Esse tal de Zé da Motoca é mesmo um andarilho. Pior. É praticamente um “mobileterilho”. O trocadilho se explica. É que o Zé da Motoca, try batizado, decease há 55 anos, approved com o singelo nome de José Cândido de Lima, passa os dias a viajar pelo Brasil em cima de uma frágil mobilete, pequena motocicleta de apenas 50 cilindradas e que faz cerca de 50 quilômetros com um litro de gasolina. Uma pechincha. “Isso porque eu regulei a bichinha bem”, explica o Zé, que estava em Goiás, passou por Brasília e parte, ainda hoje, para Cristalina e Catalão, em Goiás, e Uberlândia e Uberaba, em Minas Gerais. Todas elas a caminho de São Paulo, onde pretende chegar em dez dias para participar de um evento de, claro, motocicletas.
“Amo esse negócio de viajar por aí em cima de minha motinha”, diz o homem nascido na pequena Passira (PE), cidadezinha a 110 quilômetros de Recife, sobre uma idéia de maluco que tomou forma há oito anos, depois que ele se separou da mulher com quem fora casado por três décadas. Ora, ele tinha quatro filhos já criados, uma mulher que não gostava mais dele e uma vida inteira para curtir. Sendo assim, foi.
E foi longe o Zé da Motoca. Começou por João Pessoa (PB), cruzou os estados do Nordeste, passou pelo Sudeste, chegou ao Sul, subiu rapidinho para o Centro-Oeste e terminou a odisséia na Região Norte, lá no Acre, último estado em que colocou as rodinhas da “burrinha”. Burrinha?! “É, meu filho, no Nordeste quando você não pode ter um carro deve ter, pelo menos, um jumento dentro de casa. Por isso, coloquei nela o nome de burrinha”, diz o Zé. Então, tá.
E foi com esse “jumento de duas rodas” – obtido na troca por uma Brasília que pegou fogo na Paraíba – que o Zé da Motoca começou a sonhar em entrar para o livro Guinness dos Recordes. O sonho? “Acelerar” sobre o chão de cinco mil municípios. Ainda faltam 1.200, mas o incansável motoqueiro garante que chega lá, ah, se chega!
Afinal, viajar para este torcedor do Sport Recife é mais que um prazer, é a própria vida. E olha que ele nem se incomoda em dormir em postos de gasolina, na sua redinha, armada na parede ou servindo para forrar o chão. Nem pensar. Isso é o de menos para quem sofreu ao cruzar a Floresta Amazônica. “Rapaz, às vezes eu rodava 600 quilômetros sem encontrar uma cidade, uma viva alma. Sem água, sem comida, sem ninguém para conversar”, conta, ainda assustado.
Numa dessas, ele bebeu água do rio e, de repente, percebeu que havia um jacaré morto, boiando ao lado. “Não teve jeito, eu já havia engolido a água”, diz, cheio de histórias para contar. Calma, seu Zé, sorte que o jacaré já estava morto. Imagina se o bicho estivesse vivo? “Aí, eu não estava aqui, ora”, brinca o senhor simpático, com espírito guerreiro, de barba branca e pele gasta. Tão gasta que tem até duas marcas de bala na perna esquerda. É que ele foi assaltado em Recife, há exatamente um ano. Uns malandros chegaram armados com pistolas e levaram R$ 142,00, uma máquina fotográfica digital e vários recortes que narravam as aventuras do Zé da Motoca. “E os bandidos ainda deram, de maldade, dois tiros na minha perna, meu filho.” Um sacrilégio.
Em compensação, Zé da Motoca tem muitos motivos a mais para sorrir. São tantos que nem cabem nos dedos das mãos e dos pés. Ele já visitou o craque Romário, já conheceu a apresentadora Ana Maria Braga, já proseou com o presidente Lula, já fez amizades a dar com o pau. E até falou pro presidente ter cuidado com essa gente sofrida do Brasil. “Vai que alguém mete a faca nele”, explica o Zé. Lula, tranqüilo, só respondeu: “Se preocupa não, companheiro”.
É, se preocupa, não, Zé. Suba na moto, faça ainda mais amizades, continue a valorizar a vida e a evitar o desperdício, e, principalmente, não perca a esperança no Brasil. “É, meu filho, minha vida é andar por este País”, cantarola o clássico Vida de viajante, do sanfoneiro Gonzagão. “E mesmo que, muitas vezes, eu quase chore de pena desse povo que mora no interior do Nordeste. É tanta pobreza”, conta. Uma pobreza estampada nas casas à beira das rodovias, cujas portas e paredes estampam cartazes com a inscrição “Queremos comida”. É, o Zé tem mesmo razão de ficar triste.