Marina Cardozo, Jurana Lopes e Bianca Moura
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A maioria dos dez foragidos da Papuda na madrugada do último domingo (21) responde por crimes cometidos em Samambaia. Três deles, pelo menos, se conhecem de longa data. Lauiço de Brito Santos, 27 anos, Valdeir Alves de Brito – ambos estão entre os recapturados – e Michael da Mata Silva, 26, foram condenados por matar um rapaz e ferir outros seis em via pública de Samambaia, em 2009.
Narra a denúncia feita à Justiça que, armados, eles determinaram a todos que se deitassem no chão e em seguida passaram a agredi-los com chutes e coronhadas. Duas das vítimas, temendo uma execução, levantaram e correram, o que motivou os acusados a atirar.
Lauiço e Michael foram condenados a, respectivamente, 84 e 75 anos de reclusão. Entre todos os dez fugitivos, Marcos Antônio Moreira dos Santos recebeu a maior pena: 93 anos.
Outro foragido que cometeu crimes em Samambaia é Jefferson Alves Faria Carvalho. Preso por dois homicídios, cumpre oito anos no regime semiaberto. O vulgo “Maluquinho” ainda teria tentado matar a amiga da namorada porque ela teria incentivado a terminar a relação, em 2009.
Francisco Elton de Lima Sousa: vulgo “Baianinho”, tem duas acusações por homicídio. Notícias envolvendo seu nome também indicam que ele atuava em Samambaia.
Os agentes de segurança fizeram buscas pelos foragidos com o apoio de 12 equipes da Dpoe, três helicópteros da PMDF e batalhões de Cães e de Operações Especiais. “Todas as unidades estão com as fotos dos fugitivos para facilitar a localização”, explicou o assessor de comunicação da Polícia Militar, capitão Michello Bueno. Quem tiver informações sobre os procurados pode ligar para 3339- 1345 (Sesipe); 197 ou 8626- 1197 (PCDF) e; 190 (PM).
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Seis recapturados
Após um dia inteiro de buscas pelos dez presos que fugiram do Complexo Penitenciário da Papuda na madrugada de ontem, pelo menos seis foram recapturados à noite, na QI 17 do Lago Sul. As circunstâncias do caso ainda são obscuras. Os criminosos cumprem pena em regime fechado na Penitenciária do DF I (PDF I), conhecida como Cascavel, onde ficam os condenados a detenção de 20 a 30 anos. Segundo o diretor da PDF I, delegado Mauro Cézar, todos são muito perigosos.
Os agentes só notaram a ausência dos detentos às 7h, durante a chamada nominal dos presos. Segundo informações da Subsecretaria do Sistema Penitenciário (Sesipe), da Secretaria de Justiça e Cidadania (Sejus), após a constatação do problema, a equipe de plantão acionou a Diretoria Penitenciária de Operações Especiais (Dpoe) e os demais órgãos de segurança pública.
“Será instaurado um procedimento para apurar as circunstâncias do ocorrido e todas as providências necessárias estão sendo adotadas para a recaptura dos internos foragidos”, declarou a pasta.
Servidores nos presídios
A fuga ocorre em meio à queda de braço em torno da lotação dos servidores que deveriam estar nos presídios reforçando a segurança. Na última quarta-feira, a Justiça determinou o retorno de 534 agentes policiais de custódia cedidos do sistema prisional a outras áreas. A decisão tem 15 dias para ser cumprida, sob pena de multa diária de R$ 1 mil.
Abandonos misteriosos ano após ano
No último dia 2, outros cinco internos fugiram pelo telhado do Centro de Detenção Provisória (CDP), no mesmo complexo, destinado a homens em prisão temporária ou que aguardam transferência. Até o dia 4, quatro deles tinham sido recapturados. Dois deles praticavam furtos quando foram flagrados pela polícia. Outro foi localizado em Caldas Novas (GO). Em março de 2015, mais um detento fugiu da Papuda após fazer um buraco na parede e serrar a cela.
Até então, a última fuga havia sido registrada em 2012, quando três presos também conseguiram serrar as grades da cela. Em março de 2011, seis presos de alta periculosidade escaparam da Penitenciária do Distrito Federal II.
Em setembro do ano passado, 50 presos foram isolados por suspeita de participar da escavação de um túnel de quatro metros de extensão, conforme o Jornal de Brasília noticiou com exclusividade. A rota de fuga começava no pátio do CDP.
O Complexo Penitenciário da Papuda tem 14 mil detentos e abriga cinco dos seis presídios do DF: penitenciárias I e II, Centro de Detenção Provisória e Centro de Internação e Reeducação. A unidade feminina (Colmeia), que também tem uma ala psiquiátrica para ambos os sexos, é localizada no Gama. Ali, um preso morreu na quinta-feira passada, e o caso é investigado.
Objeto de matéria do JBr. há duas semanas, o último relatório da Secretaria de Justiça, Direitos Humanos e Cidadania (Sejus) sobre o sistema penitenciário local revela que população carcerária dobrou desde 2009 e, atualmente, concentra a terceira maior taxa de aprisionamento do País, com 496,8 encarcerados para cada dez mil habitantes, e o maior coeficiente de entrada e saída. A cada dez pessoas liberadas, outras 26 são incluídas no sistema.
Quinto lugar em superlotação
A Papuda ostenta a quinta colocação relativa à superlotação de presídios do Brasil. Atualmente, a população carcerária do DF é de 14.351 internos para 7.411 vagas disponíveis, segundo a Secretaria de Justiça, e essa diferença aumenta constantemente.
A estimativa da pasta é de que, a cada ano, haja um acréscimo de mil pessoas ao total de presos. A expectativa, no entanto, é de mais 6,5 mil vagas serem criadas nos próximos seis anos, número insuficiente sequer para cobrir o déficit atual.
Somado ao problema da superlotação, existe a carência de agentes penitenciários para zelar por esse sistema. Conforme a Sejus, há 1,3 mil servidores, sem previsão de aumento do contingente, pois, desde 2013, os concursos não resultaram em novos efetivados. Ou seja, em tese, cada agente seria responsável por vigiar pelo menos 11 presos.