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Projeto da Unicamp dá aulas de reforço para estudantes indígenas espalhados pelo Brasil

O “ Cursinho Colmeia Indígena” une professores e voluntários que buscam promover o ingresso de novos estudantes originários no ensino superior

Gabriel Bezerra
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Na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), recentemente apontada como a terceira melhor universidade da América Latina pelo Times Higher Education (THE), um projeto do campus de Limeira, a 160 km de São Paulo, organiza um curso preparatório desde 2010 que busca levar estudantes indígenas para as salas de aula da instituição. As inscrições para as turmas deste ano do ” Cursinho Colmeia Indígena” estão abertas até o próximo domingo (8), e as reuniões serão realizadas de forma remota.

O curso promove aulas de conteúdos básicos de Biologia, Matemática, Física, História, Geografia, Filosofia, Sociologia, Redação, Gramática, Inglês, além de proporcionar oficinas interdisciplinares e o “Café Literário”, onde ensinamentos de literatura são misturados com cafés da manhã.

Para Josely Rimoli, doutora em Saúde Coletiva, professora da universidade e coordenadora do projeto, o curso nasceu a partir do interesse de diminuir as desigualdades impostas pelas escassas oportunidades de educação para os jovens indígenas no país. “O Colmeia começou em 2010 apenas com três giz de quadro e um pano para usar de apagador, dentro de um centro comunitário de Limeira, hoje o centro comunitário é todo destinado ao cursinho”, conta.

Para ingressar no Colmeia, o estudante deve responder um formulário no site e responder perguntas sobre a sua origem, sua disponibilidade e seus dados pessoais. 500 vagas estão sendo ofertadas para as turmas deste ano. Segundo Josely, 33 etnias de 9 estados já estudam no cursinho preparatório.

A professora diz que a maior dívida do Brasil em sua vasta história é a desigualdade social, e isso também é presente na educação. “Não é estudante indígena que chega com dificuldade em matemática, linguagem e letramento. Eles não tiveram uma escola que respeitasse as suas diversidades e que oferecesse oportunidades”, afirma.

Essa desigualdade é vista no cotidiano do projeto de extensão da Unicamp. A doutora diz que houve ocasiões em que na horas destinadas à comunicação dos integrantes do curso, a maioria dos alunos não sabiam exatamente qual era a finalidade do projeto e também não estavam cientes sobre as características da vasta gama de cursos oferecidos pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

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Para Josely, para corrigir esse efeito, o ideal é melhorar o ensino médio público brasileiro, a partir de investimentos governamentais, e também promover a educação dos estudantes indígenas, que poderia proporcionar o compartilhamento dos ensinamentos entre o educando e os seus familiares: “O saber indígena é coletivo, ele leva para a sua comunidade aquilo que ele aprende ao longo da sua vida”

Relatos de ex-estudantes

Filha e neta de indígenas Mundurukus do sudoeste do Amazonas, Edilene da Silva tem 39 anos e mora na cidade paulista de Limeira com os filhos. Após concluir a Educação de Jovens e Adultos (EJA), conheceu o “Colmeia Indígena” pela televisão e decidiu se inscrever. Edilene entrou no curso em 2015 e após estudar no curso, conseguiu ingressar na Faculdade de Pedagogia da Unicamp em 2017, e atualmente está se formando na sua graduação.

A futura pedagoga diz que a experiência vivida no projeto de extensão foi decisiva para a sua formação pessoal. Antes de ingressar, ela ainda nem conhecia a universidade campineira, e a partir da sua inscrição no semi-intensivo do coletivo, se empenhou para conseguir a sua tão sonhada vaga.

Mãe solteira, Edilene diz que em alguns dias de aula precisou levar os seus filhos até o espaço físico onde o projeto atuava. “Tinha vezes que eu tinha que levar os meus filhos para o cursinho, e lá eles foram super bem recebidos pelos outros integrantes do projeto.”

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Presença de brasilienses

O “Colmeia Indígena” contará com a presença de voluntários brasilienses para dar aulas remotas para os estudantes indígenas. A estudante de filosofia da Universidade de Brasília (UnB) Marília das Neves, 20, após ver a divulgação do projeto nas redes sociais, decidiu se oferecer para dar aulas da sua área do conhecimento para os alunos do coletivo.

A estudante é descendente de povos indígenas da região sul do Ceará, e está em processo de “retomada”, experiência pessoal em que descendentes de indígenas nascidos fora dos seus territórios originários fazem para resgatar os seus costumes e ancestralidades. “Além da minha formação acadêmica na licenciatura de filosofia, o fato de estar retomando as minhas culturas foi o que me motivou a me tornar voluntária no cursinho”, conta.

Marília se considera entusiasmada para o início das aulas que se iniciarão na próxima terça-feira (10). A oportunidade será a primeira da estudante em educação de jovens e adultos indígenas, que pretende reforçar as aulas com conteúdos de autores e experiências adquiridas pelos povos originários: “Como professora de filosofia do ‘Colmeia’, eu espero conseguir integrar a área com leituras de autores indígenas, como Daniel Munduruku, que tem sua formação na filosofia também. e muito mais do que só passar um conteúdo, trocar saberes e manter a tradição holística dos povos indígenas.”

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