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Brasília

Palco de protestos históricos, Brasília abre espaço para manifestações democráticas

Arquivo Geral

21/04/2016 7h00

Em 1960, quando discursou na instalação do governo no Palácio do Planalto, Juscelino Kubitschek chamou Brasília de “capital da esperança”. Palavras que pareciam profetizar os últimos acontecimentos. A Esplanada dos Ministérios é palco de manifestações históricas. Protestos contra a Copa, contra a corrupção; pró e contra a gestão petista. E, mesmo com um muro separando diferentes ideologias no dia em que a Câmara dos Deputados decidiu pela continuação do processo de impeachment, a vocação da cidade, anunciada há 56 anos, foi confirmada: Brasília é a capital  da democracia. Projetada para receber o povo, assim o fez.

  No dia da votação relativa ao impeachment,   79 mil pessoas dividiram espaço, no centro da política brasileira, para expressar seus sonhos. “Foi muito bacana. Eu estive lá e percebi que, cada um do seu jeito, com suas ideologias, conseguiu participar. Os lados representavam, de certa forma, um ideal. E isso não interferiu na liberdade, justamente porque   vivemos um momento de muito calor político”, opina a artesã Majo Molieri,   26 anos. 

 Filha de candangos, ela nasceu em Brasília e se declara uma das principais defensoras da vocação da cidade. “Continua sendo a capital dos sonhos. Essa mistura de opiniões, de raças, de amores, isso é Brasília. Agora, por exemplo, a gente observa o próprio movimento alternativo    aparecendo mais. E isso faz parte da construção da identidade”, avalia.

 Formação da identidade brasiliense

Por falar em identidade, é   aí que começa a ligação de Brasília com o significado mais amplo da democracia. Ao instalar a capital  no Planalto Central, local aparentemente inabitável, JK, que pertencia ao Partido Social Democrático (PSD), amarrou a imagem da cidade a uma espécie de “nova democracia”. 

Após o suicídio de Getúlio Vargas, em 1954, o regime antiautoritário estava  ameaçado. Quando Juscelino e o vice, João Goulart, venceram nas urnas, a UDN – na época o mais conservador dos três partidos existentes – passou a tramar contra o governo. Por isso, a nova sede da política  surgiu também como uma  “proteção” da democracia.

Diante do cenário, a  ideia de “uma aspiração geral do  País”  foi  defendida  por JK durante  toda a construção de Brasília. 

Uma nação inacabada

Por falar em identidade, é   aí que começa a ligação de Brasília com o significado mais amplo da democracia. Ao instalar a capital  no Planalto Central, local aparentemente inabitável, JK, que pertencia ao Partido Social Democrático (PSD), amarrou a imagem da cidade a uma espécie de “nova democracia”. 

Após o suicídio de Getúlio Vargas, em 1954, o regime antiautoritário estava  ameaçado. Quando Juscelino e o vice, João Goulart, venceram nas urnas, a UDN – na época o mais conservador dos três partidos existentes – passou a tramar contra o governo. Por isso, a nova sede da política  surgiu também como uma  “proteção” da democracia.

Diante do cenário, a  ideia de “uma aspiração geral do  País”  foi  defendida  por JK durante  toda a construção de Brasília.

Uma nação inacabada 

Há outras possíveis motivações para a criação da cidade, que hoje é cenário também de manifestações pelos direitos de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros (LGBT) e das mulheres, além de pedidos por melhorias no transporte público, na educação e saúde. Para historiadores, um dos conceitos que fundamentaram a construção de Brasília era a ideia de uma “nação inacabada”, que precisava se desenvolver, ocupar vazios demográficos e amadurecer seus próprios rumos. Quanto ao último quesito, parece que há concordância até hoje, inclusive por parte do governador Rodrigo Rollemberg. 

“Brasília deve refletir sobre esse momento (de manifestações). E pode apontar caminhos para a pacificação no sentido de garantir a união em torno do interesse comum”, disse. Na avaliação do governador, a capital reflete “toda a energia” do momento político do País. “É um momento em que o Brasil está dividido em duas posições, mas a cidade tem capacidade de se organizar”, apontou. Por isso, salientou, a atual gestão fez questão de garantir a segurança para ambos os lados e posicionamentos no dia da votação do prosseguimento do processo de impeachment. 

 “A gente sabia que, aberto o processo de impeachment, seria um momento de tensão. E, em função do ambiente radicalizado, tínhamos que buscar alternativas para que as pessoas se manifestassem livremente”, afirmou o governador. A estratégia, que incluiu um muro no centro da Esplanada, foi elogiada por manifestantes e garantiu a participação de famílias no dia da votação na Câmara dos Deputados. 

 “Eu fui com meus pais porque acreditamos na mudança. Vimos que, na capital, as pessoas são envolvidas, independentemente do lado em que estejam. Foi muito bonito. É claro que a questão de alguns partidos falou alto, mas isso foi controlado pela segurança. Não vimos espaço para qualquer discussão ou situação que pudesse colocar alguém em risco”, elogia a jovem Júlia Lopes, 17 anos.  “O povo de Brasília está indo mais às ruas para lutar por seus direitos. A cidade acordou”, completa. 

Arquitetura democrática

Até nos traços, Brasília representa a democracia. O arquiteto Antônio Carpintero, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Brasília (UnB), explica que, na concepção do projeto, Lucio Costa tinha como ideia aproximar o povo do poder. O Congresso é um exemplo. “Ele (Lucio Costa) colocou as duas casas no nível do chão, ou seja, o poder está ao nível da população”, explica. 

Mas, para ele, tais simbolismos foram esquecidos. No entanto, acreditando no sonho de uma nação mais justa, brasileiros encontram na cidade espaço para protestar: “Não vim na última manifestação, mas ouvi falar que foi pacífica”, elogia a carioca Valéria Noel.

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