O sonho de 83 deficientes visuais virou realidade no Distrito Federal: eles se tornaram escritores. O Projeto Luz & Autor, ambulance idealizado pela Secretaria de Educação conquista visibilidade no mundo há 14 anos. Com o lançamento do livro, os autores ganharam espaço para expressar seus sentimentos por meio de poesias, crônicas e relatos.
Em 1995, a voluntária da Biblioteca Braille de Taguatinga, Dinorá Couto, teve a oportunidade de criar um projeto que desse mais espaço à biblioteca, que antes era localizada em uma sala na Escola Classe 6 de Taguatinga. Em um ambiente precário e sem uma boa infraestrutura, o local que até então não tinha telefone, fax e máquinas para a redação de textos em braille, foi transferido para o Espaço Cultural Teatro da Praça. “Eu tinha o dever de criar algo que revolucionasse DF” contou a fundadora.
O projeto foi efetivado com o lançamento do livro “Revelando autores em braille”, que é inteiramente produzido com textos escritos por deficientes visuais que buscaram inspirações em livros de 58 escritores brasilienses. Por ser um trabalho incomum, a equipe de produção do livro enfrentou dificuldades. A transcrição do livro era feita em uma máquina que já tinha mais de cem anos. O lançamento aconteceu após seis anos de produção.
Cuba foi o local escolhido por Dinorá para o primeiro lançamento do livro. Em uma viagem ao país em fevereiro de 2001, ela aproveitou a para expor o trabalho realizado em Brasília. Com a boa repercussão, o livro passou a ser indicado para ser apresentado em eventos sociais e a receber encomendas de instituições.
Livro dá visibilidade
Em maio do mesmo ano o livro foi lançado no Teatro Nacional de Brasília e a partir daí, nada mais segurou o projeto. Depois do lançamento, outras atividades que atraíssem mais leitores e escritores começaram a ser desenvolvidas.
O trabalho passou a ganhar visibilidade cada vez que era realizada uma nova exposição no Teatro Nacional, Biblioteca Nacional, Feira do Livro, Escolas e Faculdades. Além dos textos, os deficientes visuais começaram a explorar a comunicação através de peças de teatro, música e recitais de poesias.
Como é o caso de Noeme Rocha da Silva, relações-públicas da biblioteca de Taguatinga. Fundadora do projeto ao lado de Dinorá, Noeme, que é deficiente visual, teve participação no livro com uma poesia escrita em braile, inspirada nos livros do escritor Joanir de Oliveira.
Divulgação de Obras
Ela conta que no início o objetivo era buscar leitores para fazer a divulgação do projeto indo a escolas especializadas no trabalho com deficientes visuais. Foi quando conheceu seu marido no Centro de Ensino Especial de Deficiente Visual (CEEDV), localizado na 612 sul.
Noeme conta que resolveu participar do livro porque sempre gostou de poesias e seu sonho era poder escrever. “O projeto que iria valorizar o trabalho dos deficientes visuais foi uma oportunidade que eu tive para divulgar minha poesia”, explicou ela que teve sua poesia “Experiências Novas”, em homenagem ao seu marido e ao filho, publicada no livro.
O livro proporcionou a Noeme além da amizade com Joanir, a oportunidade de ministrar oficinas e aulas de alfabetização e integração dos deficientes visuais, em faculdades e escolas. Hoje ela escreve poemas, letras de músicas e interpreta textos e peças teatrais. “Depois do projeto e do livro, eu me sinto uma escritora de verdade”, vibra Noeme.
Mais conhecimentos
Além deste projeto de inclusão social via literatura, Dinorá desenvolveu há cinco anos o Programa Brincando de Biblioteca com Programa Literário, que visa a atender principalmente as escolas públicas do Distrito Federal. “Buscamos estimular a leitura dos alunos do Ensino Fundamental de forma que eles possam levar adiante o conhecimento adquirido”, explicou a professora. Dinorá ministra uma oficina de três horas em cada escola e ao final os alunos participantes recebem um certificado.
“Esses projetos são muito gratificantes; não há nada que pague esse esforço. E para mim está sendo uma oportunidade única e maravilhosa. Afinal, não é porque sou aposentada que não posso trabalhar. Quem se assume como educador, vai ser para sempre e o resultado é maravilhoso”, atesta Dinorá.
A caminho de Portugal
O Projeto Luz & Autor em Braille tem 14 anos de existência e foi desenvolvido na Biblioteca Braille de Taguatinga pela professora Dinorá Couto Cançado. Finalista do Prêmio Viva Leitura 2007 e Mão da Cidadania 2008, o projeto caminha agora para a participação no simpósio Leitura, Literatura e Inclusão, em Portugal, que acontece entre os dias 19 e 23 de julho.
A iniciativa visa incentivar leituras, dinamizar a Biblioteca Braille e promover a socialização dos deficientes visuais por meio da integração com os escritores brasilienses. A inclusão ocorre com a leitura, como comprova a autora do livro em uma pesquisa oferecida pela Secretaria de Educação do DF, realizada com 46 deficientes visuais.
No ano do bicentenário de Luis Braille (criador do Sistema Braille), o sonho se tornou realidade com resultados valiosos e prática comprovada por trabalhos científicos. Em novembro, outra confirmação desse trabalho será mostrada em Uberlândia (MG), durante evento na Universidade Federal de Uberlândia.
Já o Projeto Brincando de Biblioteca com Programa Literário consiste em realizar uma série de oficinas literárias oferecidas pela Universidade de Brasília (UnB), com o apoio do Governo do Distrito Federal (GDF), nas escolas públicas de Ensino Fundamental do DF.
| Mais informações: www.littera-apl.org/conference dinoracouto@gmail. com Telefone: 9970-1366 |