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Brasília

Orgulho LGBT: pessoas trans recorrem à prostituição por sobrevivência 

Quando se fala em prostituição que envolve pessoas transgêneros, a imagem que costuma surgir é a de uma mulher trans ou travesti nas ruas das grandes cidades

Agência UniCeub

28/06/2026 15h37

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Foto: Arquivo/Agência Ceub

Por Ana Mendonça e Davi Moisés

Jessica Cavalcanti guardava um sussurro que vinha da infância, uma pergunta ecoada nos silêncios de quem não se via no reflexo do espelho e nem nos afetos da adolescência: “E se eu for mulher?”

A resposta para o enigma de uma vida inteira veio oferecida por desconhecidos nos corredores de um hospital em Brasília. Disfarçado de rotina médica, aos 19 anos, o destino colocou a resolução no caminho da jovem.

Ao buscar o resultado de exames, um enfermeiro leu o que estava escrito no silêncio: “Quando você vai deixar essa moça que está aí dentro sair? Dá para ver nos seus olhos que tem uma mulher gritando para existir”.

Foi o estalo. O encaixe

A costura de uma identidade que sempre esteve ali, à espera de nascer. Mas, a liberdade de ser Jessica cobrou o preço mais comum e violento: a prostituição como único viés de subsistência. 

“Eu não sonhava em trabalhar na rua. Eu sonhava em sobreviver.”

Quando diz isso hoje, aos 26 anos, ela não está dramatizando. Está resumindo a realidade.

A vida antes do programa

Antes da vida noturna, existiu a faculdade de fisioterapia. Antes da maquiagem carregada, o sorriso sincero e frouxo. Antes dos motéis, havia o trabalho fixo, a porta que a sociedade fechou na cara da ex-fisioterapeuta. 

Enquanto estava em um emprego estável, em uma empresa terceirizada que atendia a hospitais, Jessica nasceu. Com um ciclo de amigos saudável, dinheiro e oportunidade, o mundo conhecia uma nova versão dela. A mulher guardada dentro de si, começou a sair. E a travessia que no início parecia fácil, rapidamente mostrou os espinhos. 

Em meados de 2022, aos 21 anos, no entanto, Cavalcanti ficou sem chão quando a empresa fechou e perdeu o emprego. Com a rejeição da família, foi a primeira vez que ela encarou a realidade brasileira das pessoas transexuais, uma vez que após um ano não conseguiu se realocar no mercado de trabalho. Quando as economias acabaram foi também quando tudo desandou.

Mudança forçada 

Após a venda do carro e a mudança forçada da Asa Norte, onde morava, para Samambaia, a vulnerabilidade financeira abriu portas para um tipo de violência mais sutil, a que se disfarça de afeto nas horas de desespero. Sem emprego fixo e com o fantasma do despejo batendo à porta, Renato Almeida, cliente da sauna onde Jessica trabalhava como freelancer, surge como herói. 

Uma tatuagem

Logo que se conheceram, os dois fizeram uma troca: uma noite por uma tatuagem. Ainda que não soubesse, aquele seria o primeiro de muitos programas que ela faria.

De início, Renato era um cavalheiro, pagou as contas atrasadas, demonstrava desejo constantemente. Mas foi logo que o romance ganhou outros tons. O convite para riscar a pele com uma tatuagem, riscou também o destino da jovem, fragilizada, entregou-se a uma dependência emocional profunda. 

O tatuador percebeu a vulnerabilidade e enxergou nela não apenas uma parceira, mas uma oportunidade de negócio. Os dois começaram a morar juntos em poucos meses e Jessica virou a responsável por todas as contas na primeira oportunidade.

Para isso acontecer, Renato criou um perfil em um site de acompanhantes e postou as primeiras fotos da namorada. “Eu nunca tinha pensado nisso. Não imaginava que alguém pagaria para ficar comigo”, relembra.

O medo inicial deu lugar à necessidade. Se no primeiro dia o pavor de se relacionar com desconhecidos a fez ignorar o telefone que não parava de tocar, no segundo ela atendeu. A sorte de cruzar com dois clientes ricos e respeitosos moldou uma falsa sensação de segurança. Mas o verdadeiro perigo não vinha dos estranhos da internet; morava dentro de casa.

Jessica arrumando a cama após um dia de trabalho
Ilustração: Samuel Vianna

O que ela não sabia era que o homem que dividia sua cama era um foragido da justiça, com uma ficha corrida que incluía homicídios, tráfico de drogas e crimes graves. A revelação do passado do companheiro transformou o lar em um cativeiro psicológico. 

O homem, que antes trazia comida para casa, agora chegava drogado, empunhava facas e alimentava traições imaginárias geradas pela paranoia. Após saber do histórico de sangue que ele carregava nas costas, a travesti vivia acuada, incapaz de expulsá-lo por temer pela própria vida. Isso se tornou mais um motivo para que continuasse no programa, bancava os gastos por medo da retaliação.

“Esse relacionamento me destruiu psicologicamente. Antes eu era uma pessoa extremamente confiante. Hoje, depois de tudo o que vivi, qualquer olhar atravessado me afeta. Ele me apagou completamente”, desabafa.

O fim do cárcere privado de Jessica veio através das grades do Estado, Renato Almeida foi preso. Ainda assim, não saiu totalmente da vida da prostituta. A prisão trouxe o alívio, mas também o luto da dependência emocional.

O direito a uma segunda chance

Após sobreviver ao primeiro namorado, Jessica continuou com os programas até que conheceu Mário Vieira, um homem completamente diferente. Um sujeito solícito, protetor e, principalmente, insistente. O que era para ser mais um cliente, se tornou um pretendente. 

Com o auxílio dele, Jessica saiu da rotina excruciante da prostituição. Pela primeira vez na vida, a moça acreditava que merecia aquilo. Descobriu pelos olhos do atual qual era o próprio valor. O que era amor.

Mas essa imagem durou pouco. Mário tinha uma ex-namorada envolvida em um processo na justiça, e para não levantar poeira, pediu para Jessica discrição do relacionamento.

“Enquanto aguardava a audiência, ele me pediu que eu permanecesse distante. Eu aceitei porque acreditava que estava ajudando”, relata. 

Durante os dois meses afastada, Jessica nunca tinha se sentido tão descartada. O príncipe encantado sumiu, a bloqueou e a deixou sem respostas. A única coisa que ficou foi a mágoa. “Depois do processo, abandonou tanto a ex quanto a mim. Se eu soubesse que no fim eu seria simplesmente rejeitada, descartada como lixo, eu não teria ficado”, lamenta. 

O sofrimento, o abandono e a falta de certezas tiveram repercussões profundas na vida da travesti. Uma delas: as drogas. Ela  voltou ao programa e começou a abusar do uso de diversas substâncias como gisele, LSD e cocaína. A jovem as usava em altas quantidades. Ali, foi o nível mais baixo em que chegou na vida.

“No primeiro namoro eu fui muito forte, eu não me envolvi com drogas, passei todo o sofrimento limpa, sozinha, suportando tudo, mas esse segundo não aguentei. Esse relacionamento me destruiu emocionalmente”, lastima.

Jessica em um programa fazendo o uso de drogas com um cliente. Ilustração: Samuel Vianna

Com o passar dos anos, Jessica superou grande parte das dores. Atualmente, ela conta que parte das substâncias que usa são com clientes, uma vez que o uso prolonga o tempo dos programas. Além disso, ela viveu relacionamentos mais saudáveis, passou por cima dos traumas e medos criados pela transfobia.

Apesar da melhora, a travesti não vê futuro na prostituição e tem planos de seguir outros rumos, para que a segurança e a felicidade deixem de ser lembranças de um passado distante e passem a ser realidade.

Por meio  dos livros e dos cadernos, ela projeta o sonho de uma carreira pública estável. Enxerga nos estudos o passaporte para resgatar a si mesma e reaver a dignidade que o mundo lhe roubou.

A cama esticada, os lençóis impecáveis, a toalha trocada

Tudo está pronto para se transformar, em questão de minutos, em um cenário de negócios. Hoje, aos 28 anos, André Calazans tem a voz firme, o maxilar marcado e a barba que sempre desejou.

André em um dia tranquilo após o expediente. Ilustração: Samuel Vianna

Embora estejam unidos sob a mesma sigla que acolhe as identidades de gênero, André e Jessica mostram como as portas de entrada para o mercado do sexo se abrem de formas diferentes para cada corpo trans.

Para quem o vê pelas ruas ou a superar metas do emprego formal como consultor de vendas, ele é apenas mais um homem inserido na engrenagem do cotidiano urbano.

Mas quando o celular vibra, a dinâmica muda. Ali, a masculinidade de André ganha uma cifra precisa: R$ 300 a hora.

Neste labirinto da prostituição, a história de André cruza duas realidades, que a sociedade brasileira empurra para as margens: a transição de gênero e o mercado do sexo.

No entanto, ao contrário da história de Jessica que foi construída em torno da vulnerabilidade e da exclusão familiar, a trajetória do consultor desenha uma perspectiva complexa.

A urgência de ser André

O estalo da identidade veio pelo reflexo da televisão, quando André, aos 12 anos, assistia ao programa Pânico na TV. Na tela, a figura do corpo transmasculino de Thammy Miranda aparecia para o Brasil inteiro.

“Eu me entendi como uma pessoa transexual a partir do momento que descobri que existem homens trans. Não sabia que isso era possível. Olhei aquele cara completamente masculino. Aquilo ficou martelando na minha cabeça “, relembra.

A partir dali, André começou um processo minucioso de descobertas. O moço passou a analisar o passado, os trejeitos considerados masculinos, que até então não entendia, e a forma como se posicionava no mundo.

Aos 19 anos, quando conquistou a independência e uma estabilidade financeira mínima, iniciou a terapia hormonal com testosterona. Dedicado a ser quem era, ele traçou uma estratégia de sobrevivência “Ou fazia a transição ou cometeria suicídio”, relata.

Quem usa quem?

A entrada de André no mercado do sexo, por volta de 2022, não foi motivada pelo desespero da expulsão de casa, mas por uma confluência de fatores: a explosão da libido provocada pelos hormonios e o pragmatismo financeiro.

Dose de testosterona utilizada por André para reposição hormonal. Ilustração: Samuel Vianna

Ao perceber que mantinha múltiplos encontros casuais com homens por puro prazer, sem qualquer retorno, André calibrou a balança. Se o desejo do outro estivesse direcionado ao corpo dele, ele passaria a cobrar por isso. “Eu tô usando o cara, ele tá me pagando e eu ainda tô me satisfazendo em uma hora”, pontua, com uma lógica que subverte a ideia tradicional de exploração.

Longe de se sentir diminuído pela atividade, ele encara o trabalho com uma autoestima afiada e ironiza a hipocrisia social que condena quem vende o sexo, mas absolve quem o consome:

“Eu me sinto superior. O cara vem por puro tesão, ejacula em dez minutos e vai embora. Eu sou ‘putão’ porque cobro? Vai você dar de graça por aí. Comigo é 300 conto a horinha. Com as mulheres, meus relacionamentos são casuais por afeto; com homem, é só no Pix.”

Atualmente, a prostituição não é a atividade principal de André, mas um complemento de renda crucial. Houve meses em que os programas e a venda pontual de conteúdo adulto renderam mais do que o salário como consultor de vendas. É o dinheiro do Pix desses clientes que patrocina o guarda-roupa, a estrutura de vida e, principalmente, a transição hormonal.

Autonomia

Quando o cliente vai embora e a porta se fecha, André recolhe as toalhas, lava os lençóis e retorna à rotina de consultor de vendas. Ele não deseja fazer do mercado do sexo uma carreira definitiva. Não investe em anúncios pesados, não busca fama em plataformas de conteúdo adulto e encara a atividade como um pedágio temporário rumo à independência financeira total no comércio.

Ao se olhar no espelho, o sentimento que o preenche não é o de vergonha ou ressentimento. É o de autonomia.

“Sinto muito orgulho de mim mesmo por passar por cima de todo mundo e me colocar em primeiro lugar. Quando olho no espelho, vejo resiliência.”

André sabe exatamente quem é, quanto custa a hora e onde quer chegar. Em um mundo que tenta invisibilizar corpos trans, ele escolheu usar essa mesma invisibilidade para ditar as regras do próprio jogo econômico e existencial. Enquanto o sucesso absoluto nas vendas não chega, seu bem-estar e sua identidade seguem financiados, hora a hora, direto na conta corrente.

O privilégio e apagamento da passabilidade

Em menos de um ano de hormonioterapia, a voz engrossou e o moço se cobriu de pelos. André atingiu o que a antropóloga e especialista em corpos transgêneros, Emilly Costa chama de passabilidade: a capacidade de ser lido socialmente de forma imediata como uma pessoa cisgênero. 

Na prática, isso pode significar menos exposição à discriminação cotidiana. Um homem trans reconhecido socialmente como homem cis, por exemplo, pode acessar oportunidades de trabalho sem que sua identidade de gênero seja questionada.

No entanto, se a passabilidade funciona como um escudo contra a violência explícita nas calçadas, no mercado do sexo ela cobra um preço: a invisibilidade.

Mito 

Quando se fala em prostituição que envolve pessoas transgêneros, a imagem que costuma surgir é a de uma mulher trans ou travesti nas ruas das grandes cidades. Pouco se fala, entretanto, sobre homens transexual que também encontram no trabalho sexual uma forma de sobrevivência.

Segundo a pesquisadora, essa diferença está ligada à forma como determinados corpos se apresentaram ao longo da história, já que a proteção oferecida pela passabilidade tem limites.

Antropóloga e especialista em corpos trans Emilly Costa. Foto: arquivo pessoal

“Mulheres trans e travestis têm maior visibilidade pública. Os homens trans, por outro lado, em alguma medida são invisibilizados. Se isso aconteceu, tem a ver com a ideia de passabilidade”, afirma Emilly. Ela afirma que, quando uma pessoa passa despercebida dificilmente será violentada na rua, por outro, essa segurança é uma ilusão”

Ambivalência 

Transformados em objeto de fetiche, corpos trans, como de Jessica e André, ocupam um lugar contraditório na sociedade brasileira ao carregar o peso de uma hipersexualização que os expõe tanto ao desejo quanto à violência. 

Essa relação entre luxúria e exclusão ajuda a compreender uma das maiores contradições vividas pela população trans no Brasil, em que, de acordo com a Associação Nacional de Transexuais e Travestis, uma pessoa transgênero é morta a cada 4 dias. 

A antropóloga descreve essa dinâmica como uma ambivalência permanente.

Os corpos trans são simultaneamente desejados e fetichizados, mas também são rejeitados socialmente. São mortos, violentados, expulsos dos espaços de poder, do mercado formal de trabalho e, muitas vezes, do próprio direito à vida”, comenta.

Expulsão 

As histórias de Jessica e André ajudam a entender como essa exclusão se manifesta na prática. No imaginário social brasileiro, os corpos trans, a rua e a prostituição costumam aparecer como elementos inseparáveis. A associação parece tão naturalizada que raramente se questiona de onde vem.

Para a pesquisadora, essa relação não é fruto do acaso, mas resultado de um processo histórico de exclusão. Ao longo dos anos, pessoas trans foram empurradas para as margens por diferentes mecanismos sociais: a expulsão de casa, a evasão escolar provocada pela violência cotidiana e a dificuldade de acesso ao mercado formal de trabalho mesmo com ensino qualificado, como é o caso de Jessica Cavalcanti.

“Em um país onde a sobrevivência depende do acesso à renda, o trabalho sexual surge, muitas vezes, como uma estratégia possível. Não necessariamente por escolha, mas pela ausência de alternativas”, analisa a pesquisadora.

A própria forma como a sociedade retrata pessoas trans reforça esse cenário. Crimes e episódios de violência costumam ser tratados como acontecimentos banais, quase previsíveis, que contribuem para a naturalização da morte e do sofrimento dessa população.

Entre avanços e permanências

Para muitas, a diferença está na possibilidade de escolha. Quando se fala em prostituição envolvendo mulheres cisgênero, frequentemente aparece o debate sobre autonomia e liberdade de decisão. 

Para pessoas trans, porém, essa discussão esbarra em uma realidade marcada pela exclusão. Já que aparece como uma das poucas portas que permanecem abertas.

Nesse contexto, falar em cidadania plena para pessoas transexuais torna-se um desafio. Afinal, isso pressupõe acesso a direitos básicos como educação, saúde, trabalho e segurança. Quando esses direitos são negados de forma sistemática, o pertencimento à sociedade também é colocado em xeque.

Para Emilly, a transformação desse cenário não acontece de forma imediata. Uma vez que, sem mudanças estruturais, a prostituição continuará sendo, para muitas pessoas trans, menos uma escolha livre e mais uma alternativa produzida pela própria exclusão.

“Antes de serem entendidas como cidadãs, essas pessoas precisam ser entendidas como humanas. É difícil falar em cidadania plena quando um grupo depende de um mercado majoritariamente marginalizado, como a prostituição, para sobreviver”, afirma Emily.

* Os nomes nessa reportagem foram alterados para segurança dos entrevistados. 

Supervisão de Luiz Claudio Ferreira

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