Trânsito: buzinas, freadas, carros de som. Obras: retroescavadeiras, marteladas, entra e sai de caminhões, alarme de início e fim da jornada de trabalho. Apesar de o som mecânico e o barulho produzido pelos frequentadores de bares estarem em primeiro lugar nas reclamações registradas junto ao Instituto Brasília Ambiental (Ibram) por poluição sonora, como mostrou reportagem do JBr. publicada ontem, não é só esse tipo de barulho que é prejudicial. E, como nas grandes cidades, os ruídos estão em toda parte, a Organização Mundial de Saúde (OMG) considera a poluição sonora um problema de saúde pública.
Neste ano, as denúncias junto ao Ibram aumentaram 66,5% em relação a 2014. Brasília lidera o ranking, com 261 registros, seguida de Taguatinga, com 90, e Águas Claras, 57.
A Lei 4.092/08, conhecida como Lei do Silêncio, prevê, em seu artigo 9º, que “os níveis de pressão sonora provocados por máquinas e aparelhos utilizados nos serviços de construção civil não poderão exceder o limite máximo (de 60 decibéis até as 22h e 55 após este horário). Além do “uso de fonte móvel de emissão sonora em áreas estritas”.
Infrações
Quem infringir a regra e for autuado por fiscais do Ibram, por meio de denúncias, fica sujeito a advertência, multa, embargo da atividade e cassação do alvará de funcionamento. As penalidades variam de R$ 200 a R$ 20 mil.
Em cidades em expansão, como Águas Claras, o incômodo provocado pelo barulho das obras é um problema frequente. Os trabalhos começam cedo, terminam tarde e não param nos fins de semana.
Múcio Martins, subsíndico de um edifício na Rua Alecrim, ao lado de um prédio em construção, fala dos ruídos causados por uma espécie de bomba usada na obra. “Eu não sei para que eles usam esse equipamento, mas provoca um ruído alto. Nem solda ou martelada incomodam tanto”, comenta.
Segundo ele, há dias em que as atividades no local ultrapassam o horário limite, que é 17h30. “Teve uma vez que era mais de meia- noite e ainda havia caminhões entrando e saindo da obra. Reclamamos e a empresa responsável explicou que era porque os operários faziam uma laje e não podiam parar no meio”, conta.
Saiba mais
O excesso de ruídos também afeta o sistema nervoso dos animais, fazendo com que fujam de suas áreas de origem (matas, florestas) e invadam as zonas urbanas. Outro problema é o êxodo dos pássaros. Na ausência de seus predadores naturais, cresce a população de mosquitos e aumenta a incidência de doenças como dengue, febre amarela, entre outras.
Ponto de vista
A poluição sonora pode provocar danos à saúde que vão de alterações no humor a perdas auditivas irreversíveis. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o limite tolerável ao ouvido humano é de 65 dB. Acima disso, pode causar estresse, aumentando o risco de doenças.
O médico otorrinolaringologista Marcelo Mendes frisa, no entanto, que só acima de 80 dB o som se torna realmente prejudicial. “Mas é lógico que, se a pessoa passar o dia com um som de 70 dB no ouvido, vai ter perda auditiva. O tempo de exposição e o nível de barulho influenciam o quadro”, alerta.
Acontece que as perdas auditivas são cumulativas e, em longo prazo, a pessoa pode ter perda auditiva induzida pelo ruído. “Por isso, é preciso evitar escutar som alto, com ou sem fone, ficar próximo a caixas de som em festas e shows ou muito próximo ao palco e usar protetores de ouvido em locais onde a exposição aos ruídos é inevitável”, alerta.
De estresse a efeitos irreversíveis
Para quem mora ou trabalha no centro de Taguatinga, o problema é outro: o barulho do trânsito. Centenas de carros, motos, bicicletas, ônibus, caminhões e pessoas circulam pelo local todos os dias, o que transforma uma simples passagem pelo local em uma experiência auditiva nada agradável.
Damião Dias, 72 anos, é proprietário da barraca Rei das Ervas, no centro de Taguatinga. Ele começa a trabalhar pontualmente às 8h e só vai embora após as 19h, o que lhe concede a marca de 27 anos de exposição à “barulheira”, como ele mesmo diz. “É difícil até de ouvir os clientes, precisamos gritar. Quando chego em casa, demoro para conseguir dormir. Fico com essa zoada” na cabeça durante a noite”, reclama.
Zumbido transitório
A “zoada” a qual Damião se refere pode ser o que os médicos chamam de zumbido transitório, um ruído incômodo no ouvido, sem fonte externa, e comum em pacientes que se expõem a altos e constantes níveis sonoros.
Parte da culpa pelo zumbido de que sofre Damião é do motociclista Paulo Barbosa, de 46 anos, que gosta (e precisa) de ouvir som alto em sua moto. Ele trabalha com publicidade sonora para empresas da região .
“Evito ligar o som antes das 10h, mas, depois, precisa ser alto, senão ninguém ouve no meio dessa zona”, explica. Ele também admite que gosta de ouvir musica alta: “ Me relaxa. Mas, no final do dia, eu não aguento mais o barulho. Chego em casa cansado e estressado”, revela Paulo.
Danos à saúde
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o nível máximo de ruído que o ouvido humano pode suportar, sem haver prejuízos, é de 65 dB. A partir daí, podem ser causados problemas que vão desde estresse até perda irreversível da capacidade auditiva.
As consequências do excesso de barulho não costumam ser imediatos. Se a exposição é constante, por outro lado, pode causar efeitos como redução da capacidade auditiva, perturbação do sono, interferência com a comunicação e na aprendizagem, efeitos fisiológicos, tais como a hipertensão, taquicardia, arritmia e desassossego, entre outros problemas.
Teste do decibelímetro
O pesquisador do grupo de Acústica Ambiental da Universidade Católica de Brasília (UCB) Cleber Alves da Costa foi com o JBr. a alguns pontos de grande fluxo de pessoas e, com a ajuda de um decibelímetro, constatou que todos ultrapassam os 65 dB.
Na Avenida Araucárias, uma das principais de Águas Claras, o decibelímetro marcou mínima de 62 dB e máxima de 86 dB.
Na praça de alimentação do Água Claras Shopping, o nível variou entre 66 dB e 77 dB.
No centro de Taguatinga, às 18h, a mínima ficou entre 68 dB e 79 dB.
O recorde foi registrado na estação de metrô Taguatinga Centro: 70,7 dB. No momento da partida: 88,7 dB.