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Brasília

Quando a perda não é o fim: mães se unem após luto

Arquivo Geral

10/06/2016 20h28

Jean Marques

Ana Ferreira

ana.ferreira@jornaldebrasilia.com.br

Jean Marques

Jean Marques

Sob o gramado do Parque da Cidade, mães que precisaram encarar o fim inesperado do sonho de ter um bebê nos braços resolveram se unir para trocar experiências e apoio. Com esse propósito, há um ano, foi criado o grupo “Mães de Estrelas”. Uma vez por mês, as mulheres se reúnem para trocar informações, ouvir e discutir as particularidades que tornam a perda gestacional ou neonatal fonte de questionamentos intensos. No último sábado (4), o grupo esteve presente no estacionamento 7 do Parque da Cidade, onde puderam praticar exercícios, contar suas histórias e, ao final, encerraram o evento com um lanche entre amigos. Os encontros são organizados por meio do Facebook.

“Em nossa reunião espalhamos a dor e, ao mesmo tempo, o amor. Mesmo que tenhamos relatos muito diferentes, nos identificamos nas histórias vividas. A dor é muito parecida, e faz com que os pilares expostos sejam de todas nós. Cada reunião do nosso grupo ajuda no processo de reconstrução da nossa vida. Nossos filhos fizeram com que a gente se encontrasse em uma única constelação. Quando buscamos uma resposta, olhamos para o céu e sabemos que são eles olhando por nós”, afirma Laura Picolli, uma das organizadoras do evento e mãe da estrela Murilo, que partiu com 37 semanas, vítima de insuficiência placentária, em Agosto de 2015.

Solidão, angústia, tristeza, descrença. É impossível listar os sentimentos que uma mulher sofre ao passar por esta experiência. Para as famílias que vivenciaram tal situação, a perda gestacional é vista como um acontecimento potencialmente traumático, mas também de aprendizado. Após o episódio, o processo de luto vivenciado vai além do sofrimento pela morte do bebê, como também às mudanças na estrutura familiar e social.

O casal Nahyara e Francisco Rafael, ambos de 23 anos, sabem bem o que é isso. Durante a gestação, Nahyara sofreu insuficiência renal e, por conta do problema, o neném nasceu prematuro, com 27 semanas. Após ficar três dias internado, ele veio a óbito por ausência de desenvolvimento no pulmão. No período pós-parto, o casal relata que enfrentou uma série de dificuldades. No entanto, ao final, descobriu uma força que não imaginava ter.

“Sofri com depressão. Pensei em me separar do meu esposo por diversas vezes, pois me sentia culpada pela morte do nosso bebê. Muitas pessoas, talvez por ausência de sensibilidade ou empatia com o assunto, nos falavam barbaridades sobre a morte do nosso bebê. Isso me deixava arrasada”, dasabafou. “Após o ocorrido, nossa família se fortaleceu bastante. Hoje eu consigo sorrir. Todas as noites converso com meu filho e vivo um dia de cada vez”, concluiu Nahyara.

Nem sempre a ciência explica

Quem passa por tamanha dor, além de conforto espiritual, busca também explicações científicas, que as façam aceitar, ou ao menos compreender, o que provocou tamanho sofrimento. A médica especialista em ginecologia e obstetrícia de alto risco do Hospital Universitário de Brasília (HuB), Silândia Amaral da Silva Freitas, enfatiza que as causas que levam as perdas gestacionais podem ocorrer por diversos fatores.

“Temos as causas muitas vezes já conhecidas brevemente, como diabetes, hipertensão e doenças não imunes. Todas essas, na maioria das vezes, são identificadas durante a gravidez. Causas fetais também ocasionam a perda, além de bebês com malformações, alterações genéticas e, ainda, as causas não conhecidas fisicamente, que é quando aparentemente a gestação está fluindo bem e somos surpreendidos com a interrupção da mesma”, afirmou.

Ainda segundo a médica, quando a perda gestacional ocorre com a gravidez avançada, é chamado óbito fetal no terceiro trimestre. Nesse momento, a realização da anatomopatológica (necrópsia) ou o estudo da placenta são essenciais para contribuir na identificação do que pode ter ocasionado a morte do bebê. “Sabemos que lidar com a dor recente da perda não é tão simples, mas sugerimos os procedimentos burocráticos para que se possa diagnosticar o caso. Mesmo assim, nem sempre é possível identificar a causa. Mas, pelo menos, surgem as possibilidades”, explicou.

Para quem sofreu uma perda gestacional ou neonatal o consolo é necessário. Respeito ao luto e a dor que os pais e a família sofrem é essencial para a recuperação. Nesse propósito, o HUB oferece suporte com equipe de psicólogos e médicos que realizam o acolhimento. “Quando acontece isso na vida de um casal, procuramos explicar as razões e dar o suporte emocional necessário para que o interesse de uma próxima gestação não seja regido pelo medos ocasionados pelo trauma da primeira”, explicou Silândia.

Para participar do grupo o contato pode ser realizado pelo Facebook ou pelo telefone 99301-4884.

Leia um dos relatos na íntegra

Jean Marques

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“Com 36 anos, fui surpreendida por uma gravidez não planejada. Era um namoro recém-iniciado e, na primeira vez que tivemos uma relação sexual, engravidei. Com cinco semanas de gestação, fiz o exame e deu positivo. Por ser uma relação recente, meu namorado acabou questionando a paternidade. Naquele momento, entendi que ele não queria ficar comigo. No mês seguinte, terminamos o relacionamento.

Aos cinco meses de gestação, fui fazer um exame para descobrir o sexo do meu bebê. Eu estava muito ansiosa e, na sala médica, recebi duas notícias que mudariam toda a minha vida: eu seria mãe de uma menina, minha Melissa! Porém, junto a informação do gênero, as médicas visualizaram uma série de malformações congênitas na minha bebê. Diante de todo o choque, a única certeza recebida pela junta médica é que minha gestação poderia não se concretizar e, caso ela durasse os nove meses previstos, minha filha não teria chance alguma de sobrevivência.

A partir daí, eu buscava respostas, mas me via de mãos atadas. Quando dei a notícia para o pai, ele disse que não queria saber da criança, porque ela seria “defeituosa”. Pedi para que se afastasse de nós mesmo sabendo de toda a complicação da minha gestação. Naquele momento, eu precisava de paz. Os dias passavam, a barriga crescia e a angústia aumentava. Eu não sabia o que esperar. Melissa teve chá de fraldas, tudo como tinha que ser, mesmo sabendo que ela não ficaria comigo por muito tempo.

Com 38 semanas, senti algo errado na minha barriga e precisei correr para o hospital. Ao chegar, constataram que a Melissa tinha ido a óbito devido a uma parada cardiorrespiratória. Minha filha nasceu de parto normal, ali mesmo, no quarto do hospital. Ela era linda! Até hoje, lembro da maciez da pele, das bochechas e daqueles 30 minutos que a segurei no colo. O pai, nunca mais tive contato”

Cynara Brito, 38 anos, costureira, perdeu a filha há 11 meses.

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