Paula Santana
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Foi um dia especial para os brasilienses no São Paulo Fashion Week, evento que se realiza no Prédio da Bienal, no Parque Ibirapuera, apresentando as coleções de Inverno 2011 de 31 marcas nacionais. Coincidentemente na mesma tarde, dois grandes nomes da moda prestaram homenagem a Brasília: a marca carioca Maria Bonita e o estilista mineiro Ronaldo Fraga. A primeira quis rememorar a saga dos candangos, aqueles que vieram de várias partes do País para executar o desenho da nova capital. O segundo mergulhou no universo de Athos Bulcão e foi a fundo no resgate de suas 200 obras criadas ao longo de 70 anos de trabalho.
Danielle Jensen, a diretora criativa da Maria Bonita, diz que pensou em humanizar a construção de Brasília. “Quis mostrar a coragem dos homens que mudaram suas vidas pelo sonho de erguer uma nova civilização”. Em meio à estética limpa e a silhueta definida da marca, a coleção se amparou nas cores marrom, azul e cinza numa referência clara ao cerrado, céu e concreto da capital federal. Vestidos de corte reto, longo e seco compunham a
idéia do figurino simplificado das mulheres pioneiras. Em cortes simples, porém estruturados, saias, calças e casacos de malha de lã se desdobravam em suaves transparências e recortes localizados.
A geometria da coleção se revelou na obra de Athos Bulcão. Os azulejos do artista foram remontados nas roupas com resina craquelada, cuja aparência e textura se remetiam ao couro. Assim como o concreto, que se apresentou em pedras aplicadas de cristais Swarosvski. Uma coleção densa em suas cores, sóbria em sua estrutura, mas repleta de humanismo e história.
Os dois mestres
Já Ronaldo Fraga usou Brasília como referência para ilustrar a obra de Athos Bulcão. Encantado com o artista há vinte anos, sua paixão por ele começou quando o estilista desceu no Aeroporto de Brasília e se deparou com seus azulejos. “Ele imprimiu o olhar infantil e lúdico sobre a sisudez do concreto”, explica Ronaldo. “Ele tem integridade estética. Sua obra é de uma simplicidade desconcertante”, diz, enquanto explica como se deu a concepção de seu desfile. “Sempre que penso em Brasília, vejo uma galeria a céu aberto”.
Ao som de Baden Powell e cenário que fazia descer do teto barras de ferro que amparavam gravuras de todos os desenhos criados e registrados no caderno de Ronaldo, a ministra da Cultura, Ana Holanda, e a ex-candidata Marina Silva acompanhavam o desdobrar da apresentação, seduzidas pela atmosfera sempre poética do desfile. Também presente, a brasiliense Valéria Cabral, fiel escuderia de Athos ao longo de sua vida, e atualmente a diretora da Fundação Athos Bulcão. “Eu estou muito emocionada. Ele trabalhou com brilhantismo todas as fases do Athos”, diz Valéria, que enxerga nesse momento uma oportunidade de ganhar parceiros e incentivo para concretizar o projeto de construir a sede oficial da Fundação.
Na passarela, Ronaldo manteve sua identidade na construção da roupa, que sempre vem longe do corpo e tem volumes arquitetados. Como um mestre, consegue dar leveza e simetria à peça em formas que trazem no look uma linguagem etérea, sempre visceral, e avessa aos padrões sazonais que as semanas de moda impõem aos criadores. A obra de Ronaldo é um dos momentos mais esperados na semana de moda. Assim como Athos, Ronaldo imprime em suas coleções o humor e o requinte, a suavidade e a introspecção, a densidade e a leveza que sobrepõem qualquer definição de tendência. São elementos impressos em distintas obras de arte – na roupa e no azulejo – e que só grandes artistas conseguem realizar.