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Sauna gay fatura alto e garante empregos no DF

Arquivo Geral

18/04/2017 7h00

Atualizada 17/04/2017 22h42

Foto: Myke Sena

Manuela Rolim
manuela.rolim@jornaldebrasilia.com.br

O mercado de saunas gays no DF é um nicho em ascensão, apesar de discreto e ainda pouco explorado pelos empresários. Aqueles que se aventuraram no ramo, porém, admitem o faturamento vantajoso do negócio. O lucro também é exaltado pelos funcionários. Quase sempre, eles são presenteados pela clientela e encerram o expediente com os bolsos recheados de gorjetas.

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Não por acaso, o gerente de uma sauna na W3 Sul não esconde a vontade de abrir seu próprio estabelecimento. “No momento de crise, enxergo isso aqui como uma das atividades mais rentáveis. O gay não tem filho, não paga material escolar. Pelo contrário, investe em conhecimento próprio, em diversão e na busca pelo prazer. É o público que mais dá gorjeta, nem em hotel de luxo isso acontece. Nunca vi alguém ganhar menos do que R$ 20. Já vi funcionário receber R$ 300 só de gorjeta”, afirma.

De acordo com o administrador, se o cliente gostar do atendimento, ele tira o dinheiro da carteira na maior facilidade, mesmo consumindo pouco.

Segundo o gerente, no ano passado, o salário dos contratados chegava a R$ 1,3 mil, sem gorjeta. “Não cobramos 10%. Se trabalhar bem, ganha bem. O cliente gosta de ter vínculo com a casa, de ser amigo do barman. Antes de qualquer coisa, o funcionário precisa ter muito respeito, ser esclarecido e saber exatamente onde está chegando. Por isso, antes de assinar, explico tudo o que acontece aqui dentro e já aviso que isso, possivelmente, vai mexer com os valores dele. Precisa ser profissional”, alerta.

Ao contrário do que possa parecer, a preferência é pela contratação de heterossexuais, para preservar a relação profissional. “Estamos aqui para atender, não para entretenimento. Nos bares, também não permito que eles andem nus. O universo gay é gigantesco e o preconceito acontece principalmente entre eles. Em geral, o gay da boate não frequenta a sauna e vice-versa. São pessoas viajadas, cultas e que trazem muito conhecimento”, acrescenta o responsável pelo estabelecimento.

Assalto

  • Sempre discretas, as saunas gays costumam fugir dos holofotes. Uma das poucas vezes em que uma casa apareceu na mídia foi durante um assalto na W3 Sul, em março do ano passado. Seis homens invadiram o local, mas foram todos presos e levados para a 1ª Delegacia de Polícia (Asa Sul). No momento da invasão, 50 clientes estavam no estabelecimento, mas ninguém se feriu gravemente. Os criminosos, aparentemente armados, chegaram a assaltar o caixa da sauna.
  • “Os assaltos não são comuns. Isso não tem nada a ver com preconceito. Pode ter sido alguém que tenha sido convidado a se retirar da casa ou algum ex-funcionário”, diz o gerente.

Aberta há quase 11 anos, a sauna do Setor Comercial Sul faturou cerca de R$ 40 mil por mês ao longo ano passado, segundo um dos sócios. “É uma casa que está sempre cheia e gera emprego. Temos vários funcionários. O horário de pico é entre 18h e 19h. É um mercado em crescimento e o retorno é muito bom, tirando os gastos, que são altos”, afirma. Segundo ele, não há como negar que o preconceito diminuiu, mas precisa melhorar. “Por isso é tão obscuro. A discriminação permanece”.

Já o sócio de uma sauna em Taguatinga destaca que a demanda e a rotatividade são maiores no Plano Piloto. “Aí sim, entra e sai gente o tempo todo. Aqui, os clientes vêm para ficar o dia inteiro. Sauna que dá dinheiro é aquela que fica no centro. A gente tinha uma casa no Plano que dava um movimento três vezes maior”, ressalta ele, que ganhou o negócio de herança. Para o empresário, o negócio não vale a pena. “Os gastos são altíssimos. Não acho que vale pelo trabalho que dá, pelo preconceito e pela fiscalização, que pega pesado”, conclui.

Cordialidade é o segredo

Aos 63 anos, o campeão de gorjeta de uma sauna no Plano Piloto conta o segredo. Ele é a voz da experiência no assunto. Apesar de não se declarar gay, trabalha na área há 16 anos, seis deles na W3 Sul. Casado e pai de dois filhos, o funcionário conta que já ganhou R$ 700 de um cliente no Natal retrasado. “Já faturei R$ 150 em um dia. Sei tratar bem, com educação. Não tenho preconceito. É um serviço normal. Minha família sabe de tudo e não se importa”, diz ele, que cuida da área do vestiário.

O problema é quando eles confundem os serviços. “Alguns tiram onda, mas eu não dou confiança, levo na esportiva. Já me tornei amigo dos meus clientes. Eles chegam aqui, perguntam como está a minha família”, completa o funcionário.

Os valores divulgados, no entanto, estariam distorcidos da realidade. A informação que circula na sauna é a de que ele já teria recebido cerca de R$ 5 mil de gorjeta por mês, graças à “delicadeza com que trata seus clientes”. Fora isso, não é raro ver os funcionários recebendo propostas, no mínimo, tentadoras. “O sexo é muito comprado nesse meio”, alerta outro empregado.

Quem também se destaca na equipe é um jovem de 22 anos, que chegou há pouco tempo no local. Estreando no mercado, ele parece levar jeito para o serviço. Em um único dia, disse já ter ganhado R$ 180 de gorjeta, valor que também é questionado na casa. O rapaz também não é gay, mas é um dos mais assediados.

“O cliente precisa ser tratado bem, precisa de atenção. O segredo é não esperar que ele peça a cerveja ou o copo. Se a mesa está suja, vai e limpa antes de ele reclamar. Carisma também é importante. Se o cliente for gente boa, eu sou simpático. Se der em cima de mim, recuo um pouco”, relata.

Assédio

O assédio é tão diário quanto o funcionamento da casa. “Um dia, um homem me ofereceu R$ 1 mil para eu ficar com ele e eu não aceitei. Ele tentou me convencer, disse que era a mesma coisa que mulher. Eu falei não”, conta o rapaz.

Ainda assim, ele diz ser “tranquilo” trabalhar na sauna. “Com o que eu ganho, pago aluguel, conta de celular, água, luz e ainda sobra dinheiro”, conclui ele, que oculta da família seu local de trabalho.

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