Para qualquer canto olímpico que você olhar, sempre verá um voluntário chinês, ou vários, limpando com prazer.
Seja nos banheiros, nas mesas dos refeitórios, nas escadas rolantes, inclusive nas quadras de tênis, a obsessão pela limpeza torna os Jogos de Pequim, sem nenhum exagero, os Jogos Olímpicos “mais limpos” da história.
Tanta dedicação à limpeza faz com que se vejam cenas surpreendentes para os olhos ocidentais. Assim, você pode tropeçar na porta de um banheiro nos sete empregados uniformizados a postos para passar um pano imediatamente depois de você deixar o local.
Ao entrar no banheiro, a pessoas é recebida por homens e mulheres na porta com um grande sorriso no rosto e se despedem da mesma forma. Depois, não perdem um segundo para limpar o local.
Nas grandes mesas do refeitório do Centro Internacional de Imprensa, também é comum ver empregados limpando os lugares onde os jornalistas se sentam, enquanto outros continuam comendo do outro lado.
Outros se dedicam a limpar as escadas rolantes. Seu método de trabalho é mais simples: molham os limpadores e ficam sobre um degrau e descem com eles colados aos vidros laterais.
A cena mais insólita talvez é a que foi vista no Centro Olímpico de Tênis nos dias de chuva. A quadra não é coberta com lonas. Assim que a chuva acaba, esforçados voluntários vão até a quadra e absorvem a água com toalhas. Por mais tempo que isso possa durar, não há outra maneira de fazer isso.
No judô, o intervalo das sessões de combates da manhã e da tarde põe em ação a outra equipe que limpa o tatame e os assentos do público.
Em um país de 1,3 bilhão de habitantes, tudo parece ser executado em grupo.
Para resolver o problema de uma praga de algas no litoral da cidade de Qingdao, sede das provas de vela, foram mobilizadas três mil pessoas e quase mil navios, que retiram 50 mil toneladas em poucos dias.
A campanha higiênica para erradicar os “maus costumes” da população chinesa em público, como cuspir ou jogar lixo na rua, está dando resultados pelo menos perante os olhos dos milhares de visitantes estrangeiros.
A aplicação de multas de até US$ 7 para aqueles que forem pegos cuspindo em Pequim ajudou a frear o costume, também estendido aos taxistas, junto com o de comer dentro do veículo.
O trabalho em grupo também se estende aos bares, onde servir uma cerveja pode se transformar em um trâmite longo, já que uma pergunta ao cliente o que ele deseja, outro vai ao congelador buscar a bebida, um terceiro abre a garrafa e um quarto cobra o dinheiro. Tudo isso sob o atento olhar de um supervisor.
Os refeitórios do Centro Internacional de Imprensa também estão repletos de voluntários, vestidos com gorros de plástico e com luvas nas mãos para servir a comida. Às vezes, parece que brigam entre si para entregar a bandeja ao jornalista.
O plano dos organizadores de oferecer comida segura durante os Jogos também se estende à Vila Olímpica, onde estão 20 mil pessoas, das quais mais de cinco mil são pessoal de segurança, limpeza e manutenção.
O refeitório pode oferecer quase cinco mil refeições, e as previsões são de que sejam consumidas 200 toneladas de carne até o final dos Jogos.
Poucas vezes foi visto nos Jogos Olímpicos um compromisso evidente com a limpeza e com a higiene, em um país onde os quatro alimentos considerados mais gostosos – ninho de pássaro, pepino-do-mar, nadadeira de tubarão e orelha-do-mar – podem parecer extravagâncias ao paladar ocidental.