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Pelo bem das mulheres: Em busca da dignidade menstrual

De acordo com uma pesquisa feita pelo Unicef, com 1.730 mulheres, 35% afirmaram que passaram pela falta de acesso a absorventes

Por Mayra Dias 14/10/2021 8h40

“A garantia de condições de higiene adequadas no período menstrual”, é assim que a médica ginecologista do Hospital Anchieta, Renata Gobato define o termo dignidade menstrual. De acordo com uma pesquisa feita em julho deste ano pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), com 1.730 mulheres, 35% delas afirmaram que já passaram por alguma dificuldade pela falta de acesso a absorventes ou outra forma de ter garantida a sua higiene neste período.

O contexto, conforme defende a médica, é extremamente danoso para a saúde dessas personagens. Renata explica que o período menstrual exige vários cuidados de higiene que devem ser respeitados a fim de evitar quadros infecciosos desde os mais simples até os mais complicados e graves, como vulvovaginites, infecções urinárias ou pélvicas. “É importante entender que o sangue menstrual é um tecido celular, e por isso, pode ser meio de cultura para proliferação de bactérias e fungos. O uso de acessórios de higiene adequados são fundamentais nesse período. Para mulheres com falta de acesso a absorventes os riscos aumentam consideravelmente, uma vez que acabam usando objetos não apropriados ou acabam permanecendo muitas horas com o mesmo absorvente, aumentando ainda mais a chance de infecções”, explica.

Diante disso, a profissional destaca a importância de haverem campanhas e ações voltadas para o assunto, de modo que essas mulheres sejam protegidas, informadas e beneficiadas com os itens necessários para atravessar esse momento. Mesmo sendo a unidade da Federação com maior renda per capta, no DF, mais de 477 mil mulheres vivem em situação de baixa renda, ou seja, com um ganho médio de R$ 663,00. Na Estrutural, onde se localiza a comunidade de Santa Luzia, se concentra o menor desses números. No local, as mulheres passam o mês com R$ 459,00 sendo o gasto aproximado de R$ 12,00 para absorventes, muitas vezes, inviável, e como tal item não é considerado essencial, é aplicado sobre ele um imposto de 27,25%. Os dados, por sua vez, correspondem a mesma pesquisa da Unicef, e revelam uma realidade pouco debatida.

O levantamento também traz que 38,1% das meninas matriculadas nas escolas não têm acesso a pelo menos um dos itens como banheiro, papel higiênico, pia ou sabão, e mais da metade das alunas do 9º ano, na capital, não dispõem de itens básicos de higiene pessoal.

Dignidade Feminina

Pensando nessas mulheres, a Secretaria de Justiça e Cidadania (Sejus), em parceria com as demais secretarias do GDF coordenadas por mulheres lançará, no próximo dia 18 deste mês, a campanha ‘Dignidade Feminina – Da transformação de meninas a mulheres: mais cidadania e menos tabu’.

“O nosso objetivo é desmistificar tabus sobre a menstruação e apoiar nossas adolescentes, nessa fase de transformação de meninas a mulheres, e na relação com seu próprio corpo”, salienta a secretária de Justiça e Cidadania, Marcela Passamani.

A ação buscará promover o debate sobre a falta de recursos para cuidados íntimos durante o período menstrual, além de estimular a doação de absorventes, roupas e demais itens de higiene. Na avaliação de Renta Gobato, ainda existem muitos tabus ao se falar em saúde íntima, e ações como essas são de extrema importância para estimular o público feminino a buscar informação. “Alguns mulheres se sentem constrangidas, ou desestimuladas, ou não possuem acesso à consultas ginecológicas de rotina e acabam não compreendendo bem o próprio corpo, sua fisiologia, o ciclo menstrual, os cuidados com cada fase do mês, o que é fisiológico daquilo que não é”, acrescenta. A profissional pontua ainda que, tal desinformação, pode gerar inúmeras consequências, como o aumento do risco de doenças, infecções, em último caso infecções graves como sepse e mais raramente até morte.

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GDF também tem o interesse em ajudar

“Falando de uma maneira mais geral, a falta de acesso a informações sobre o tema aumenta as chances de câncer, assim como aumenta a chance de gestações não planejadas e ISTs (infecções sexualmente transmissíveis)”, aclara.

O público alvo da campanha do GDF é, desta forma, formado por adolescentes e mulheres em vulnerabilidade social atendidas por programas sociais do GDF, da rede pública de ensino e do Sistema Socioeducativo.

Durante a aplicação, haverá rodas de bate-papo em escolas, capacitação de apoiadores (professores, profissionais da saúde, conselheiros tutelares e entidades que atendem mulheres adultas e adolescentes), incentivo a doações e distribuição de cartilhas informativas.

O projeto, como explica a dirigente da Sejus, visa contribuir para a implementação de uma lei distrital sancionada este ano para garantir o acesso de mulheres e meninas em vulnerabilidade à absorventes.

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Como ressalta Marcela, a ausência da dignidade menstrual reforça a desigualdade de gênero na sociedade. “Estamos falando, por exemplo, de estudantes que deixam de ir à escola ou de praticar esportes quando estão menstruadas porque não têm condições de comprar absorventes. Isso é um problema grave, que precisa ser debatido e solucionado”, argumenta.

Ação do GDF

Os kits de higiene, então, serão arrecadados em uma ação integrada entre o poder público, a iniciativa privada, a sociedade civil, as empresas atacadistas de supermercado e as redes de farmácias do DF.

A proposta é, segundo o que expõe a gestora, que as secretarias envolvidas na ação indiquem pontos de coleta para as doações.

A secretária de Turismo, Vanessa Mendonça, colocará à disposição os centros de atendimento ao turismo (CATs) e a rede hoteleira para contribuir com a causa. A Sejus disponibilizará as unidades do Na Hora e do Procon, e, por fim, a Secretaria de Educação (SEE) indicará as instituições de ensino às quais serão destinadas as doações e demais atividades da campanha. Vale ressaltar que a Secretaria de Desenvolvimento Social também fará parte das ações, reforçando, ainda mais, a temática, em especial a atenção para as meninas e mulheres que vivem em risco social.

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Saiba Mais

Para reforçar a campanha, a Sejus ainda instalou um grupo temático no âmbito do programa DF Criança, formado por representantes de todas as pastas lideradas por mulheres na capital federal.

As secretárias atuarão como embaixadoras da campanha, com apoio da Secretaria de Saúde. Essa união tem por objetivo permitir a ampla cooperação técnico-institucional e o intercâmbio de conhecimentos, experiências, o que colabora para o desenvolvimento de ações conjuntas com foco na ampliação do acesso a informações e insumos higiênicos ao público-alvo da campanha.

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