Os super-heróis já não estão mais nos quadrinhos e desenhos animados ou nos live-actions; eles estão na comunidade e são pessoas comuns. Essa é a premissa de uma das missões do projeto NaMoral, do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT), aplicado no Centro de Ensino Fundamental 15 de Taguatinga pela Secretaria de Educação do DF (SES-DF). Os alunos tiveram que escolher alguém que eles conhecem e admiravam como o herói guardião da sabedoria da escola, e o escolhido foi o porteiro Alberto Ferreira de Paula Carvalho. O programa foi criado para difundir o conceito de cidadania plena, ensinando aos alunos valores como a honestidade e integridade.
Alberto recebe os estudantes do CEF 15 na portaria desde julho de 2008. Para ele, foi uma surpresa receber o título de herói dos alunos e ganhar a votação de guardião da escola. Alberto ama trabalhar naquele ambiente e procura sempre dar o seu melhor, tratando todos muito bem e com muito respeito. “De repente vem esse trabalho aí do Ministério Público para desenvolver esses valores de integridade, ética e cidadania. E aí eles escolhem um super-herói que tenha essas qualidades, e eu estou no meio disso. Eu fico muito feliz de saber que estou no caminho certo”, comentou. Para ele, a educação começa a partir da portaria. “Eu desejo uma boa aula e as coisas começam bem da portaria para dentro”, disse.
Ele sente que o trabalho está dando frutos ao tentar ensinar para os estudantes a maneira com que leva seu trabalho, a como viver melhor. “Eu não esperava. A gente trabalha e faz a nossa parte. Mas o adolescente é bem criterioso. Ou ele gosta ou não.” Com toda essa firmeza dos estudantes, ele acredita que, se os jovens conseguiram enxergar nele um bom exemplo, é algo de que ele se orgulha bastante. “Eles acharam que eu sou uma pessoa bacana e simples”, acrescentou. Sobre a arte feita pela aluna Ariela, Alberto afirmou categoricamente que ela é uma artista. “Eu achei muito bacana esse projeto. Parabéns a todos: à escola, ao professor e à professora, à direção da escola. Eu só tenho que agradecer que muita gente votou em mim, eu fiquei surpreso e feliz.”
Ariela do Carmo Nicolas, de 13 anos, estudante do oitavo ano B, foi responsável pelo desenho. “É o tio Alberto, da portaria da escola. Ele é legal e gentil e todo mundo gosta dele.” Para ela, o heroísmo de Alberto é demonstrado através da bondade, humildade e do carinho com todas as pessoas na comunidade. “Eu aprendi com essa missão, que é sempre bom ser alguém gentil”, comentou. Ariela gostou muito de criar o desenho de Alberto com a capa como um herói digno dos quadrinhos. “Eu me inspiro muito nele por ser uma pessoa boa”, finalizou.
A comunidade escolar para além da sala de aula
A professora Amanda Carla Cardoso de Miranda dá aulas de Língua Portuguesa para as turmas do oitavo ano da unidade escolar e esteve à frente do projeto com a turma. Ela explicou que a iniciativa envolve toda a escola, não só os oitavos anos. “Esse é um projeto que valoriza as pessoas da escola, não só os professores, mas toda a comunidade escolar. Então, desde a portaria até o pessoal que prepara o lanche dos meninos. Todas essas pessoas que às vezes estão escondidas, mas que fazem a diferença na nossa escola e merecem ser valorizadas.”
A ação do MPDFT conduzida pela SES-DF chegou ao CEF 15 em 2026 e, em uma das missões propostas, os alunos do oitavo ano escolheram pessoas para serem os heróis verdadeiros, que são pessoas que ensinam através da prática os valores de integridade, honestidade e outros. Além do porteiro Alberto, uma funcionária da cantina da escola, conhecida como dona Ângela, também foi transformada em heroína pelas crianças. Para ela, essa missão é essencial porque o aluno vai reconhecer todas as pessoas da escola e o quanto são importantes para que a escola funcione. “Não é só o professor; pelo contrário, a escola depende de várias pessoas que estão por trás para que ela funcione. Então, valorizar essas pessoas é extremamente importante.”
A Professora Viviane Medeiros, Articuladora do Programa NaMoral, que atuou como aplicadora do programa, salientou que o NaMoral oferece um suporte estruturado aos professores para ensinar o que muitas vezes fica de fora da grade comum. “Falar sobre valores e sobre quem você é, é algo inovador. As escolas focam muito em ler, escrever e fazer contas, mas ensinar ou reforçar aquilo que é bom, aquilo que é necessário para a gente viver em comunidade, já é mais difícil”, frisou.
Segundo ela, as missões — como a que elegeu o seu Alberto — são a culminância do que é trabalhado em sala a cada bimestre. E ela acredita que toda a comunidade escolar é impactada pelo projeto. “Os alunos estudam as virtudes e passam a identificar que existem pessoas boas que devem ser vistas e, principalmente, copiadas”, concluiu. Ela ressaltou que o programa já alcança mais de 100 escolas.
A escolha do guardião
Alberto foi escolhido por alguns alunos para ser o herói na missão bimestral, mas depois disso ocorreu uma votação para saber, dos heróis escolhidos, quem seria o guardião da escola. Pollyana Costa, supervisora pedagógica do CEF 15, contou que durante todo o bimestre foram trabalhados valores como dignidade, coragem, generosidade, amizade, cultura de paz no ambiente escolar e outros. “A partir daí nós tínhamos algumas missões para desenvolver, uma delas foi a escolha de um herói.”
Pollyana destacou que o herói precisava estar na comunidade, para que os estudantes compreendessem que os heróis de verdade estão no dia a dia. “É aquele que te trata bem, é aquele que cuida de você, que às vezes até dá bronca para o seu próprio bem. O herói é aquele que mostra valores como dignidade, respeito e honestidade”, citou. Ela contou que vários professores foram transformados em heróis, mas foi uma grata surpresa ter pessoas como Alberto que chamaram a atenção dos adolescentes. Depois de uma votação entre os turnos matutino e vespertino, com cédula de votação e urna, Alberto foi escolhido entre sete concorrentes para ser o guardião da sabedoria do CEF 15.
“Eles mudaram a perspectiva de achar que o valor está colocado naquele que muito aparece, naquele que está na mídia, naquele herói que de repente tem um poder extraordinário e entenderam que esses poderes estão nas nossas atitudes diárias”, acrescentou Pollyana. Ela contou que o projeto não terminou e continua pelo menos até o fim do ano com outras missões. “A ideia é que esses valores que estão sendo aprendidos aqui, a partir desse programa, redundem na vida social do estudante, de como ele vai ser como cidadão, inclusive, como ele vai ser nas provas que ele precisa fazer, de como vai tratar o colega, os pais e toda a formação cognitiva e de cidadão consciente”, finalizou.
O estudante do oitavo ano C, Pedro Davi Hernandes Saraiva Alves, de 13 anos, contou que aprendeu muito com a missão e gostou de ver a turma unida, conversando sobre os valores que vão os tornar cidadãos melhores. “É muito importante ter esse projeto na escola. Com o herói guardião principalmente, a gente aprendeu a sermos pessoas que enxergam o mundo de uma forma diferente.”
Garantia de direitos através da formação cidadã
O projeto começou a ser construído há mais de dez anos pela promotora de Justiça do MPDFT e idealizadora do NaMoral, Luciana Asper. Ela apontou que a iniciativa nasceu após anos de experiências e boas práticas colhidas em escolas e que o foco principal é a prevenção e a garantia de direitos através da educação. “A vocação constitucional do Ministério Público é garantir direitos fundamentais, e a forma mais efetiva de garantirmos isso é através da prevenção, quando nós evitamos que esses direitos sejam violados.” A forma de fazer isso é resgatando a essência do ser humano através de um programa de educação que ensine sobre valores como a integridade.
A promotora considera que o alto número de processos judiciais na sociedade é um sinal de que o controle e a repressão sozinhos não bastam. “A única forma de prevenir não é apenas ensinando o não, porque de fato as pessoas já conhecem o não discriminar, não ofender, não machucar, não roubar. Todo mundo sabe o que é não. O que eu não sei é o que eu devo fazer para tratar o outro com excelência.” Logo, a proposta do NaMoral conduz os alunos a uma formação baseada em virtudes e no princípio da fraternidade. “O projeto trabalha a formação dos três pilares: integridade individual, coletiva e altruísta. A ideia é que a gente aprenda a cuidar uns dos outros, promovendo uma formação cidadã.”
Ela apontou que, recentemente, o programa ganhou um reforço institucional importante com a aprovação, por unanimidade na Câmara Legislativa, da política distrital de educação para a integridade — que ficou conhecida como “Lei NaMoral”. “Assim como a gente tem a educação ambiental, agora temos um marco legal para fortalecer essa política pública, para que ela chegue a todas as escolas, públicas e particulares”, pontua a promotora.
Saiba mais:
O NaMoral é uma tecnologia social gamificada que utiliza metodologias ativas, como rodas de conversa e missões práticas, para edificar a cultura da integridade no ambiente escolar. O projeto abrange desde os anos iniciais até o ensino médio, levando os jovens a uma jornada de autoconhecimento e reflexão sobre como suas escolhas diárias impactam a sociedade.
Rede Amigos do NaMoral:
O MPDFT mantém um edital aberto para o credenciamento de pessoas físicas e instituições que desejem integrar a rede de forma voluntária, ajudando a replicar a metodologia de educação para integridade de forma autônoma e seguindo as diretrizes do programa.