Segurança e confiança no parceiro. De acordo com o coordenador do Pólo de Prevenção de DST/Aids da Universidade de Brasília, shop Mário Angelo Silva, este foi o argumento usado por 70% dos 250 casais heterossexuais entrevistados para explicar o não uso de preservativos nas relações sexuais. A pesquisa foi realizada entre abril e outubro de 2008, com universitários de Brasília, na faixa de 20 a 28 anos, e que estavam juntos há pelo menos 4 meses.
Dos 250 casais, só 2,5% fizeram testes de HIV. Segundo Mário Angelo, o uso de preservativo era feito em relações esporádicas, mas não dentro da relação estável. “Eles disseram que, depois que um conhece o outro e rola o amor, as pessoas confiam mais nos parceiros e dispensam a camisinha, ignorando que vêm de relacionamentos anteriores e que podem transmitir doenças na relação atual”, constata.
A pesquisa também revelou que não usar o preservativo poderia significar demonstração de amor, credibilidade e fidelidade. Mário Angelo, porém, lembra que, para contrair DST ou Aids é preciso apenas uma relação sexual. “O HIV de quem está infectado está no esperma e no sangue, no caso do homem, e na secreção vaginal e leite materno, no caso da mulher”, ressalta. O vírus da Aids se alimenta de proteína e, por isso, não é encontrado na saliva, lágrima ou suor dos portadores.
Durante a pesquisa, os entrevistados foram estimulados a utilizar preservativos femininos. “As pessoas já têm resistência em usar o preservativo masculino e, com o feminino, isso é muito maior, por conta do formato, que assusta um pouco”, revela o professor. Mário afirma que a camisinha feminina possibilita à mulher um maior poder de barganha na relação sexual, já que o homem pode se recusar a usar o preservativo por desconforto ou redução do prazer. “Vivemos numa sociedade machista, onde a mulher fica à mercê da vontade do homem”, lamenta ele.
Uma das vantagens do preservativo feminino é que ele pode ser introduzido na vagina até oito horas antes da transa. Alguns modelos apresentam uma espécie de esponja que adere ao útero, absorve o esperma e reduz a possibilidade de derramar.
“A parte de cima fica para fora da vagina e pode se tornar um pouco antiestético”, observa Mário Angelo, ao lembrar que os entrevistados sugeriram que essa parte fosse confeccionada em forma de coração ou com outras cores, para se tornar sensual.
Estranheza
Após superarem a estranheza, os participantes da pesquisa notaram que o conforto e a eficácia se sobrepuseram à estética, diz o professor da UnB. Um fator que pode dificultar a aquisição é que a camisinha para mulheres é um pouco mais cara do que a para homens. Um pacote com três unidades é vendido a R$ 14. Mas milhares de exemplares estão disponíveis em unidades públicas de saúde. Na avaliação de Mário Angelo, é preciso divulgação maior entre profissionais da saúde. “Muitos não oferecem as camisinhas por não conhecerem. Elas ficam armazenadas e perdem validade.”
O coordenador do Pólo de Prevenção de DST/Aids da UnB alerta que a maioria das pessoas acha que a Aids é “uma doença do outro” e que nunca vai pegar. “Ficou na cabeça que só homossexuais, usuários de drogas injetáveis e profissionais do sexo estariam correndo risco”, condena. “Esta é uma falsa ideia.”