Há alguns anos, depois de, mais uma vez, errar feio numa partida importante do Campeonato Carioca de futebol, um árbitro carioca deixou a carreira e afirmou que “isso aqui não é para mim”. E era um bom árbitro, apesar dos tais erros cometidos – sempre em jogos importantes, decisivos. Ao ver a seleção feminina de futebol ser eliminada, ontem, nos pênaltis, pela Suécia, começo a achar (e tomara que logo mais Neymar e seus companheiros me façam esperar mais um pouco para errar) que a medalha de ouro olímpica no futebol não é mesmo para o Brasil.
Não se pode falar que o resultado tenha sido injusto porque, o Brasil, nas poucas chances que teve para marcar, mostrou-se incompetente. Ou melhor, nervoso. E a Suécia, visivelmente, jogou para aproveitar-se da necessidade brasileira de chegar à final. Em momento algum viu-se uma jogadora sueca dando chutão, tensa, preocupada. Nem tentando aproveitar-se de algum vacilo da nossa defesa. À beira do campo, enquanto Vadão permanecia de pé o tempo todo, gritando, gesticulando, participando, a treinadora da seleção escandinava ficava sentadinha no banco de reservas, como que se protegendo do sol vespertino carioca.
Se nas quartas-de-final as jogadoras dos Estados Unidos disseram que a Suécia foi covarde, não procurando o jogo em momento algum, o que diriam após a partida de ontem? Mas, mais uma vez, jogando um futebol de resultado, a Suécia levou o jogo para os pênaltis e classificou-se. E agora chega à decisão na base do “tudo é lucro”. Lamentar, talvez, a opção das batedoras: será que Cristiane, vindo de contusão, tinha força e confiança suficientes para bater uma penalidade? Bem agora é torcer pelo bronze das meninas e para que os homens confirmem o favoritismo, logo mais.
E antes que digam que exagero quando falo que o Brasil é favorito, devo dizer que o Comitê Olímpico de Honduras havia marcado o retorno do pessoal do futebol para o dia 12, ou seja, um dia após o término da primeira fase. Pois Honduras passou para as quartas e, chega, hoje, à semifinal. Agora, qualquer que seja o resultado de hoje, ficará por aqui até sábado (se perder, como esperamos, ainda lutará pelo bronze). Seriedade, é só o que se pede.
Mas o dia não foi só de tristeza pela eliminação das meninas do futebol, pela queda do time feminino de handebol diante da Holanda, pela ausência de Roberto Scheidt no pódio olímpico após 20 anos, ou pela decepcionante participação de Fabiana Murer. O canoísta Izaquias Queiroz, logo cedo, faturou uma inédita medalha de prata, em atuação espetacular. Quase tão espetacular quanto, na véspera, foram os saltos de Thiago Braz.
E se a muito a comemorar com a medalha de ouro de Thiago Braz, também há muito que lamentar da postura pouco esportiva do prateado francês Renaud Lavillenie. Comparar a vaia que recebeu a uma atitude nazista por parte da torcida que compareceu ao Engenhão (ao contrário da noite de domingo, quando 40 mil pessoas estavam presentes, cerca de 10 mil, apenas, viram o ouro do brasileiro) é, no mínimo, não saber história. Além de tudo, o francês foi mentiroso ao dizer que a torcida estava contra todos os que não eram brasileiros. O americano Sam Kendricks, por exemplo, que levou o bronze, não recebeu o “carinho” de vaia da galera – e puxou palmas para o francês e festejou a medalha do saltador brasileiro. E se houve falta de esportividade foi dele, Lavillenie, ao não cumprimentar o menino brasileiro e mandar a torcida calar a boca – os árbitro é que devem solicitar o silêncio (bem diferente da gracinha que Usain Bolt faz em todas as provas). Agora, como ele disse, que espere oito anos para dar o troco em Paris. Isso se a cidade for escolhida, dia 13 de setembro de 2017, como sede dos Jogos de 2024.
Finalmente, apesar de ter a certeza de que de nada adiantará, um puxão de orelhas para o Comitê Organizador dos Jogos: morreu ontem, aos 100 anos, João Havelange. Como o ser humano costuma ser ingrato, ele foi convenientemente esquecido de tudo o que se referia aos Jogos Rio 2016, apesar de, quando da escolha da Cidade Maravilhosa, ter feito um discurso emocionado e emocionante, convidando a todos (muitos dos eleitores seus amigos e com “dívidas” para com ele) para virem festejar seu centenário em sua cidade. O Rio venceu, ele completou 100 anos e os organizadores o esqueceram. Certamente dirão que foi por causa de sua saúde debilitada. Mentira. Só a ingratidão e o temor de alguma obtusa repercussão explicam seu esquecimento – enquanto isso, ex-presidentes acusados de corrupção foram convidados para eventos olímpicos. Este é o Brasil.