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Brasília

Pedintes com casa própria tomam as ruas do DF

Arquivo Geral

21/12/2018 7h00

Foto: Myke Sena/Jornal de Brasília.

Rafaella Panceri
rafaella.panceri@grupojbr.com

A quantidade de moradores de rua é estimada em três mil pelo Governo do Distrito Federal. Quando chegam as festas de fim de ano, esse número aumenta — e muito. Quem circula pelo Plano Piloto já pode ver acampamentos espalhados por gramados e na beira de pistas como a L4 Norte e o Eixão Norte. Famílias vindas de outras regiões administrativas, de cidades da Região Metropolitana e de diversos estados do País se aglomeram em situação de higiene precária, em área pública, para receber doações. Os presentes chegam em carros de passeio, que estacionam na pista e logo ficam cercados de gente. Roupas, alimentos, brinquedos e material escolar são os itens mais desejados. Quem chega primeiro leva.

Nos acampamentos, não vive só gente humilde ou em situação de extrema pobreza. Há quem deixe a própria casa para passar o mês como pedinte. Especialistas alertam para a vulnerabilidade das crianças, expostas à violência, ao sol e aos perigos do trânsito. Eles acreditam que meninos e meninas sejam usados como isca pelos responsáveis.

Doações desaconselhadas

A Secretaria de Estado do Trabalho, Desenvolvimento Social, Mulheres, Igualdade Racial e Direitos Humanos (Sedestmidh) recomenda que não sejam feitas doações para não estimular a migração de pessoas para as ruas. “As doações, para quem desejar, devem ser feitas em instituições de caridade do Distrito Federal ou das próprias cidades de onde eles vêm”, adverte a pasta.

Em um posto de combustíveis da Asa Norte, na altura da SQN 214, funcionários reclamam do mau comportamento dos novos vizinhos. Dois acampamentos foram montados ao lado das bombas de gasolina e do lava-jato. De um lado, vivem nove pessoas, entre adultos e crianças, há cerca de 15 dias. Eles vieram de Juazeiro, no interior da Bahia, e chegaram ao DF de carona.

“A gente veio para fugir da seca e tentar a vida aqui. É melhor ficar na rua em Brasília do que no barraco lá”, conta um rapaz de 23 anos, que preferiu ter a identidade preservada. “Queria um trabalho, alimento. Juntar dinheiro para alugar uma casa”, pede.

Foto: Myke Sena/Jornal de Brasília.

Fezes e restos de comida

O acampamento é agitado: moradores de rua chegam com bebidas alcoólicas e compartilham maços de cigarro com os baianos em plena luz do dia. Crianças andam descalças pela grama, repleta de fezes e restos de comida. Moscas varejeiras se proliferam para se aproveitar dos restos. Uma mulher decide levar os filhos para tomar banho no posto de combustíveis, em um dos tanques utilizados para lavar parabrisas de clientes. Um funcionário reclama.

“Eles são muito mal educados e espantam a freguesia”, aponta. “À noite é uma confusão. Vimos uma mulher ser espancada e fomos ajudar. Pediram para não chamar a polícia porque era coisa de família”, relata.

Vão embora de carro para a noite de Natal

Do outro lado de um posto de combustível na 214 Norte , tem um pessoal do Paranoá, conta um frentista. “Eles moram em casa do Minha Casa Minha Vida e chegaram aqui em um Voyage”, compartilha. O grupo conversou com a reportagem. Sem mostrar o rosto, eles confirmam terem vindo de lá pela primeira vez neste ano, em busca de doações de todo tipo. “Roupa e alimento, principalmente, mas ninguém está parando. Muito fraco”, reclama uma jovem de 18 anos, alojada em uma barraca de camping com os filhos e o marido.

Outro rapaz de 20 anos, morador da Cidade Estrutural, diz que ficará até dia 23 de dezembro no abrigo que construiu: uma barraca de lona azul com um colchão velho. “Faço tudo que preciso no posto. Durmo aqui e fico esperando para ver se ganho qualquer coisa”, comenta. Nenhum dos moradores pretende passar o Natal na rua. “Estamos aqui pelas doações”, define uma mulher.

Foto: Myke Sena/Jornal de Brasília.

Vila de barracos

Outro foco de migrantes é a L4 Norte, em uma área de mata próxima do campus Darcy Ribeiro da Universidade de Brasília. Ali, há praticamente uma vila, com mais de dez famílias convivendo em barracos de madeira e lona, em meio a restos de papelão, comida, fezes, galinhas e cães. Uma placa, na beira da pista, diz: “Precisamos de todas as ajudas. Deus proverá”. A mensagem foi escrita por Maria das Dores de Almeida, conhecida como Dona Nem. Aos 43 anos, ela tem seis filhos e deixou a área rural de Planaltina de Goiás há cerca de 20 dias. “Tem tanto tempo que nem me lembro. Meus netos precisam de material escolar, mochila. E eu queria cesta básica e panelas para cozinhar”, conta, enquanto mostra o fogão improvisado. “Faço de tudo aqui. Até feijão”.

Com a chegada da reportagem, crianças avançaram em direção ao carro. “Tia, vai doar alguma coisa? Veio dar alguma coisa pra gente?”, perguntavam. Ao serem questionadas sobre o que gostariam de receber, os pedidos se multiplicaram: duas piscinas, barracas para duas pessoas, mochila, material escolar. Os pais incentivavam. “Fala o que você quer”, diziam.

Não ajudar é o melhor a se fazer

Presidente da ONG Casa Santo André, que acolhe centenas de pessoas em situação de vulnerabilidade no Gama, a advogada Fabiana Moraes é contra doações nesses casos. “Estimula a situação de rua e não agrega. Alguns nem precisam e se aproveitam da situação. Quem doa pode pensar que está fazendo algo bom, mas é só naquele momento e gera uma falsa sensação de bem-estar”, critica, e alerta para a exposição de crianças. “Deveria haver uma fiscalização mais intensiva. O adulto arca com as consequências da exposição ao sol e da violência, até sexual. As crianças não, e muitas vezes são usadas”, avalia. O pedido é por providências por parte do Estado. “O governo tem sido omisso. Todo ano acontece isso”, frisa.

Em resposta aos questionamentos, o GDF afirmou, por meio de nota, que está ciente do aumento do número de pessoas nas ruas durante o período de fim de ano, motivadas por doações de roupas, alimentos e brinquedos. “A maior parte é moradora de estados como Minas Gerais e Goiás e do Entorno do DF”, explanou. Por meio da Sedestmidh, o governo justificou a situação e disse que é difícil traçar indicadores sobre a movimentação de pedintes. “Muitas dessas pessoas ficam em trânsito. Algumas passam somente uma semana ou pouco mais no DF. Por isso, é difícil uma estimativa precisa da secretaria”, diz a nota, enviada por e-mail.

Foto: Myke Sena/Jornal de Brasília.

Compromissos firmados

O futuro governador Ibaneis Rocha (MDB) não se pronunciou sobre o tema, mas no plano de governo constam compromissos como “ampliar e regionalizar os Centros Especializados de Atenção à população em situação de rua, oferecendo nutrição adequada para a sua segurança alimentar e qualificação profissional, viabilizando sua reinserção no mercado de trabalho”. Além disso, a gestão quer ampliar o serviço especializado em abordagem social, com funcionamento 24 horas, além “de reativar e desenvolver programas voltados a grupos considerados vulneráveis”.

No governo de Rodrigo Rollemberg (PSB), as providências adotadas foram semelhantes. O Serviço de Abordagem Social tem 30 equipes, encarregadas de explicar aos moradores de rua as opções disponibilizadas: os centros especializados (Centros POP) — na 903 Sul e Taguatinga —, onde há refeições, cursos, banheiros, locais para lavar roupa e descansar, horta, além de atendimento social e psicológico. Mas ninguém é retirado das ocupações.

Saiba Mais

Pessoas em situação de vulnerabilidade podem recorrer aos 27 Centros de Referência de Assistência Social (Cras) e 10 Centros de Referência Especializados de Assistência Social (Creas), onde são oferecidos auxílio-vulnerabilidade, acesso ao cadastro da Companhia Habitacional do Distrito Federal (Codhab), Bolsa Família e DF Sem Miséria.

Também há atendimento nas 17 Agências do Trabalhador.

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