Brasília

Reservatórios estão com capacidade máxima no DF

Novo recorde histórico estabeleceu este fevereiro como o mais chuvoso em Brasília desde 1962

Mayra Dias e Vítor mendonça
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O intenso período de chuvas é reconhecido pelos estragos que costuma deixar nas cidades. No entanto, para a população, muitos efeitos positivos podem surgir desses eventos. Na última semana, por exemplo, dados da Agência Reguladora de Águas, Energia e Saneamento Básico do DF (Adasa) mostraram que os reservatórios de água da capital registram 100% do seu volume útil, o que, como explica o professor de zoologia da Universidade de Brasília, Eduardo Bessa, garante a disponibilização de água para a comunidade e o aumento da umidade do ar em períodos de seca.

De acordo com a entidade, no início do mês de fevereiro, o reservatório do Descoberto registrava 84,1% de volume útil, e o de Santa Maria 96,3%. Devido às últimas chuvas, os reservatórios alcançaram, em quinze dias, 100% dessa capacidade. Para Eloneide Meneses, gerente de Recursos Hídricos e Segurança de Barragem da Caesb, os valores considerados bons para um reservatório de acumulação dependem de diversos fatores como capacidade, regime de chuvas, demanda a ser atendida e época do ano.

“Para os reservatórios Santa Maria e Descoberto o ideal é que atinjam o volume máximo entre dezembro e fevereiro e se mantenham assim até pelo menos o final da estação chuvosa”, explica Eloneide. A gerente destaca ainda que, como nos meses de dezembro e janeiro as chuvas foram abaixo da média, a elevação dos índices pluviométricos em fevereiro foi fundamental para essa recuperação.

Abastecimento e umidade

Até ontem, as estações hidrometeorológicas operadas pela Adasa registraram 344 mm de chuva acumulada no mês de fevereiro no reservatório do Descoberto e 260 mm no reservatório Santa Maria. Valores expressivos e acima da média mensal. “No início do verão alguns períodos de estiagem e chuvas ainda fracas me deixaram um pouco preocupado com os níveis dos reservatórios. Nas últimas semanas, no entanto, as chuvas mais abundantes normalizaram os níveis e estamos numa situação bem mais confortável”, avalia o professor Eduardo Bessa.

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De acordo com a instituição responsável pelas medições, quanto mais tempo os reservatórios permanecem cheios, maior a segurança para o abastecimento no período da estiagem. Para fins de comparação, os reservatórios Descoberto e Santa Maria permaneceram com 100% do volume útil cheio até o início de julho, no ano de 2020, e até o final de junho, em 2019. “Os benefícios são a manutenção dos serviços de abastecimento de forma contínua, sem rodízios e com a qualidade necessária”, afirma o professor de zoologia. Todavia, Eduardo faz uma ressalva. Devido ao fato de Brasília estar em uma região climática marcada pela sazonalidade das chuvas, com uma seca extensa e muito prolongada, nenhum reservatório em 100% da capacidade será suficiente se a população não contribuir, consumindo água de maneira comedida.

Conforme destaca o especialista, os reservatórios têm três importantes papéis no DF. Disponibilizar água para consumo da população, aumentar a umidade do ar durante os meses de seca e ser um espaço de lazer e beleza cênica. Eduardo explica que, em Brasília, as principais fontes de abastecimento desses espaços são as chuvas e os rios tributários. “No entanto, é importante lembrar que os rios também se abastecem da chuva. Quando chove nas cabeceiras dos rios, a água da chuva escorre pelo solo até chegar neles, dali ela é escoada para os reservatórios”, completa o profissional.

Temor de morar ao lado da barragem

Também nesse período, os números do Lago Paranoá foram igualmente satisfatórios. A cota foi igual a 1000.65 m, o que é superior à estabelecida como referência pela Resolução Adasa nº 21/2020 para a data de hoje (999,80 m). A Adasa chama atenção, porém, que não importa somente o volume de chuvas, mas a distribuição delas ao longo do tempo. De chuva no Lago, a instituição registrou, até a semana passada, 367 mm acumulados.

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Tamanha quantidade de água pluvial e no Lago forçou a Companhia Energética de Brasília (CEB) a soar as sirenes e abrir as comportas da Barragem do Paranoá desde o dia 15 de fevereiro. Na última segunda-feira (22), no entanto, a altura das aberturas foi aumentada em novos 70 centímetros em cada porta, totalizando 2,10 metros.

Justamente na segunda-feira, a parte da frente da casa de Vanusa Araújo, 46, e Francivaldo do Nascimento, 52, foi inundada até a metade da garagem. Eles moram na região do Núcleo Rural Boqueirão, próximo ao Paranoá e vivem às margens do Rio São Bartolomeu, banhado pelas águas vindas da Barragem do Lago. O nível da água subiu em aproximadamente três metros, cobrindo também a rua da frente, que normalmente separa a residência da correnteza.

“De manhã cedo, quando acordei, o rio já estava bem cheio, na beirada da pista. A CEB e os bombeiros vieram e acompanharam o nível até de noite. Desde que o aconteceu em Brumadinho, eles ficaram mais atenciosos e nos alertam sempre quando vão abrir as comportas. Mas algo assim nunca tinha acontecido”, afirmou a moradora do local, Vanusa. No dia, a sirene soou três vezes alertando do aumento nas aberturas da Barragem.

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A velocidade e força da água foram suficientes para levar um dos carros da família rio abaixo. Ele foi recuperado quando a chuva e o nível da enxurrada diminuíram.

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“Tive medo de derrubar o muro e levar a parte da frente da casa. Minha preocupação foi essa. Quase não dormi à noite por medo da chuva e a água subir de novo”, continuou. Nos cinco anos que mora na localidade, a preocupação nunca foi tanta.

“Desceu uma árvore quebrada, galhos. Tanta coisa que eu até pensei que veria um corpo de alguém. Teve um cachorro que vimos sendo levado também, mas não podíamos fazer nada – ele estava no meio do rio e não sabíamos se estava morto ou vivo”, contou.

De acordo com o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), fevereiro de 2021 bateu o recorde histórico e se tornou o mais chuvoso em Brasília desde 1962, quando se iniciaram as medições do órgão na capital.

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Até a manhã de da última segunda-feira, totalizou-se 473,4 mm, ultrapassando os 460,4 mm de fevereiro de 1980 – recorde anterior.






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