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Brasília

Parque infantis estão abandonados

Arquivo Geral

19/11/2014 7h00

Bárbara Fragoso

*Especial para o Jornal de Brasília

O tão aguardado período de férias escolares se aproxima e, ao que tudo indica, a diversão será improvisada pelas crianças em toda a cidade. Dos 1,7 mil equipamentos públicos de lazer  que existem no Distrito Federal, 650 são parques infantis. Embora o GDF não possua um balanço a respeito da conservação destes espaços, basta circular pelo DF para perceber que muitos  estão quebrados, sem manutenção e limpeza.

Três amigos que estudam na mesma escola de São Sebastião aguardam o recesso ansiosos. “A aula acaba ao meio-dia. A gente almoça e espera passar alguns minutos para correr na rua”, conta Wayrlon Nascimento, 9 anos. O parque da Quadra 104, perto da casa deles, possui quatro brinquedos, mas somente um,  o “trepa-trepa”, está em condições de uso. 

“Uma menina foi descer o escorregador, no Dia da  Criança, e um ferro arrancou o couro da perna dela. Nós vimos o machucado”, conta Sanyele Souza, 9 anos.  A dona de casa Hilda Isaías, 45 anos, ficou com medo de outras crianças se machucarem. “Peguei um martelo e arranquei o pedaço de ferro que ficava levantado”, relata. Segundo ela, tem muito tempo que não há manutenção.

 “Até a areia é muito suja. As pessoas entram lá com cachorros e as crianças correm o risco de pegar doenças por causa das fezes”, acrescenta. “A areia é nojenta, mas na hora de brincar a gente esquece (risos)”, comenta o filho, Igor Isaías, 8 anos.

Brincar de pique-pega, pique-esconde e fazer bolinho de areia são alguns dos passatempos   nos parquinhos, mas  o desejo das crianças é que o espaço tenha outras opções de diversão. “Eu queria que colocassem mais brinquedos, como roda-roda, balanço e o de escalar”, diz Wayrlon. “A gente também brinca no parque de idosos, mas já perdeu um pouco a graça porque também está quebrado”, completa.

Cenário parecido

Dejetos de cavalo atrapalham a entrada no parquinho da Quadra 103, localizado cerca de 800m de distância do outro. O portão de acesso foi arrancado e as grades das cercas estão rasgadas. Entulho se espalha entre as marcas das pisadas na areia, dos pequenos que correram por lá. Dá para encontrar até  chinelo, pedras, escova de cabelo e embalagens de comida. 

O chaveiro Antônio Vieira, 39 anos, diz que raramente os dois filhos, de 12 e 13 anos, passam pela área. “Eles preferem ficar em casa. É uma vergonha dizer que isso é um parque. O pior é que, quebrado ou não, outras crianças brincam nele. Elas não têm opção. Está tudo enferrujado”, acrescenta.

Segundo a Administração Regional de São Sebastião, foi solicitada uma vistoria nesses locais para a Secretaria de Obras. A previsão é de que cinco parques   sejam reformados: na Rua 35  do bairro Vila Nova; na Rua 6  do bairro Bela Vista;  na Quadra 39  do Bairro São José;  da Vila do Boa, ao lado da quadra de esportes; e na Quadra  2,  São Bartolomeu. Mas não há data confirmada.

Guará

No Guará, estruturas sucateadas dos  parques  são decorrência da ação de vândalos e do descaso. Na praça da QI 4, o balanço do meio fica enrolado na aresta superior, para que nenhuma criança ouse pendurar- se. Na QI 7, folhas  e muita sujeira cobrem a areia. Os galhos secos tornam-se risco de furar os pés. A Administração  do Guará não se pronunciou, até o fechamento desta edição, sobre possíveis obras.

Abandono até no Ana Lídia

O Parque da Cidade, considerado o maior parque urbano do mundo, também não está isento do problema. O local, que possui 4,2 milhões de metros quadrados, é uma das principais áreas de lazer da capital. A grama está alta em vários pontos e os formigueiros impedem de pisar descalço entre alguns brinquedos. Além do famoso foguete, várias gangorras quebradas – com barulho que indica falta de óleo – ficam de lado, à espera de conserto. 

A diretora do Parque da Cidade, Juliana Neto, assegura que até o fim do ano todo o espaço estará limpo. “A solicitação de manutenção já foi encaminhada à Novacap. A reforma geral está prevista para janeiro do ano que vem”, completa.

Entre 2013 e 2014, a Secretaria de Obras e a Novacap repassaram 106 conjuntos de parques infantis para que cada  administração regional fizesse a implementação. Até agora, somente 50 parques foram construídos. A manutenção ficou sob a responsabilidade de 11 empresas, licitadas para cuidar dos   equipamentos de lazer em toda a cidade.

De acordo com a Novacap,  um processo licitatório está sendo elaborado para a aquisição de dez mil parques infantis. O contrato de compra, ainda sem previsão de assinatura, terá validade de um ano. Toda a comunidade pode solicitar o serviço de implementação por meio do telefone do GDF (156), ou diretamente com as administrações. O atendimento leva em conta a adequabilidade da localização indicada  por cada regional.

Preservar para não acabar

A arquiteta e urbanista Karla Madrilis, especialista em bioconstrução e gestão e gerenciamento de obras, ressalta que as áreas de lazer precisam de revisão periódica. “A preservação evita a deterioração. É natural que os objetos sofram desgaste, mas estudar o clima local é uma forma de diminuí-lo”, aconselha.

Segundo ela, outra alternativa é a constante regulação dos materiais, como limpeza para evitar acúmulo de folhas e frutos oriundos das árvores, pintura e reparos em fixações de modo a impedir que as crianças se machuquem.

Espaço de convivência
 
Sujeira e ferrugem compõem o cenário dos parquinhos das áreas por onde o JBr. passou – situação que inibe o uso do bem público. Para a arquiteta e urbanista Karla Madrilis,  toda quadra residencial deveria possuir o seu próprio parquinho, bem como quadra poliesportiva e equipamentos de ginástica. “Brasília foi planejada para que o primeiro convívio fosse na própria quadra e, posteriormente a essa prática, fosse se expandindo pela cidade. Isso quase não ocorre mais”, constata.
 
Pense nisso
 
A ausência de um levantamento que indique a quantidade de parques que carecem de reparos já é um indicativo da necessidade de planejamento. E se falta conservação aos espaços existentes, fica difícil prever o futuro dos prometidos novos pontos de lazer – bonitos, ao menos, na inauguração.
 
Saiba mais
 
Bem cuidados, diversos parquinhos ao redor do mundo  são     curiosos ao fugir do padrão,   unindo design e arte. Alguns exemplos são o  Otterness’s Playground, em Nova York;  e Sculptural Playground, na Alemanha. 
 
A dinamarquesa  Monstrum  possui o título de melhor empresa especializada em parquinhos no mundo, pela criatividade e qualidade. A maioria deles está na Escandinávia, no norte da Europa. 
 
A prática sustentável pode promover a execução de parquinhos com materiais recicláveis, como pneus e garrafas PET. Em Itatira (CE), um casal criou um parque de diversões somente com materiais reutilizáveis. 

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