Envolta por cinco sacolas plásticas, buy em uma parada de ônibus próximo ao Hospital de Base, estava uma recém-nascida de cabelos pretos e olhos fechados. Tinha pouco mais de três quilos e nove meses completos, mas não respirava. Os policiais militares que a encontraram correram rumo ao hospital, em uma tentativa de salvá-la, mas a menina já estava morta. A mãe, a atendente Raquel Lopes de Cordeiro, 28 anos, moradora do setor ABC da Cidade Ocidental (GO) tinha rejeitado a criança, que veio ao mundo por volta das 18h de sábado.
Raquel ganhou o bebê em um banheiro do Hotel Mercure, no Setor Hoteleiro Norte, onde ficava nos finais de semana. Entrou nele por volta das 16h30 e só saiu cerca de duas horas depois. Gritava de dor. No local, estava o patrão italiano Antonino de Giovanni (empresário do ramo de alimentação do Plano Piloto) e duas colegas de trabalho. Embora tivessem contato com Raquel duas vezes por semana, às quintas e sextas-feiras, os três negaram saber que ela estava grávida de nove meses. “Nós chegamos a perguntar, mas ela dizia que a barriga estava grande porque tinha operado de um cisto e que estava tomando remédio para curar a doença”, disse a operadora de caixa, Fernanda Chaves, de 25 anos.
Recusa
No momento em que se trancou no banheiro, por volta das 16h30, apenas Giovanni estava no apartamento. Foi ele quem chamou as outras duas funcionárias para o hotel. Sem abrir a porta, Raquel teria dito a eles que “não conseguia defecar”. As meninas chegaram a entregar à colega uma bolsa de água quente e Buscopan para aliviar a dor que sentia. Conforme relato delas e do patrão Antonino de Giovanni, Raquel se recusava a ir ao hospital. Segundo Fernanda, apenas cerca de duas horas depois ela concordou em ir para o hospital, mas antes pediu sacolas plásticas “para colocar a roupa suja”. As sacolas foram entregues pela fresta da porta, segundo as testemunhas.
“Não ouvimos barulho de choro”, asseguraram os três. Ao sair do banheiro, o patrão chegou a pedir uma cadeira de rodas para que ela pudesse ir para o hospital, mas a atendente resolveu ir andando com a ajuda das amigas. Raquel entrou no carro, um Gol vermelho, com a sacola que dizia ser de roupas sujas. “Ela não deixava a gente segurar a sacola de jeito nenhum. No meio do caminho pediu para a gente parar o carro que ela queria jogar as roupas fora”, contou Fernanda à reportagem do Jornal de Brasília.
Ao procurar o Hospital Regional da Asa Norte (Hran), com sangramento, os médicos encontraram a placenta descolada e descobriram que Raquel tinha acabado de dar à luz. Depois de pressionada, ela confessou que havia abandonado a criança na parada de ônibus próxima ao Hospital de Base. Uma médica ginecologista, então, comunicou aos policiais militares sobre o crime.
Choque
Os soldados Rubens Lopes de Cordeiro, Flávio Menezes e Edinael de Souza não esquecem o momento em que retiraram a recém-nascida de cinco sacos plásticos. “Aquilo foi um choque para a gente. Ver aquela criança roxa e sem respiração me fez ficar sem chão”, disse o soldado Rubens. Sem ter forças para correr, entregou a criança a Edinael, que seguiu com a menina nos braços ao Hospital de Base. Não havia mais o que fazer, pois o bebê já estava sem vida.
O empresário Antonino de Giovanni afirmou que Raquel era, há cerca de três anos, muito amiga de sua mãe e que, inclusive, se preparava para viajar à Itália nos próximos dias para fazer companhia a ela. A jovem dormia no hotel Mercure apenas nos finais de semana, quando trabalhava até tarde num restaurante. “Ela mora muito longe. Às vezes não dava para pegar o ônibus”, explicou o empresário. Ele negou que soubesse da gravidez da funcionária. “Ela enganou a gente. Fomos imbecis sim. Minha consciência está limpa, mas me sinto sujo também”, disse ele.