Eles não querem apenas o pagamento do salário, que deveria ter sido depositado no quinto dia útil. Também querem que todos os atrasados sejam colocados em dia, e isso inclui férias, horas-extras, 13º salário e até rescisão contratual. Professores do DF acusam o governo de se aproveitar das férias letivas para prejudicar os trabalhadores, que – junto com outras categorias – fazem acampamento de protesto em frente à sede do Governo do Distrito Federal. Do outro lado, o governo diz que pagamentos são prioridade, mas não há verba.
Desde a última sexta-feira, a Praça do Buriti amanhece com barracas de acampamento ocupadas por cerca de 50 pessoas. Naquele dia, servidores e prestadores de serviço protestaram pedindo solução para o problema de repasses que se arrasta, em alguns casos, desde o ano passado.
“Só o salário não basta. Queremos tudo o que nos é de direito”, afirmou o professor e diretor do Sindicato dos Professores (Sinpro), Geraldo Ferreira, 47 anos. Com ele, dezenas de pessoas se aglomeram na praça, inclusive famílias inteiras. A filha de cinco anos acompanha Guiomar Lobato, 40. “Não tenho com quem deixar”, justificou ela.
CATEGORIAS UNIDAS
“Isso é um ato chamado pela Central Única dos Trabalhadores (CUT) para garantir que o governo regularize o pagamento dos servidores efetivos, temporários e terceirizados que têm algum vínculo com o GDF”, explicou Rodrigo Rodrigues, diretor da central sindical, que garante: o acampamento só terá fim quando houver um posicionamento concreto em relação às pendências.
A maior parte dos reivindicantes é de professores, mas há também servidores do Detran, da Administração Direta, e terceirizados e de todas as categorias que não receberam algum tipo repasse do governo. “Existem várias pendências financeiras, como a dos aniversariantes de dezembro, por exemplo, que ainda estão sem o 13º salário”, completou.
Rescisão
Os quase dez mil professores de contrato temporário tiveram rescisão no mês passado, mas ainda não receberam por isso. Os efetivos da Educação e auxiliares da Saúde também não teriam recebido os salários. “Todas as cinco empresas que prestam serviço ao GDF apresentam algum tipo de problema. Alguns não recebem pagamento referente ao mês de setembro”, destacou o diretor da CUT.
“Está todo mundo no vermelho”
Todos aqueles que estão acampados ou acompanhando o protesto de alguma forma têm reclamações das consequências que enfrentam em virtude dos atrasos nos pagamentos.
“Quero minhas férias. Aqui, está todo mundo no vermelho. O governo afirma que está trabalhando para pagar, mas os juros seguem correndo. Ninguém vê isso”, reclamou a professora temporária Elaine Alves, 36.
Pedro Guedes de Melo, 33, contou que “no extrato bancário, os juros continuam sendo cobrados. Tirei hoje. O BRB, por ser do governo, deveria observar que não estamos recebendo e levar isso em consideração. E depois, como será?”.
O Sinpro explicou que tenta reverter a situação com o banco.
“A gente está pagando multa e juros por atrasos de salários e benefícios no País em que o Governo Federal garante ter a educação como prioridade. Quando o governador se candidatou, também disse isso. Agora está se contradizendo”, desabafou o professor Wesley Dias, 35.
Cheios de incertezas
As faltas de garantias geram ainda mais insegurança para os trabalhadores. “Não nos dizem nada. Estamos aqui cheios de incertezas e dívidas. Queremos o que nos é de direito”, disse Devison Ferreira, 35.
Para ele, não importa se o governo garante que pagará o que deve amanhã ou daqui a dois, três meses. “Minhas contas não esperam. Da minha condição, tenho clareza. Da deles (do governo), não”, finalizou.
Versão Oficial
O chefe da Casa Civil, Hélio Doyle, afirma que “o motivo do não pagamento é estritamente financeiro”. Mesmo com o governador dizendo que a prioridade é quitar as dívidas com os trabalhadores, Doyle assegura que não há dinheiro para que isso seja feito. Além disso, “uma greve não resolve o problema”.
Como divulgado na última semana, os salários da Educação devem mesmo ser depositados na próxima quarta-feira. “O governo reconhece que deve demais e vai pagar, mas ainda não tem condições de dizer quando”, observou, em relação às demais pendências citadas pelos manifestantes.
Mesmo considerando o protesto legítimo, Doyle reitera que a atitude não resultará na mudança de opinião da equipe de governo, “pois é uma questão de ter o dinheiro para pagar”.
Se por enquanto não há alternativa para o pagamento de tudo o que é devido, o representante do GDF afirma que “posteriormente, o pagamento das horas-extras, décimo terceiro e férias será negociado”.