A Polícia Federal procura os responsáveis pelos crimes de imigração ilegal e tráfico de pessoas, cujas vítimas estavam alojadas em Samambaia. Cerca de 80 homens vindos de Bangladesh teriam sido trazidos ilegalmente ao País, atraídos por promessas de emprego. O Jornal de Brasília esteve nas regiões investigadas pela PF, no ano passado. Ali, é comum ouvir relatos sobre a presença dos estrangeiros, que foram encontrados pela PF em situação considerada degradante.
A investigação concluiu que há pelo menos quatro “coiotes”, naturais do país asiático, que intermediam a entrada dos trabalhadores no Brasil. A viagem custaria entre 10 e 12 mil dólares, geralmente pagos pela família do imigrante. Os motivos da vinda seriam a baixa remuneração naquele país – cerca de cem dólares mensais –, e as péssimas condições de trabalho, com mais de 14 horas de expediente. Os atravessadores prometiam salários de R$ 3 mil.
Segundo o delegado Dennis Cali, o fato que chama atenção é a naturalidade dos imigrantes, pois a Polícia Federal nunca havia trabalhado com vítimas de países tão distantes. “Geralmente, são pessoas vindas da Bolívia e do Paraguai”, disse o chefe do Serviço de Repressão ao Trabalho Forçado.
Para chegar ao Brasil, eles percoriam 16 mil quilômetros. Passavam por uma rota que saía de Daka através de Dubai e chegava ao País por três caminhos diferentes: via Peru, entrando no Acre pelas cidades de Epitaciolândia e Assis Brasil; pela Bolívia, ingressando no Brasil via Corumbá (MS) e, da Guiana, via Boa Vista (RR), o que revela uma nova rota usadas por coiotes que ainda não estava no radar das autoridades brasileiras. Nessas fronteiras, eram instruídos a pedir o status de refugiado. O aumento de pedidos de refúgio por cidadãos de Bangladesh chamou a atenção da Polícia Federal. Em 2010, foram 39 e no ano seguinte, 111.
Aqui, a situação encontrada era bem diferente da prometida. “Eles viriam para trabalhar no abate, em frigoríficos. Mas existem mais pessoas do que empregos, e as vítimas acabam tendo que trabalhar na construção civil, em sub-empregos ou ficam desempregados”, explicou Cali.
Procurada pela reportagem, a embaixada de Bangladesh em Brasília foi surpreendida pelo notícia e pediu apoio ao Ministério da Justiça.
Motivos para abandonar a terra natal
Um dos imigrantes relata que existe perseguição em Bangladesh, e a própria polícia seria responsável por crimes contra inocentes. Por conta da tensão e também das condições de trabalho, os bengaleses se sentiam no direito de se mudar. Com dificuldade de se comunicar em português e inglês, o imigrante conta que gosta do Brasil e que não gostaria de voltar para casa.
Tido como um dos mais qualificados de um dos grupos, outro imigrante também conversou com a reportagem. Ele fala inglês e concluiu um curso na área de tecnologia da informação. Mas ao chegar no Brasil, teve que trabalhar em um pequeno mercado da região.
O local com concentração dos imigrantes fica próximo a uma fábrica de alimentos. Moradores dizem que muitos dos bengaleses trabalhariam no empreendimento. Responsáveis pelo estabelecimento não foram encontrados para comentar o assunto.
O presidente da comissão da Câmara dos Deputados que investiga o tráfico de pessoas, deputado Arnaldo Jordy (MD-PA), informou que apresentará pedido de convocação de suspeitos de tráfico internacional de pessoas para trabalharem no DF.