Leandro Cipriano
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Menores de idade em situação de trabalho são encontrados com frequência em semáforos, rodoviárias e demais localidades da capital. O último dado atualizado da Secretaria de Desenvolvimento Social e Transferência de Renda (Sedest) revelou que cerca de 670 crianças e adolescentes que estavam em situação de trabalho no DF, no ano passado, são supervisionados pela pasta. Muitos deles, porém, continuam a trabalhar no Lixão da Estrutural, como mostrou o Jornal de Brasília na edição de ontem.
Mas, apesar de esses jovens serem acompanhados pelo governo, dados do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) revelam que no Distrito Federal foram contabilizados nas ruas, de janeiro a setembro do ano passado, um total de 615 menores de idade em situação de trabalho. Números bem próximos dos informados pela Sedest. Até o fechamento desta matéria, o MTE não revelou se esse quantitativo teria subido até o final de 2011.
Ainda assim, o DF é considerado por especialistas como um dos locais com o menor índice de trabalho infantil, em comparação com o restante do País. “De maneira geral, o DF sempre teve menores percentuais, mas isso não justifica que a unidade da Federação com a maior renda per capita do País ainda tenha trabalho infantil”, apontou Renato Mendes, coordenador Nacional do Programa para Eliminação do Trabalho Infantil, da Organização Internacional do Trabalho (OIT).
Setor doméstico
Segundo Mendes, o DF apresenta mais jovens em situação de trabalho no setor doméstico, com a maioria representada por meninas, em áreas comerciais e na reciclagem de resíduos sólidos, na Estrutural. “A OIT propõe ao GDF ações enérgicas desde 2001. A situação do Lixão, onde crianças trabalham em condições insalubres, é um dos problemas mais graves. Mas, lamentavelmente, ações contra o trabalho infantil não têm ocorrido. A ausência do controle acaba deixando o problema mais agudo”, ressaltou.
Além do Lixão da Estrutural, o Jornal de Brasília percorreu os centros de Ceilândia, Taguatinga e Plano Piloto para constatar a situação alarmante. Adolescentes menores de idade vendendo frutas, balas e pilhas casualmente nos pontos de maior movimentação pública são bastante comuns. Mas nas tentativas de abordagem, a reação da maioria dos menores de idade foi se afastar da reportagem.
Na Rodoviária do Plano Piloto, crianças de todas as idades são encontradas no terminal, vendendo guloseimas das mais variadas. A prática sequer causa estranheza à população, já acostumada com a cena. “Todo dia tem crianças trabalhando na Rodoviária. Já ficou comum”, comentou o comerciante Daniel João Pimenta, que trabalha há 20 anos no local.
Poucas crianças que vendiam na Rodoviária quiseram responder às perguntas. Todas se limitavam a acenos de cabeça ou respostas rápidas e vagas, claramente conscientes de que o que fazem é errado. O garoto F., que não deve ter mais de 13 anos, apenas comentou: “Fazer o quê?”, quando questionado o motivo de ele precisar trabalhar tão novo.
Ajuda à família
O jovem vendedor J., com pouco mais de dez anos, disse que não se importa em trabalhar na Rodoviária. “Estou só ganhando o meu”, resumiu o garoto. Um homem, que não quis se manifestar, momentos depois conversou com outros menores e os orientou a vender as balas em outra plataforma.