Bárbara Fragoso
*Especial para o Jornal de Brasília
O tão aguardado período de férias escolares se aproxima e, ao que tudo indica, a diversão será improvisada pelas crianças em toda a cidade. Dos 1,7 mil equipamentos públicos de lazer que existem no Distrito Federal, 650 são parques infantis. Embora o GDF não possua um balanço a respeito da conservação destes espaços, basta circular pelo DF para perceber que muitos estão quebrados, sem manutenção e limpeza.
Três amigos que estudam na mesma escola de São Sebastião aguardam o recesso ansiosos. “A aula acaba ao meio-dia. A gente almoça e espera passar alguns minutos para correr na rua”, conta Wayrlon Nascimento, 9 anos. O parque da Quadra 104, perto da casa deles, possui quatro brinquedos, mas somente um, o “trepa-trepa”, está em condições de uso.
“Uma menina foi descer o escorregador, no Dia da Criança, e um ferro arrancou o couro da perna dela. Nós vimos o machucado”, conta Sanyele Souza, 9 anos. A dona de casa Hilda Isaías, 45 anos, ficou com medo de outras crianças se machucarem. “Peguei um martelo e arranquei o pedaço de ferro que ficava levantado”, relata. Segundo ela, tem muito tempo que não há manutenção.
“Até a areia é muito suja. As pessoas entram lá com cachorros e as crianças correm o risco de pegar doenças por causa das fezes”, acrescenta. “A areia é nojenta, mas na hora de brincar a gente esquece (risos)”, comenta o filho, Igor Isaías, 8 anos.
Brincar de pique-pega, pique-esconde e fazer bolinho de areia são alguns dos passatempos nos parquinhos, mas o desejo das crianças é que o espaço tenha outras opções de diversão. “Eu queria que colocassem mais brinquedos, como roda-roda, balanço e o de escalar”, diz Wayrlon. “A gente também brinca no parque de idosos, mas já perdeu um pouco a graça porque também está quebrado”, completa.
Cenário parecido
Dejetos de cavalo atrapalham a entrada no parquinho da Quadra 103, localizado cerca de 800m de distância do outro. O portão de acesso foi arrancado e as grades das cercas estão rasgadas. Entulho se espalha entre as marcas das pisadas na areia, dos pequenos que correram por lá. Dá para encontrar até chinelo, pedras, escova de cabelo e embalagens de comida.
O chaveiro Antônio Vieira, 39 anos, diz que raramente os dois filhos, de 12 e 13 anos, passam pela área. “Eles preferem ficar em casa. É uma vergonha dizer que isso é um parque. O pior é que, quebrado ou não, outras crianças brincam nele. Elas não têm opção. Está tudo enferrujado”, acrescenta.
Segundo a Administração Regional de São Sebastião, foi solicitada uma vistoria nesses locais para a Secretaria de Obras. A previsão é de que cinco parques sejam reformados: na Rua 35 do bairro Vila Nova; na Rua 6 do bairro Bela Vista; na Quadra 39 do Bairro São José; da Vila do Boa, ao lado da quadra de esportes; e na Quadra 2, São Bartolomeu. Mas não há data confirmada.
Guará
No Guará, estruturas sucateadas dos parques são decorrência da ação de vândalos e do descaso. Na praça da QI 4, o balanço do meio fica enrolado na aresta superior, para que nenhuma criança ouse pendurar- se. Na QI 7, folhas e muita sujeira cobrem a areia. Os galhos secos tornam-se risco de furar os pés. A Administração do Guará não se pronunciou, até o fechamento desta edição, sobre possíveis obras.
Abandono até no Ana Lídia
O Parque da Cidade, considerado o maior parque urbano do mundo, também não está isento do problema. O local, que possui 4,2 milhões de metros quadrados, é uma das principais áreas de lazer da capital. A grama está alta em vários pontos e os formigueiros impedem de pisar descalço entre alguns brinquedos. Além do famoso foguete, várias gangorras quebradas – com barulho que indica falta de óleo – ficam de lado, à espera de conserto.
A diretora do Parque da Cidade, Juliana Neto, assegura que até o fim do ano todo o espaço estará limpo. “A solicitação de manutenção já foi encaminhada à Novacap. A reforma geral está prevista para janeiro do ano que vem”, completa.
Entre 2013 e 2014, a Secretaria de Obras e a Novacap repassaram 106 conjuntos de parques infantis para que cada administração regional fizesse a implementação. Até agora, somente 50 parques foram construídos. A manutenção ficou sob a responsabilidade de 11 empresas, licitadas para cuidar dos equipamentos de lazer em toda a cidade.
De acordo com a Novacap, um processo licitatório está sendo elaborado para a aquisição de dez mil parques infantis. O contrato de compra, ainda sem previsão de assinatura, terá validade de um ano. Toda a comunidade pode solicitar o serviço de implementação por meio do telefone do GDF (156), ou diretamente com as administrações. O atendimento leva em conta a adequabilidade da localização indicada por cada regional.
Preservar para não acabar
A arquiteta e urbanista Karla Madrilis, especialista em bioconstrução e gestão e gerenciamento de obras, ressalta que as áreas de lazer precisam de revisão periódica. “A preservação evita a deterioração. É natural que os objetos sofram desgaste, mas estudar o clima local é uma forma de diminuí-lo”, aconselha.
Segundo ela, outra alternativa é a constante regulação dos materiais, como limpeza para evitar acúmulo de folhas e frutos oriundos das árvores, pintura e reparos em fixações de modo a impedir que as crianças se machuquem.