Menu
Brasília

Polícia se arma contra excessos nas estradas

Arquivo Geral

25/06/2015 6h30

“As coisas estão passando mais depressa. O ponteiro marca 120. O tempo diminui. As árvores passam como vultos. A vida passa. O tempo passa”. Eles querem ser Roberto Carlos. E no auge da velocidade. Só que, na vida real, chegar a 200 km/h não tem rima.  “Voar pela vida”, como canta o Rei, tem gerado inúmeros prejuízos Brasil afora. E, no Distrito Federal,  não é diferente.  Na tentativa de reverter o cenário, a Polícia Rodoviária Federal (PRF)  vem utilizando um  “super-radar” nas estradas da região. O resultado é impressionante. Em apenas um dia, no último domingo, mais de mil condutores foram flagrados dirigindo acima da velocidade permitida na BR-060, rodovia que liga o DF a Goiânia (GO).  

 Em janeiro, assim que começou a ser testado na BR-060, o  radar portátil  já havia flagrado 1.580 casos de excesso de velocidade em quatro horas, uma média de 6,58 ocorrências por minuto. Segundo a PRF, essa é mais uma das formas de fiscalização encontradas para tentar reduzir acidentes, que, no último feriado, de Corpus Christi, resultaram em mortes. Em todo o País, destaca o órgão, pelo menos cem pessoas são vítimas de acidentes no trânsito diariamente. No DF, só em 2014, 200 morreram em colisões nas estradas da região. E  a estatística pode ter acréscimos este ano. Até maio, foram 119 óbitos. 

“Recentemente, houve um acidente envolvendo moto e veículo, filmado por outro motociclista, cujo velocímetro mostrava que estava a mais de 200km/h”, exemplifica a chefe do Núcleo de Comunicação da Polícia Rodoviária do DF, Pamela Vieira. 

Feriado

E os números citados acima não somam o feriado de Corpus Christi, em que a própria PRF-DF registrou aumento de 60% no índice de mortes nas rodovias da região. Em 2014, foram registrados cinco óbitos. Neste ano, foram totalizados oito. 

Os policiais   da BR-060 são os que mais utilizam o radar móvel, cuja capacidade de registro chega a dois quilômetros de distância. “Eles têm a vivência da rodovia e sabem que o excesso de velocidade é uma das principais causas de acidentes graves lá”, destaca Pamela. 

“Essa conduta certamente contribui para os acidentes muito mais do que as estatísticas mostram”, completa. De acordo com ela, é comum, principalmente aos fins de semana, alguns motociclistas utilizarem essa via para   passeios em alta velocidade. 

 Fatores que mais causam  acidentes
 
Dos 1.150 acidentes ocorridos nas rodovias neste ano, 385 foram na BR-040 e 356 na BR- 020. Mais de 60 pessoas morreram nas duas estradas até maio. Em todo o ano passado, foram somados pela PRF 2.836 acidentes nas vias que cortam o DF. As duas BRs, mais uma vez,  foram as que mais contabilizaram colisões, com 887 e 958 respectivamente. Houve 131 vítimas. 
 
Entre as principais causas das batidas, além da alta velocidade, estão as ultrapassagens indevidas, a ingestão de  álcool e a desatenção dos condutores. 
 
“Na 040, temos um trecho urbano complexo, em especial do km 0 ao 24/GO. Ali,  cidades são cortadas pela rodovia, mesclando fluxo urbano com rodoviário. Há  grande quantidade de pessoas que entram na via sem cuidado. Há apenas três passarelas em toda a extensão. Depois, há o trecho de pista simples, em que a maior causa de mortes tem sido ultrapassagens indevidas, assim como no trecho de pista simples na BR-020. Não há como criar um ranking de rodovias perigosas levando-se em consideração apenas o excesso de velocidade”, analisa a PRF Pamela Vieira.
 
“Existe uma indústria de infrações”
 
O JBr. foi à BR-060 acompanhar como funciona um dia de fiscalização com o radar portátil e, em menos de dez minutos, um veículo foi flagrado a mais de 120km/h. “Ele só não será multado porque estamos no módulo teste no aparelho”, apontou o policial rodoviário federal André Luís Alves da Silva. Segundo ele, há algumas regras ao utilizar a ferramenta durante as operações. “Tenho que ficar à vista e devidamente uniformizado”, detalha. 
 
Na BR-060, a velocidade máxima permitida para veículos leves, ou seja, carros e motos, é de 110km/h. Caminhões devem trafegar na via a, no máximo, 90km/h. “A pista é boa, mas o trecho urbano é pequeno. Então, imagino que pessoas aproveitam e aceleram. E não só em finais de semana. O que acontece aos finais de semana é que há mais carros. Mas o excesso de velocidade existe todos os dias”, conta. 
 
Penalidades
 
O valor das multas por excesso de velocidade pode chegar a R$ 574,62, quando a infração é gravíssima. Nesse caso, o condutor tem ainda sete pontos na carteira, apreensão da CNH e suspensão do direito de dirigir. Ao exceder o limite em 20%, a penalidade é de R$ 85,13 e quatro pontos na carteira. A chamada infração grave é considerada entre 20% a 50% acima da velocidade permitida e implica multa de R$ 127,69 e cinco pontos. 
 
A agente da PRF Pamela Vieira explica que o órgão não tem uma equipe específica para utilizar o radar portátil. “Temos alguns policiais capacitados para usá-lo, lotados nos cinco postos da regional”, observa. Hoje, a PRF-DF conta com dois aparelhos deste tipo. A assessora faz questão de destacar que a ferramenta não tem a intenção de “fabricar multas”. “Não existe uma indústria de multas, existe a indústria de infrações”, frisa. Além do instrumento, enfatiza, há ainda os radares clássicos, que “ficam sempre visíveis”. 
 
Manifestações distintas
 
Apesar de os acidentes serem recorrentes e o número de mortes subir a cada ano nas rodovias do Distrito Federal, há quem acredite que, para melhorar, é preciso aumentar o limite de velocidade das estradas. Só assim, seria possível avaliar até que ponto pisar no acelerador é, de fato, o grande responsável pelas tristes estatísticas. 
“Não acho que isso seja a principal causa. Há países, por exemplo, que têm a velocidade máxima muito maior do que aqui nas rodovias, e o número de acidentes é bem menor que no Brasil. Falta atenção. Falta prudência”, avalia o músico Ezequiel Fontes, de 21 anos. “Na BR-060, por exemplo, em alguns trechos, o limite é 80 km/h. Podia ser 100 km/h”, observa. 
 
Outros condutores veem o controle e a penalidade como as principais formas de modificar o atual cenário nas estradas brasileiras. “Tem que aumentar a fiscalização, infelizmente. Se você aliar isso à bebida alcoólica, à imprudência, vai ver que está tudo ligado. Acho que deviam ser até mais rigorosos”, opina o operador de máquinas agrícolas Valdemar de Souza, de 35 anos. 
 
Assim como ele, a enfermeira Vera Lúcia Rodrigues, de 54 anos, acredita que a solução está no controle. “Não só nas estradas, mas nas cidades também. Esses dias, eu parei na faixa de pedestres e arrebentaram a traseira do meu carro. O cara não conseguiu frear”, afirma.
 
 

    Você também pode gostar

    Assine nossa newsletter e
    mantenha-se bem informado