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Brasília

Rolezinho: ninguém saiu ganhando

Arquivo Geral

26/01/2014 8h46

Um shopping não abriu, outro   fechou as portas mais cedo e, em todos os estabelecimentos,    muita segurança particular. Esse foi o saldo dos inéditos rolezinhos no DF. Enquanto o Iguatemi Shopping não funcionou, justamente para evitar a movimentação dos “rolezeiros”, no Gama Shopping  houve tumulto. Também teve “rolé” em Taguatinga e na área central da capital.  

O rolezinho  no Gama   terminou em confusão. Por causa do tumulto, a direção do shopping da cidade antecipou o fechamento   das 22h para as 18h30. Ninguém foi preso, apesar do corre-corre.  

Por volta das 16h, os jovens começaram a chegar. Quando reuniram cerca de 300 pessoas,   decidiram invadir. Seguranças particulares intervieram mas não conseguiram conter a garotada. Nesse instante, a PM foi chamada.

De acordo com a direção do shopping, cerca de 500 clientes estavam do lado de dentro, fazendo compras ou passeando. Alguns tentaram sair. Lojistas fecharam as portas. Como em outras cidades, os jovens cantaram músicas, bateram nos vidros das lojas e correram. Antes das 19h os tumultos cessaram. 

Já no Lago Norte, porém, depois de muita mobilização virtual,  o vaivém de seguranças foi bem maior do que a movimentação de jovens.  De portas fechadas ao longo do dia, o Iguatemi  argumentou que seu espaço físico não é “planejado para receber qualquer tipo de manifestação”. Uma equipe reforçou a segurança externa e impediu a entrada de quem se aproximou.

Sete policiais observaram, de longe,  aproximadamente 25 pessoas que se aglomeraram na entrada do centro comercial.  Os jovens escutaram   músicas de estilos variados e conversaram durante algumas horas. “Era exatamente isso que faríamos se tivéssemos entrado”, reclamou um dos organizadores do evento, o estudante de Serviço Social  Franklin Rabelo,  23.

Quatro advogados da   OAB-DF acompanharam os manifestantes para garantir que não houvesse truculência e, caso alguém fosse detido, prestar assistência jurídica.

Segundo  o presidente do Sindicato do Comércio Varejista, Edson de Castro, a estimativa de prejuízo  para um shopping que deixa de funcionar em um sábado gira em torno de R$ 500 mil.

Lojistas e clientes tensos

No ParkShopping, outro centro comercial da cidade escolhido para acontecer o rolezinho,   a segurança foi reforçada e o clima era de tensão entre os lojistas e consumidores. O evento, no entanto, não aconteceu e todo o alarde   foi desnecessário. Não houve   princípio de confusão e o shopping funcionou normalmente, com praça de alimentação e estacionamento lotados.

 Ainda assim, nos corredores do local, os consumidores se mostraram indignados com a ideia do  rolezinho. Para o servidor público Rômulo Reis, 28 anos, qualquer tipo de protesto é válido, desde que seja em lugares apropriados. “Com tanto espaço na cidade, os manifestantes não precisam escolher os shoppings. Atrapalha o comércio e o fim de semana das pessoas, pois todo mundo fica com medo. No geral, acredito que os shoppings não estão preparados para conter uma possível confusão, a segurança não é suficiente”, afirma o servidor. 

A estudante Pamela Ribeiro, 18 anos, compartilha da mesma opinião. Segundo ela, reivindicar é direito de qualquer cidadão, desde que em pontos específicos da cidade para não atrapalhar o descanso das famílias. “Eles perdem a razão quando marcam o protesto dentro dos shoppings”, declara.

Para a gerente de uma loja, Andréia Lima, 40 anos, ainda que não tenha ocorrido, o  rolezinho  prejudicou o faturamento das lojas e o trabalho dos funcionários. “Todo mundo trabalha apreensivo, pronto para fechar as portas. Além disso, o shopping não está cheio como de costume, os consumidores também ficaram com medo”, conta.

Na rua, manifestação contra a Copa

“Copa do Mundo eu abro mão, quero dinheiro para a saúde e educação”. Foi assim que os manifestantes, aproximadamente 60 jovens, segundo a Polícia Militar, iniciaram um  protesto em frente ao Brasília Shopping, às 17h. Nomeado “Não Vai Ter Copa”, o evento reuniu, inclusive, adolescentes que iriam participar do rolezinho marcado para ocorrer no Shopping Iguatemi, mas que acabou perdendo a força, pois o centro comercial ficou fechado durante todo o sábado para evitar possíveis transtornos.

Seis viaturas, duas motos e dois ônibus, segundo a PM, acompanharam os jovens, que percorreram algumas das principais vias da área central. Ainda de acordo com a PM, 200 policiais estavam nas proximidades do protesto para fazer a segurança dos manifestantes e controlar o trânsito.

  Os adolescentes saíram do Brasília Shopping em direção ao Pátio Brasil. Depois, caminharam pela W3 Sul e voltaram em direção à Rodoviária do Plano Piloto. Durante o trajeto, houve apenas um princípio de confusão, quando alguns manifestante insinuaram invadir a Corrida de Reis, que estava acontecendo no mesmo momento  no Eixo Monumental. Em seguida, os policiais controlaram os jovens, que seguiram para o fim do protesto, na Rodoviária, por volta das 20h. 

  Entre as principais reivindicações, o dinheiro gasto com a Copa e a falta de verba para a saúde, educação e transporte se sobressaíram. Para o manifestante Elton Kurst, 19 anos, o evento esportivo  atrapalhou a vida de muitas famílias que tiveram que abandonar suas casas por causa das obras. 

“Com a construção dos estádios, muitas pessoas tiveram que deixar suas casas, pois moravam perto das obras. Além disso, os políticos insistem em convencer as pessoas dos possíveis benefícios que o evento vai trazer para o País, o que é um grande erro. Nada vai mudar depois da Copa, pelo contrário, até os estádios não terão dinheiro para manutenção”, afirma o estudante. 

Aquecimento

De acordo com o estagiário Sérgio Droco, 22 anos, um dos organizadores do evento, o protesto é apenas um aquecimento para as futuras manifestações. “Até a Copa ainda terão muitos encontros como esse, inclusive, durante os jogos. É impossível afirmar que vamos conseguir impedir a Copa do Mundo, mas vamos tentar até o final”, diz.

O protesto foi organizado em uma rede social e chegou a ter 1,2 mil pessoas confirmadas. Os adolescentes não tentaram invadir  os dois shoppings por onde passaram, mas fizeram muito barulho em frente aos locais, portando vários cartazes e até máscaras.

Reunião pacífica em Taguatinga


No Taguatinga Shopping, diferentemente do que ocorreu no Iguatemi, as portas não se fecharam e pelo menos 300 jovens se reuniram para um flash mob – evento programado pelas redes sociais com propósitos inusitados – denominado “Trote do Pijama”. O evento reuniu fãs do cantor canadense Justin Bieber, os boylibers, e swags – pessoas que se vestem de determinada forma para se integrar a um grupo –, além dos chamados colírios – rapazes considerados muito bonitos –, que levam as meninas ao delírio.
Mesmo diante da ameaça de infiltração de black blocks e com medo por conta do rolezinho, a direção do shopping decidiu manter as portas abertas, mas reforçou a segurança do prédio. “Todos estão autorizados a entrar. Os jovens são um grupo importante de nossos clientes e nós apoiamos as manifestações pacíficas”, declarou a assessoria de imprensa.
 
Os organizadores do flash mob afirmaram que o evento não tem relação com o rolezinho. “É diferente até na personalidade dos participantes. Aqui tem gente de pijama”, declara a organizadora, de apenas 12 anos.
Ela   conta que o evento ocorre sempre no mesmo shopping a cada dois meses há pelo menos um ano e meio.
Mesmo assim, a ameaça da realização de  rolezinhos levou alguns lojistas a reforçarem a segurança   de suas lojas. “A gente está se prevenindo de vândalos, de pessoas infiltradas no meio dos bonzinhos”, afirma a gerente de uma perfumaria, Rozangela Bezerra. Apesar da aglomeração, o movimento no shopping não afastou os clientes, segundo a lojista.
 
Ponto de vista
 
O presidente da Federação do Comércio no DF (Fecomércio), Adelmir Santana,   defende a manutenção do direito de ir e vir e percebe uma falta de orientação sobre como proceder, em casos como este, por parte de autoridades e empresários.  Santana não concorda com o fechamento dos centros de compras. “O local precisa de público, não se pode fazer uma seleção de visitantes. Portanto, a situação é difícil e o fechamento me parece o menos adequado no momento”. O presidente da Fecomércio afirma também que a precaução dos shoppings, antes mesmo de os eventos ocorrerem, deu mais força ao movimento.

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