Menu
Brasília

Protagonistas nos dois cenários

Ao mesmo tempo que são a maioria da força de trabalho da capital, população negra também é a com maior índice de desempregados

Mayra Dias

18/11/2021 18h34

Foto: Arquivo Pessoal

“O mercado de trabalho reflete o sistema racializado da sociedade brasileira. Ele é racista e isso reflete nesses números”, avalia Jean Lima, presidente da Companhia de Planejamento do Distrito Federal (CODEPLAN), quanto aos números divulgados pela empresa nesta manhã de quinta-feira. O levantamento faz parte da Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED), realizada periodicamente pela entidade e, especialmente no mês de novembro, traz o Boletim Populações Negras.

A população negra, conforme traz o estudo, era, no 1º semestre de 2021, a força de trabalho predominante na capital federal, mas, mesmo assim, ainda representam a maior parcela de desempregados. “Os negros são o maior contingente dos desempregados, recebem os menores rendimentos e tem a mais baixa qualificação”, comentou o dirigente ao abrir a live transmitida pela Codeplan através do Youtube. Conforme traz o boletim, a taxa de participação da população negra de 14 anos e mais na força de trabalho do DF era de 67,1% 69,3% da população negra estava, no mesmo período, desempregada. Esses valores, quando tratando-se da parcela não negra ficaram em 61% de empregados e 30,7% do grupo sem emprego.

Os resultados, conforme salienta Lucia Garcia, do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese), refletem a grande necessidade econômica pela busca de renda, e os prejuízos trazidos a esse grupo, que é maioria na capital, quando se trata de trabalho. Através dos números, foi possível constatar que, no DF, dentre os desempregados, destacaram-se aqueles trabalhadores com experiências anteriores. Quando comparado com o mesmo semestre em 2019, a taxa subiu de 67,9% para 71,2%, em 2020 e para 71,7% em 2021. Tais dados, contudo, são bastante diferentes quando se trata da outra parcela estudada, onde a diferença foi de apenas 7,2 pontos percentuais.

Reflexos de um país escravocrata

Tais valores, de acordo com Lucia, são reflexo também de uma bagagem histórica. “Nossa condição hoje tem raízes na formação da primeira força de trabalho do país, que foi pautada no rapto, na tortura e no trabalho forçado”, destacou a economista, citando questões como a forma com que os negros foram inseridos no mercado após a abolição e o impedimento destes de terem acesso ao estudo. “É a questão do telhado de vidro. Na medida que temos algumas intervenções importantes do ponto de vista da legislação, como o assalariamento, por exemplo, nós temos uma seletividade que tira os negros das condições melhores”, comentou.
É possível notar esse efeito quando analisados os números referentes ao setor de autônomos. Neste segmento, onde os rendimentos são menores, o boletim constata um maior equilíbrio com relação a quantidade de pessoas negras e não negras na área. Na condição de assalariado, por exemplo, foram 3.194 negros contra 5.541 do outro grupo. Atuando como autônomos, por sua vez, os números registrados foram de 1863 e 2.390, respectivamente. “Há uma certa perversidade. É como se a igualdade só fosse possível quando temos baixo bem-estar e baixa qualidade de vida expressos por baixo rendimento”, destacou a profissional.

Gênero como mais um dificultador

Dentro da parcela negra, há ainda outro fator a ser analisado: a desigualdade de gênero. Elas, segundo os dados apresentados por Lucia, correspondem a 38% do total de desempregados. Contemplando esse grupo, está Maria Antônia Gomes, de 22 anos. Desempregada há 8 meses, a moradora de Formosa GO conta que, na maioria das vezes que não consegue uma vaga de trabalho, é por não ter a “imagem” desejada pela empresa. “Além de ter que provar a minha capacidade profissional o tempo inteiro, tive que passar por vários julgamentos referentes a minha imagem”, relatou a jovem que já trabalhou como professora, secretária e maquiadora.

Tendo que trabalhar gratuitamente por um tempo, até “provar” ser de confiança, Maria Antônia relembra que, em suas entrevistas de emprego, as pessoas sempre deixaram claro o desconforto com relação a sua imagem. “Frequentemente escuto ´essa não é a imagem que estamos procurando´, mesmo preenchendo todos os requisitos profissionais”, compartilhou a desempregada. Maria comenta ainda que, experiências como a ela são, constantemente, narradas por amigos próximos que também são negros. “Meus pais, inclusive, também passam por isso. Minha mãe sempre quis fazer um curso relacionado à saúde, mas nunca teve oportunidade. Certa vez, ela comentou isso com uma amiga dela, e a mesma disse que ela só iria poder fazer trabalhos na área da limpeza, pois não tinha capacidade intelectual pra passar na prova do curso”, expôs.

Para a jovem, cada entrevista é um ciclo exaustivo de provações. “Os olhares são cruéis e frios, como se fossem superiores só por serem brancos”, diz. “Se você é negro, não importa a sua formação acadêmica, pois você não tem capacidade para desenvolver qualquer trabalho que não seja na área da limpeza”, completou Maria Antônia. A taxa de desemprego, ainda segundo a pesquisa da CODEPLAN, se mostrou persistente na faixa etária a qual a moça faz parte. Jovens entre 18 e 24 anos, e adultos entre 30 e 39 anos, representavam, juntos, mais da metade dos desempregados negros no 1º semestre de 2021, totalizando 51,5%, diferentemente do observado em 2020, também no 1º semestre, quando essa taxa foi de 54%.

Se tratando do tempo de procura, para esse grupo, os números também diferem. Comprovando como a busca por emprego tem se tornado um desafio no país nos últimos anos, cenário esse já comprovado pela própria Companhia de Planejamento. O levantamento traz que, o tempo médio ocupado pela população desempregada do Distrito Federal buscando ocupação ficou próximo a 54 semanas durante o 1º semestre deste ano, reforçando, mais uma vez, os prejuízos trazidos a todos os setores da economia pela pandemia da covid-19. No 1º semestre de 2021, 61,4% dos desempregados ficaram mais de seis meses procurando por trabalho. Destes, 37,2% permaneceram na busca de 6 a 12 meses e 24,2% mais de um ano. Esses percentuais foram maiores que os levantados nos seis primeiros meses de 2019, quando foram 30,6% e 23,0%, respectivamente.

    Você também pode gostar

    Assine nossa newsletter e
    mantenha-se bem informado