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Brasília

Pesquisa vai ouvir adolescente vítimas de exploração sexual

Arquivo Geral

24/02/2009 0h00

De seus 33 anos de vida, ailment Juma Santos passou 10 praticamente morando na Rodoviária do Plano Piloto. Ainda criança, perdeu a mãe, e, sem ter para onde ir, adotou o local como seu lar. Ali, trabalhou como engraxate e entrou em contato com as drogas e vários tipos de violência, principalmente a policial.


Para sustentar o vício, submeteu-se à exploração sexual. E, também por causa do vício, foi parar na Penitenciária Feminina do Distrito Federal, a Colméia. Um ano e oito meses de reclusão.


Somente após esse período a vida de Juma começou a mudar. Ela voltou para a rua. Não para viver nela, e sim para ajudar quem ainda permanecia na Rodoviária, sujeito às mesmas violações de direitos  por ela vivenciadas. Fundou uma organização não-governamental. Hoje, é o principal elo entre adolescentes em situação de risco que frequentam o local e pesquisadores da Universidade de Brasília que começaram, em fevereiro, um estudo sobre a vida desses jovens.


A idéia da pesquisa surgiu no final de 2008. A partir de denúncias de exploração sexual de menores tanto da Rodoviária quanto no Setor Comercial Sul, a Comissão de Direitos Humanos da Câmara Legislativa do DF promoveu uma audiência pública para discutir o problema e as alternativas para saná-lo.

A UnB foi convidada a participar dos debates, representada pela professora Maria Lúcia Leal, diretora do Grupo de Pesquisa sobre Violência e Exploração Sexual e Comercial de Mulheres, Crianças e Adolescentes (Violes).


Na audiência, surgiu a proposta de realizar uma pesquisa na região, para traçar qualitativamente a trajetória social dos adolescentes atuando no contexto da prostituição. E ficou decidido que a UnB, por meio do Violes, ficaria responsável por realizar o levantamento, conta Maria Lúcia. A iniciativa recebeu o apoio da Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República.


DIFERENCIAL – De acordo com a professora, o diferencial da pesquisa é fazer com que os jovens sejam, ao mesmo tempo, sujeitos e objetos do estudo. A pesquisa se pretende qualitativa e participativa. “Por meio de oficinas, vamos devolver a palavra aos adolescentes, buscando conhecer suas histórias, relações com a família, com as instituições – como a polícia – e com os demais grupos sociais ”, explica. A metodologia, na opinião da docente, “permitirá a desconstrução de estigmas e mitos”.


“A pesquisa coloca o menino em um papel ativo, como prevê o Estatuto da Criança e do Adolescente, resgatando a subjetividade perdida”, elogia a deputada Erika Kokay, que preside a Comissão de Direitos Humanos da Câmara Legislativa do DF.


Marleide Gomes, aluna do oitavo semestre de Serviço Social, integra a equipe que executará a ação. Para ela, a vantagem da metodologia escolhida é mesmo dar voz aos participantes, para que eles apontem as políticas públicas que achem necessárias. “A maioria dos projetos sociais não consegue fazer isso”, diz. Lucas Brito, calouro do mesmo curso, vê no projeto “uma oportunidade de intervir na ponta dos problemas vivenciados pelos adolescentes”.


A amostra do estudo será composta de 20 adolescentes, meninas e meninos, que serão selecionados por dez pesquisadores, a maioria alunos da UnB. “A relação é de dois meninos para cada pesquisador. Assim, o acompanhamento poderá ser mais efetivo”, avalia Maria Lúcia.


CIDADANIA – Segundo a professora, depois de selecionados, a situação legal e de saúde dos adolescentes serão checadas. “Vamos proporcionar a eles bem-estar social. Não queremos que um menino participe estando sujo, doente, faminto, sem documentos”, diz.


Cada participante receberá uma bolsa, durante os dez meses que deve durar o levantamento de dados. “Como o adolescente será um auxiliar na pesquisa, ele terá direito a receber o benefício”, afirma Maria Lúcia.


A ex-menina de rua Juma Santos elogia a iniciativa do Violes. “É uma experiência nova, que coloca os meninos como protagonistas. Eles vão se sentir valorizados, porque não será observado apenas o ‘lado negro’ deles”, diz.

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