ficou em segundo lugar no quesito reprovação, com quase 20% dos estudantes do Ensino Médio nesta condição. Já no Ensino Fundamental Infantil (1° ao 3° anos), o DF teve o segundo menor índice de reprovação, com 11%.
Evasão
Ainda conforme o Censo, o DF registrou o terceiro menor índice de evasão escolar no Ensino Fundamental, com 1%, enquanto o Ensino Médio registrou em torno de 5%. “Prova de que nossas crianças e adolescentes frequentam a escola é a taxa de rendimento, que gira em torno de 90% no DF. Porém, apesar de as famílias valorizarem o ensino e as escolas ficarem próximas de residências, ainda há alunos que mesmo tendo frequência ativa estão reprovando e precisamos descobrir o porquê”, informou a secretaria, via assessoria.
As novidades estarão valendo neste ano em 70 unidades, abrangendo 35 mil alunos. O 1° ciclo inclui alunos das creches e jardins de infância. O segundo engloba os alunos dos 1ª a 3ª anos e 4° e 5° anos. O terceiro vai do 6º ao 9º anos, e o quarto, o Ensino Médio. Este último é avaliado por semestralidade.
Pais e alunos confusos
Pais e os próprios alunos se mostram confusos diante das alterações. Mãe do estudante Wesley Rodrigues, de dez anos, a dona de casa Juliana Cândida, de 26 anos, se diz preocupada com as mudanças e acha que as escolas precisam explicar aos pais a real necessidade da implementação dos ciclos. “Só divulgar o sistema não ajuda. Precisamos discorrer sobre o assunto e entender o que isso vai acrescentar para o aprendizado de nossos filhos”, disse.
Wesley fará o 5° ano – que estará no segundo ciclo do Ensino Fundamental Regular no bloco II, que englobará o 4º e 5º anos. Ao final desta fase, os alunos serão submetidos a uma avaliação educacional.
Sobrinho de Juliana, João Pedro Oliveira, de 12 anos, ficou de recuperação em duas disciplinas em 2012. O estudante, que vai para o 6º ano, ficou de dependência, tendo que cursar Artes novamente neste ano. No caso de João, segundo a Secretaria de Educação, a reprovação/aprovação continuará a ser feita por série. Ou seja, do 6° ao 9° ano do Ensino Fundamental II, a seriação será continuada até 2014, quando haverá a implementação de um ciclo que englobará os quatro anos.
Preocupação com o Ensino Médio
No Ensino Médio, a grade passará a ser dividida por semestre, com aulas de exatas e humanas em cada um. Ou seja, se o aluno teve aulas de exatas no começo do ano, fará humanas na outra metade. As exceções são português e matemática. A estudante Edilene da Silva, de 16 anos, fará o 1° ano do Ensino Médio novamente. Ela reprovou por não ter obtido notas acima da média em quatro disciplinas. A adolescente está receosa quanto à maneira que será aplicado o conteúdo.
“O fato de termos três ou quatro disciplinas diariamente já confunde, agora imagine estudar disciplinas separadas por semestre. Espero não reprovar novamente”, conta.
Regionais
Escolas do Guará, Recanto das Emas, São Sebastião, Núcleo Bandeirante e Santa Maria serão as primeiras a adotar o sistema. Para o professor e também diretor da Escola Classe 7, na QE 38 do Guará II, Fernando Gabriel de Vasconcelos – em exercício na rede pública de ensino há 21 anos –, a implementação da Política Educacional do Ciclo de Aprendizagem ainda não ficou bem esclarecida para os profissionais da educação. “Tudo que ficamos sabendo foi por meio da mídia, e ainda não fomos convocados pela Regional de Ensino. Fica complicado até passarmos uma posição para os pais”, admite.
Segundo o diretor, a escola terá uma semana para organizar os assuntos e se preparar para a volta às aulas, em 14 de fevereiro. Contudo, o que de fato não mudará é a maneira de ensinar os conhecimentos para as crianças. “As novas nomenclaturas só fazem nos confundir e permitem aos pais tirar conclusões precipitadas sobre o ano letivo que o filho estudará”, diz.
Ponto de vista
Para o professor da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília, Remi Castioni, o governo agiu de forma precipitada quanto ao novo sistema. “Esta vai ser uma fase tumultuada tanto para os alunos como para os pais, que já estão percebendo que não será nada fácil se adaptar. Há grandes chances de o projeto não dar certo”, diz.
O professor esclarece que em relação às adaptações ao Ensino Fundamental, estes problemas tendem a ser normalizados, pois as primeiras séries do ciclo não apresentam grandes problemas como o Ensino Médio, onde grande parte dos alunos já presta provas do PAS e do Enem. “Este tipo de aluno é o que mais será prejudicado, pois querendo ou não, quando chegar o momento de fazer a prova, o estudante terá esquecido boa parte do que foi ensinado, ao não ser que sejam feitas aulas de cursinho preparatório”, explica Remi.
Contudo, o professor conclui que será preciso ser feito um acompanhamento mais sistemático aos alunos, principalmente com aqueles estudantes do Ensino Médio. “Vejo que a secretaria devia ter convocado professores, pais e alunos que são objetos dessa cena, para que fosse feita uma discussão sobre este segmento”, argumenta o especialista da Universidade de Brasília.