Como dizia Nelson Rodrigues, o sujeito sem sorte morre engasgado com o palito do Chica Bon. No esporte é assim também. Um mau dia, um sorteio errado e lá se vão as esperanças de uma grande conquista. Assim aconteceu com nosso judoca Rafael Silva, o Baby. Quando a chave do judô foi montada ele ficou sabendo que enfrentaria o francês Teddy Riner, que se chegasse (claro que poderia perder antes) ao confronto somaria nada menos do que 109 lutas invicto – isso mesmo, 109 lutas sem perder. Baby tentou, mas o francês fez apenas o que lhe é peculiar e mandou o brasileiro para a repescagem. Se o emparelhamento fosse outro, é bem provável que o confronto entre os dois acontecesse apenas na final. Não foi assim. Baby conseguiu o bronze; Riner, aí já com 112 lutas sem perder, foi ouro, batendo o japonês Harasawa na final. Prata que poderia ter sido brasileira. Ou ouro, afinal, num golpe de sorte…
Logo mais, bem logo mais (o jogo está marcado para 22h), não será por falta de sorte que a seleção masculina de futebol poderá dar adeus aos Jogos. Primeira colocada, como se esperava, apesar do péssimo início, o Brasil de Neymar e Micale sabia que teria pela frente um adversário duro. O que seria melhor, a Colômbia, como será, ou a Nigéria? Lembrando que nosso jogo, há tempos, não encaixa contra os africanos. Mas a Colômbia… Entre outras coisas, ou melhor, entre outros destaques, virá com Borja, o artilheiro da fase decisiva da Libertadores da América deste ano, o homem que eliminou o São Paulo na semifinal (vamos esquecer a lambança de Maicon). É um time forte. Como forte também seria a equipe nigeriana. Se for feito, porém, um scout, nome por nome, o Brasil é favorito. No papel, ao menos.
Ultrapassada a primeira metade (pelo menos em dias) dos Jogos Olímpicos Rio 2016, algumas coisas já estão evidentes. A principal delas é que o grande destaque da Olimpíada carioca é o torcedor brasileiro. Até os atletas mais ranzinzas admitem: a forma de torcer do pessoal que ocupa as arquibancadas (não posso dizer lota porque o que mais se vê são lugares vazios) é contagiante. Pena que os atletas brasileiros não estejam correspondendo, até agora. Ou melhor: pena que nossos atletas, desamparados por uma política esportiva correta, não consigam ir além do que estão fazendo. Que é pouco, sim, mas isso é papo para o final dos Jogos, quando todas as medalhas já estiverem distribuídas.
Se a galera é destaque; e o desempenho esportivo do Brasil é decepção, não dá para esquecer as instalações. As quadras de tênis, recém-inauguradas, já passam impressão de velhice. Tudo bem que ficaram expostas ao tempo, sol, chuva, mas… O velódromo, que atrasou tanto que não teve sequer evento-teste, foi elogiado – mas o preço… A arena da natação recebeu críticas desde o nascimento: é a menor dos últimos tempos em eventos olímpicos, reduzindo o público presente (e logo no Rio, com Michael Phelps fazendo história, isso é realmente um pecado)… Para piorar, no meio do olhar foram colocados alguns pilares. Enormes. E quem não teve a sorte (olha ela aí de novo) de comprar um ingresso longe, teve de ficar desviando para lá e para cá para ver os atletas. Como se vê, muitas reticências.
Os serviços também ficaram na conta do “dever”. Prometer transporte público (e vender bilhetes para isso) de um jeito e “arrumar, dar um jeitinho” de outro, é bem típico de Brasil. Infelizmente. Quando funcionou, porém, os elogios foram totais para a integração metrô (só utilizado pela chamada família olímpica) e BRT. A segurança não pode ser elogiada, nem criticada. Houve quem achasse exageradas algumas medidas tomadas, como evitar a entrada de público enquanto se verificava o que continha uma mochila esquecida. Mas… E se fosse alguma bomba? Ponto para a segurança. Mas as filas enormes porque os detectores de metais falharam, passando a revista para o manual… Coisa de oitavo mundo. Para piorar, quando as reclamações apertaram porque os jogos começavam, deixavam o pessoal passar sem que houvesse qualquer inspeção. Perigo!
Como a segunda semana dos Jogos vai ser marcada pelas finais dos esportes coletivos, pode ser que o Brasil melhore um pouco seu desempenho esportivo. Tomara o futebol siga. Que o vôlei não vacile. Que o handebol encaixe. Que o basquete masculino (as meninas, que decepção, não permitiram nem que se torcesse por elas) fique ligado… No atletismo, poucas (quase nenhuma) esperança. Temos a vela. Que mais? Curar as feridas da decepção do judô, investir na natação, ajudar o tiro esportivo e a esgrima… Retratos de uma semana olímpica.
Só que hoje tem Brasileiro, também. Uma partida em vermelho e preto, outra em preto e branco. No Recife, o Sport, querendo afastar de vez o fantasma do Z-4, recebe o Flamengo – que, em caso de vitória, dormirá de novo em primeiro lugar no torneio. Em Campinas, a Ponte Preta recebe o preocupado Figueirense – se for derrotado, possivelmente o time catarinense entrará no Z-4 com a combinação dos outros resultados do fim de semana. É bom para o pessoal começar a recuperar o ritmo do Gangorrão. Daqui a pouco vai ser ele que voltará a ser o protagonista do esporte no Brasil.