Menu
Brasília

"Verás que um filho teu não foge à luta"

Arquivo Geral

18/06/2013 8h00

Uma manifestação com gritos revolucionários. Foi assim que jovens e adultos saíram do Museu da República, na Esplanada dos Ministérios, em direção ao Congresso Nacional. Ali, no centro do poder, integrantes de pelo menos três grupos – Marcha do Vinagre, Marcha da Maconha e Apoio às manifestações de São Paulo e Copa pra Quem? – fariam, no final da tarde, um minuto de silêncio pedindo melhorias no transporte, educação e saúde e na gestão do dinheiro público. 

 

No início da noite, os ânimos, já exaltados, deram lugar às ações rápidas e organizadas. Cerca de sete mil manifestantes – 5,2 mil segundo a Polícia Militar – driblaram o cordão de isolamento da polícia pelo espelho d’água e chegaram à marquise do poder.

 

Em frente às duas cúpulas – da Câmara dos Deputados e do Senado Federal – eles protestavam com cartazes, gritos e cantos do hino nacional. A bandeira do Brasil foi afixada no meio da marquise como símbolo do ato da marcha que apoiava, ainda, às manifestações realizadas em São Paulo e outros estados. No embalo, os gritos também reivindicavam uma melhor gestão do dinheiro público em razão dos investimentos na Copa das Confederações e Copa do Mundo 2014. E, ainda, em relação ao Projeto de Emenda Constitucional (PEC) 37, que limita o poder de investigação do Ministério Público.

 

No Poder Legislativo, além da marquise, a rampa de acesso ao Congresso Nacional foi tomada pela multidão. Acuados, as polícias Militar e Legislativa não retiraram a multidão da marquise quando o local já havia sido ocupado. No entanto, cerca de 500 policiais fizeram um cordão de isolamento para impedir a invasão do Congresso. Spray de pimenta e gás lacrimogêneo foram utilizados pela PM. Também chegou a se ouvir barulho de arma taser (que provoca choques), mas o uso do equipamento por parte da corporação não foi confirmado.

 

Por outro lado, os militares foram alvos de água atirada pelos manifestantes que estavam no espelho d’água. A Polícia Legislativa estacionou viaturas em frente à rampa do Congresso para tentar evitar a ocupação. Não teve jeito. A invasão ocorreu pela lateral. 

 

No início da noite a aproximação ao Congresso se tornou mais intensa.  Eles chegar até a chapelaria, a poucos metros da entrada. Lá, a ação da polícia se tornou repressiva para impedir o acesso dos manifestantes ao interior do Congresso. Dentro, policiais legislativos ficaram a postos. Mesmo assim, os manifestantes jogaram um martelo dentro do Congresso e um vidro ficou rachado. 

 

Políticos

E, apesar de um reforço na segurança, as vozes dos milhares de manifestantes não foram contidas. Os gritos eram direcionados aos PMs e a políticos – os senadores Renan Calheiros (PMDB-AL) e José Sarney (PMDB-AP), o deputado federal Marco Feliciano (PSC-SP) e a presidenta da República, Dilma Rousseff. Os senadores Inácio Arruda (PCdoB-CE), Eduardo Suplicy (PT-SP) e Paulo Paim (PT-RS) fizeram uma reunião, mas não desceram para negociar com os manifestantes uma vez que o grupo não tinha quem se colocasse como liderança.    

  
Negociação no Congresso
 
Dentro do Congresso, três líderes do movimento se reuniram com o policial legislativo Paulo de Tarso. O militar chegou a combinar com os jovens um encontro com alguns parlamentares, mas antes discutiu as pautas de reivindicações. Os manifestantes pediram prazos para uma possível reunião e solução por parte de senadores e deputados. 
 
No fim da noite, o diretor-geral da Câmara Federal, Sérgio Sampaio, e o chefe da Casa Militar do GDF, Rogério Leão, se reuniram para discutir a ação da PMDF em caso de tentativa de invasão no interior do Congresso. Um dos líderes do movimento, Wellington Fontenelli, 18 anos, destaca que a ocupação na casa legislativa não foi premeditada. O estudante classificou o ato como espontâneo.
 
“Agora, o povo está manifestando pelo simples fato de ser brasileiro. Foi um ato de orgulho, amor e paixão pela pátria. Esses são gritos de gol para mudar nosso País. Fora ditadura. Chega de pão e circo!”, disse. Horas antes, assim quando os manifestantes ocuparam o congresso, Fontenelli chegou a relatar que houve tumulto entre os próprios jovens, mas a ação começou por parte de poucos.
 
“Alguns começam a puxar a briga e os demais foram atrás. O tempo todo tentamos evitar confronto. Agora, queremos identificar os que incitaram briga e retirar essas pessoas do grupo”, contou.
Pelo menos dois homens foram detidos pela polícia por tentar, inicialmente, ocupar o Congresso. Alguns jovens chegaram a acender  tochas,  e  assim que foram percebidas, policiais   apagaram as chamas.
 
 
Demonstração de insatisfação generalizada
 
André Vargas, vice-presidente da Câmara, se reuniu com as autoridades do batalhão de choque   para decidir como agir. “Confiamos plenamente na polícia, mas que isso fique como aprendizado para garantir a integridade dos servidores que ainda estão aqui no trabalho, dos próprios manifestantes e da comunidade. Temos que parabenizar a operação, que mostrou que havendo contenção não há necessidade de impor força”, afirmou.
 
Vargas entendeu também que a falta de uma pauta especifica dificulta a comunicação e uma possível resolução   do problema. “A melhor prevenção é o diálogo, mas não houve unidade no discurso. Eles mostraram uma insatisfação generalizada. São movimentos legítimos, mas sem uma pauta especifica fica difícil sentar com essas pessoas e conversar”. 
 
O grupo saiu do Museu Nacional em direção ao Poder Legislativo às 17h. O acordo com a polícia  era que fossem ocupadas apenas duas faixas para o protesto. Contudo, depois de alguns minutos, jovens e adultos tomaram todo o Eixo Monumental, que ficou bloqueado para o tráfego de veículos a partir da Catedral. O objetivo era promover uma manifestação   pacífica, e estava entre os planos   fazer um minuto de silêncio em frente ao Congresso.  Dentre os manifestantes estava a aposentada Rosalba Nunes, 65 anos. “Vim pela paz. Luto por um Brasil melhor, por um país de harmonia”, destacou. (Colaborou Júlia Carneiro)
 
Nossa opinião

 
Aumento no preço da passagem de ônibus? Custos da Copa? PEC 37? Não importa o motivo, o que fica óbvio é a perda de paciência, criando um clima que o País não vivia desde os cara-pintadas contra o ex-presidente Fernando Collor, ou das manifestações pelas eleições diretas. 
 
Assim como é transparente que os governos (federal, estaduais e do DF) não estão ouvindo direito o grito das ruas. E, assim, buscam razões, elegem culpados e repetem o discurso de que protestar faz parte da democracia. Como se o protesto não fosse direcionado a eles. 
 
Enquanto isso, a onda cresce e se espalha, ampliada pela capacidade de disseminação das redes sociais.   Claro que há os oportunistas e vândalos, mas, acima de tudo, existem os justamente indignados. Contra esses últimos, definitivamente, balas de borracha, sprays de pimenta e bombas de gás não são bons contraargumentos.

    Você também pode gostar

    Assine nossa newsletter e
    mantenha-se bem informado