Cerca de 40 familiares e amigos se despediram nesta terça-feira (6) de Orédio Alves de Rezende, 85 anos, um dos pioneiros da capital federal. Ele morreu em decorrência de complicações respiratórias causadas pelo novo coronavírus, que contraiu há cerca de dois meses. Ele teve alta, mas uma pneumonia, entretanto complicou o quadro de saúde do idoso. Por volta das 6h da última segunda-feira (5), ele faleceu.
O goiano da cidade de Pires do Rio lutava contra dois cânceres – linfomas nas células do manto e na bexiga -, e, por dois meses, enfrentou as mazelas geradas pela covid-19. Ele foi hospitalizado no fim de fevereiro no Hospital Alvorada (Asa Sul), mas não resistiu e faleceu em decorrência de problemas pulmonares. Ele deixa esposa, três filhos, netos, bisnetos e amigos de longa data.
Orédio estruturou a primeira rede de autopeças de Brasília (Induspina Autopeças), em 1958, dois anos antes da inauguração da cidade. O negócio permanece de pé na quadra 514 da Asa Sul. O empresário, que também era fazendeiro, teve a vida documentada no filme “O legado de um pioneiro”, lançado em outubro de 2019. Na estreia, o pioneiro recebeu o Título de Cidadão Honorário de Brasília, concedido pela Câmara Legislativa do DF (CLDF), proposto pelo deputado Daniel Donizet (PSDB-DF). O filho e jornalista Flávio Resende foi um dos idealizadores, produtores e roteiristas do longa.
Vindo de Anápolis (GO) em 1957, Orédio veio a Brasília já com o objetivo de se tornar gerente do negócio que este ano completa 63 anos. A primeira loja foi aberta na Cidade Livre como braço do setor de autopeças do Grupo Pina, organização goiana em que trabalhava desde os 17 anos e onde começou como faxineiro. Em 1964, tornou-se sócio da empresa. Em 2001, o comerciante foi reconhecido e agraciado na primeira edição do projeto Mercador Candango, realizado pela Fecomércio-DF.
“Um grande mestre”
A esposa, Ana Rosa Silveira, 67, o conheceu na loja de autopeças quando começou a trabalhar na empresa, em 1973. Orédio havia se separado do primeiro casamento e os dois começaram a desenvolver um relacionamento naquele ano – ela com 18 e ele com 32. “Para mim ele foi um grande mestre. Me ensinou tudo o que eu sei. Meus pais me educaram bem, mas quem me lapidou foi ele. Não conheci ninguém como ele. Um homem íntegro, honesto e com tantos outros adjetivos. Não digo isso porque é meu marido, mas porque todos também o reconhecem assim”, afirmou.
Segundo ela, Orédio era um homem simples e humilde, sem apego patrimonial ou financeiro, apesar das conquistas ao longo da carreira como empresário. “Ele gostava mesmo era de ficar na fazenda. Ele tinha muita bondade e gostava de ajudar os outros. Dinheiro não tinha valor para ele, não fazia questão”, comentou.
Dos 47 anos juntos, Ana se dedicou, nos últimos sete, a cuidar exclusivamente do marido, uma vez que o câncer contraído (linfomas nas células do manto) é muito raro. Ele se voluntariou, portanto, aos estudos da doença por profissionais de saúde de Goiânia, para onde se deslocavam frequentemente antes da pandemia da covid-19 a fim de ajudar em descobertas para o tratamento do câncer. “No início do diagnóstico, os médicos davam apenas dois anos de vida para ele. Ele viveu sete – e só não viveu mais por conta dessa doença maldita. Isso prova que os remédios estavam fazendo efeito”, contou.
“Nesses últimos sete anos, deixei de viver a minha vida para viver a dele. O que acalenta meu coração é saber que eu fiz tudo o que podia enquanto ele estava vivo, cuidando dele a todo momento. E ele era muito grato. Sempre me dizia que só estava vivo por minha causa. Então eu vou chorar de saudade, não por coisas que eu deixei de fazer [por ele]. Ele me dizia que eu era o maior achado da vida dele”, compartilhou.
“É um homem que eu não vou esquecer jamais na minha vida. Ele me ensinou tudo o que eu sei”, disse ainda. Agora, os negócios serão tocados pela matriarca, mas ela já pensa em se aposentar. Essa ideia, porém, nunca passou pela cabeça de Orédio. Mesmo hospitalizado, o pioneiro perguntava a Ana como estava o movimento na loja. Chegava a ir à empresa apenas para ficar dentro do carro vendo o vai e vem dos clientes. “O nome dele era trabalho. É o filho mais velho dele”, finalizou a esposa.
Para o filho, Flávio Resende, o legado do pai foi de um homem íntegro, que ensinou e viveu de acordo com o que falava, sempre honrando com suas palavras e compromissos. “São alguns valores que estão em desuso hoje em dia. Aquilo de que o que se fala é suficiente – não há necessidade de assinar nada. Sua palavra por si só basta. O avô dele ensinou para o pai dele, que ensinou para ele e ele ensinou para a gente [filhos]”, contou.
“Ele era um homem simples, uma pessoa de origem rural. Então ele também nos ensinou esses valores do contato com a terra, do cultivo, do adubar, do regar. Isso aplicando na vida também. No sentido de semear, adubar e regar projetos. Talvez o mais difícil seja a perseverança no cuidado diário, mas ele fez. Isso fica de legado não só para nós filhos, mas também para os amigos e outros familiares”, disse.
O sócio, Sebastião Feliciano da Silva, 80, o conhece desde os 12 anos de idade, quando também começou a trabalhar na Induspina, ainda em Anápolis. Para ele, o amigo de longa data era “uma pessoa sem igual”. “Dava um tratamento especial e respeitoso para todas as pessoas. Sempre fez o que estava ao alcance dele para te ajudar nas suas dificuldades e para te dar o apoio”, contou.
“[A morte dele] Deixa a gente muito triste, mas é a vida. Uma hora todos vamos seguir com seus caminhos. Ele deixa um legado de competência. Sempre foi um empreendedor – estava sempre à frente com seus pensamentos. Foi um pioneiro agraciado”, completou o amigo Sebastião. “Deixo meus sentimentos. Ele descansou. A vida é um dom de Deus e temos que continuar.”



